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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

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As anotações de Júlio Marques.

Nuno Crato - Deixem-me aterrar- Afonso Leonardo

julmar, 29.06.11

                                                          Bem pode virar as costas à matemática e implorar a ajuda de Deus

«Dêem-me algum tempo para aterrar» terá sido a primeira expressão do novo ministro da educação. Reconhecimento de que terá andado no mundo das ideias onde encaixam na perfeição umas nas outras livres da contaminação da imperfeição terrena. Os matemáticos puros conhecem a beleza da abstracção, o encanto das deduções e ex perimentam o prazer das conclusões. Depois há uma crença de que os alunos(todos ?) serão capazes de através de de um encaminhamento precoce pela disciplina e pelo esforço (talvez pela chamada disciplina tradicional retirando-lhe a violência física - bofetadas, estalos, reguadas..) de chegar à bem aventurança da cultura, da ciência, da técnica tudo na maior exactidão e rigor. Não tardará e voltaremos a ouvir o cantarolar da tabuada - que saudades, meu Deus! Até, mais do que uma medida simbólica, poderia proceder à distribuição gratuita de uma tabuada por aluno! Ficaria muito mais barrato que distribuir Magalhães e ajudaria a disciplinar os tenros espíritos ao mesmo tempo que os mecanismos neuronais seriam desenvolvidos, nomeadamente na mielinização neuronal e na intensificação sináptica; obviamente, não sendo desprezível os efeitos morais que tais procedimentos levariam na dignificação do professor acrescentado na sua autoridade e na obediência, inicialmente cega, do aluno. Chegou a hora de acabar com o eduquês! É preciso acabar com a ideia romantica encarnada por Rousseau de que "o homem é naturalmente bom" e abraçar a hobesiana ideia do «homo homini lupus» que, obviamente, é uma ideia provada e que Crato, passado o chamado estado de graça, irá confirmar sentindo-o na alma, que niguém se atreverá a mais do que isso. E isto porque os ministros da educação, (se a história algo nos ensina) são normalmente as principais vítimas da falta dela. Digo isto porque me recordo de alunos bem crescidinhos mostrarem o traseiro (postas as calças para baixo) à ministra da educação Ferreira Leite e de gente mais crecida ainda chamar vaca à ministra Maria de Lurdes Rodrigues. E quando não houve respeito por senhoras dignas é de temer o que possa acontecer com um senhor, digno também. Mas provavelmente a história nem se repete, nem tem nada para nos ensinar, única tese aceitável para que alguém possa aceitar ser ministro da educação.

Nuno Crato vem culminar o longo cortejo de ministros da educação (quase 30!), depois(da alvorada) do 25 de Abril, com Cultura ou sem ela, com Investigação ou sem ela, com Ciência ou sem ela, com ensino superior os sem ele - ME, MEC, MEIC, MEU, muitos deles de grande nomeada - Magalhães Godinho, Manuel Rodrigues de Carvalho, Victor Alves, Sottomayor Cardia, Valente Veiga de Oliveia, Veiga da Cunha, Victor Crespo, Fraústo da Silva, Augusto Seabra, Deus Pinheiro, Roberto Carneiro, Diamantino Durão, Couto dos Santos, Marçal Grilo, Oliveira Martins, Santo Silva, Júlio Pedrosa, David Justino, Lurdes Rodrigues, Teresa Alçada Baptista.

Quem ler o programa de Educação deste governo, ficará a saber que Nuno Crato será, apenas, mais um ministro da educação que já terá feito um trabalho medíocre se deixar tudo como estava.

Tarefa : Escolha apenas uma das hipóteses e justifique a sua escolha:

Aceitar ser ministro da educação é:

- Um acto de patriotismo

- Um acto de loucura

- Um dever de cidadania

- uma ingenuidade

 

 

 

Os Emigrantes – Ferreira de Castro

julmar, 26.06.11

Às vezes, cada vez mais, sento-me no escritório e vêm-me à memória as leituras do passado. Corro com o olhar as prateleiras das estantes de livros, onde estão muitas horas da minha vida,  olho as lombadas  e pego num. Desta vez, é um livro velhinho de páginas amarelas com aquele característico cheiro dos livros antigos. Ao abri-lo lá está a data 03-06-72. Comprado no alfarrabista que o dinheiro era pouco.  Releio a introdução e um dos capítulos finais. Lá estão as terras que bem conheceria a partir de 1973: Ossela ( e a casinha de Ferreira de Castro à beira das estrada, hoje casa museu do autor), Castelões (a terra de Manuel da Bouça, personagem principal), as Baralhas e tabernas, onde porventura, também passei, a Gandra  e as paisagens descambando no rio Caima. E a memória da figura de Ferreira de Castro que passava férias na Pensão Suiça, em Macieira de Cambra.

