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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

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As anotações de Júlio Marques.

Aprendendo com Herman Hesse

julmar, 22.04.11
Ninguém é tão grande que não possa aprender, nem tão pequeno que não possa ensinar. Nada lhe posso dar que já não existam em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo. (Hermann Hesse)

Espanha: Professores satisfeitos com ambiente escolar

julmar, 14.04.11
 
 
 

Estudo sobre convivência escolar realizado em Espanha diz que 90% dos professores "sentem-se bem na escola" e 82% têm "muito orgulho em trabalhar como docente". Apenas 3% dos inquiridos manifestam "um desgaste profundo" com a profissão.

 

Diagnosticar problemas na vivência diária entre alunos e professores foi o objetivo do estudo realizado pelo Observatório Estatal da Convivência Escolar, em Espanha, cujos resultados foram agora apresentados. Trata-se do mais completo estudo feito até hoje: envolveu 23 100 alunos, 6175 professores, 10 768 famílias e teve início em 2008.
Apesar da satisfação com o ambiente escolar, a falta de disciplina na sala de aula sentida por 21% dos inquiridos neste estudo "é o que os mais desgasta". Como resposta à indisciplina, o professor dever exercer uma "autoridade de referência", diz Maria José Díaz-Aguado, catedrática de Psicologia da Educação, da Universidade Complutense de Madrid, e responsável pela investigação, em declarações ao jornal El País.
Em Portugal, os docentes concordam: "A autoridade pura e dura há muito deixou de funcionar na sala de aula", realça Helena Rangel. Mas do desinteresse dos alunos pela escola, até ao ambiente desejado de empatia e colaboração com os professores, há um longo caminho a percorrer.
"A cultura do esforço foi-se perdendo no contexto escolar." É nesta evidência que a professora de Francês, no 7.º e 8.º ano, encontra uma das razões para a indisciplina na escola. A "ausência de valores" e a "falta de rigor no trabalho" têm também a sua quota de responsabilidade, diz Helena Rangel. Mas o fenómeno não fica completamente contextualizado sem a alusão "à falta de regras que os alunos deveriam começar por adquirir no seio familiar", acrescenta Liliana Ferreira, professora de Inglês no 5.º e 6.º ano.
A investigação trouxe ainda uma novidade que estará a ser por estes dias testada no sistema educativo espanhol: a criação de um instrumento de auto-diagnóstico do ambiente escolar vivido em todo o território. Uma ferramenta informática que permite a recolha de informação junto de professores e alunos, através da resposta a perguntas sobre aspetos como: o desgaste do corpo docente, a qualidade das relações entre alunos ou a eficácia das sanções aplicadas.
Em declarações recentes ao jornal El País, a investigadora responsável pelo estudo salientou que o problema da indisciplina "sempre existiu". Das conclusões, Díaz-Aguado destaca a importância da tomada de consciência social para estas questões. E aponta um caminho: os professores devem exercer uma "autoridade de referência" na sala de aula.
A lecionar a alguns quilómetros da fronteira com Espanha, José Reis conhece bem as diferenças entre os dois sistemas de ensino vizinhos. De todas, anota a que lhe parece mais importante para comparar a realidade educativa dos dois países. "Em Portugal a maior preocupação é com a estatística e as metas [de aprendizagem] e não com a formação do aluno enquanto cidadão."
Sem perder de vista estas diferenças, o professor de História, no 3.º ciclo, esboça um sorriso quando lhe falam em "autoridade através da confiança". Será aplicável à realidade portuguesa? "Estão dados pequenos passos nesse sentido", responde José Reis com algumas reticências. "Daqui a 10 ou 15 anos, talvez seja possível ver essa mudança nas escolas portuguesas", especula lembrando que para isso não contribui o facto de "o trabalho do professor continuar a ser desmerecido", na opinião pública.

Liliana Ferreira, colega de profissão, concorda com o que diz a investigadora Díaz-Aguado: "A confiança que os alunos possam ter no docente ajuda a criar a empatia e respeito pela figura do professor". Mas é menos otimista que José Reis quando se pronuncia sobre a aplicabilidade - ainda que a uma década - da "autoridade de referência" nas escolas portuguesas. "Essa ideia acaba por ser utópica, podemos partir dela mas todos os contextos são diferentes e a solução para a indisciplina não será igual para todos os alunos."

Tendências na convivência
A convivência entre pares foi uma das vertentes analisadas no estudo espanhol. A forma como os alunos se tratam entre si resulta num indicador importante sobre o seu comportamento na escola.
Das respostas obtidas quando era perguntado aos alunos espanhóis se ouviam com frequência o conselho, "quando te baterem, bate também", 27% responderam que não. Por oposição, entre os conselhos mais ouvidos pelos alunos estão várias alternativas à violência: recorrer à autoridade, ignorar o problema ou tentar uma solução pacífica.
Conselhos que, segundo Diáz-Aguado, "são bem diferentes" dos que eram dados noutras épocas e que se aliam ao facto de agora os adolescentes vítimas de violência e perseguição escolar [bullying] tenderem mais a dar conta do problema em casa, aos pais.
Do lado dos professores, 90% afirmam sentir-se bem na escola e classifica a sua situação como boa ou muito boa. Sendo que, "82% dos professores dizem sentir-se muito orgulhosos de trabalharem como docentes", destaca Díaz-Aguado. Apenas uma pequena percentagem, em torno dos 3%, manifesta "um desgaste profundo" com a profissão.
A falta de disciplina na sala de aula que 21% dos professores admite sentir "é o que mais os desgasta", avalia a investigadora que aponta a camaradagem do corpo docente e o apoio da equipa diretiva como essenciais nestas situações.
Um dado obtido e que pode também estar a contribuir para este desgaste dos docentes espanhóis é a percentagem de aluno (4%) que admite perturbar ou impedir os professores de lecionarem as suas aulas. O descontentamento dos alunos com o ambiente escolar é sinalizado pelas respostas de 15% dos inquiridos nas quais afirmam que mudariam de escola, se pudessem.

Indisciplina sempre existiu
"Mas agora provavelmente existe mais", diz Díaz-Aguado. "A revolução tecnológica aumenta a dificuldade para o esforço, a atenção e a memória controlada dos alunos." Resulta claro, para a catedrática da Universidade Complutense de Madrid, que os responsáveis por estas mudanças são "os processos do mundo digital".
Processos esses que "a escola deve ter em conta". "Entre outras coisas, é preciso dar muita mais hipótese de participação aos alunos", diz. "E isto acontece ainda mais com os nativos digitais, ou seja, os alunos que agora estão no ensino básico."
O insucesso escolar e o desinteresse pelas aulas são outros dos fatores que normalmente os investigadores associam à indisciplina. A razão da desmotivação pode estar, segundo Helena Rangel, "nos materiais usados para lecionar nas escolas". Recursos pouco atrativos que perdem em competição com as potencialidades do mundo