No meu tempo de professor de Português, em todas as antologias, vinham excertos das obras de Ferreira de Castro. Hoje está esquecido, como muitos outros. É um dos autores portugueses  mais traduzidos nas sua múltipla obra: Alemanha, França, Argentina, Bélgica, Checoslováquia, Espanha, estados Unidos da América, Holanda, Hungria, Inglaterra, Jugoslávia, Noruega, Polónia, Roménia, Rússia, Suécia e Suiça.

Introdução

«Os homens transitam do Norte para o Sul, de Leste para Oeste, de país para país, em busca de pão e de um futuro melhor.

Nascem por uma fatalidade biológica e quando, aberta a consciência, olham para a vida, verificam que só a alguns deles parece ser permitido o direito a viver. Uns resignam-se logo à situação de elementos supérfluos, de indivíduos que excederam o número, de serem o que são apenas no sofrimento, no vegetar de uma existência condicionada por milhentas restrições. Curvam-se aos conceitos estabelecidos de há muito, aceitam por bom o que já estava enraizado quando eles chegaram e deixaram ir  assim, humildes, apagados submissos, do berço ao túmulo – a ver, pacientemente, a vida que vivem outros homens mais felizes. Alguns, porém, não se resignam facilmente. A terra em que nasceram e que lhes ensinaram a amar com grandes tropos patrióticos, com palavras farfalhantes, existe apenas, como o resto do mundo, para fruição de uma minoria. E eles, mordidas as almas por compreensíveis ambições, querem também viver, querem também usufruir regalias iguais às que desfrutam os homens privilegiados. E deslocam-se, e emigram, e transitam de continente em continente, de hemisfério a hemisfério, em busca do seu pão.

Mas em todo o Mundo, ou em quase todo o Mundo, vão encontrar drama semelhante, porque semelhantes são as leis que regem o aglomerado humano. Não esmorecem, apesar disso. Continuam a transitar de ingénuos olhos postos na luz que a sua imaginação acendeu, enquanto os mais ladinos, aproveitando todas as circunstâncias ou criando-as até, fazem oiro com a ingenuidade dos ingénuos.

Eles continuam a transitar com uma pátria no passaporte, mas em realidade sem pátria alguma, pois aquela que lhe é atribuída pertence apenas a alguns eleitos. Para eles, ela só existe quando nos quartéis soam as cornetas de guerra ou nas repartições públicas se recolhem tributos. É assim na Europa e é assim nos outros continentes.

Nasce o homem e se não dispões de riqueza acumulada pelos seus maiores, fica a mais no Mundo. Entra na vida – já se disse e é bem certo – como as feras nos antigos circos – para a luta! Luta para criar o seu lugar, luta contra os outros homens, luta pelas coisas mesquinhas e não pelas verdadeiramente nobres, por aquelas que contribuiriam para maior elevação humana. Para essas quase não há tempo na existência de cada um…»

Oa passos de Passos - 1º Passo

julmar, 21.06.11

Votei neste homem para as presidenciais. Dizia-se independente. Dizia ter convicções, ser claro e transparente.O único motivo servir o país. Tudo isso me soava bem e concordante com a sua biografia. Depois é o que sabemos.

Para Fernando Nobre terá sido o último passo; para Passos foi o primeiro passo. Em falso.  

Lembrando Fernando Pessoa

julmar, 13.06.11
Falas de Civilização, e de não Dever SerFalas de civilização, e de não dever ser, Ou deR não dever ser assim. Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos, Com as cousas humanas postas desta maneira. Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos. Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor. Escuto sem te ouvir. Para que te quereria eu ouvir? Ouvindo-te nada ficaria sabendo. Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo. Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres. Ai de ti e de todos que levam a vida A querer inventar a máquina de fazer felicidade! Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" Heterónimo de Fernando Pessoa

Do melhor que a Bíblia tem

julmar, 01.06.11

A formação académica que temos marca-nos a nossa vida. A minha levou-me a uma sobrevalorização da razão e não esqueço a frase de Hegel «tudo o que é real é racional e tudo o que é racional é real».  O tempo com a experiência e a reflexão levou-me a renunciar àquela perspectiva panlogista e a temperar a lei da razão com a lei do amor. Em vez de perguntar sempre e só à razão, porque não perguntar ao coração?

 "Não ajunteis para vós tesouros na terra; onde a traça e a ferrugem os consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem os consumem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração." Mateus 6:19-21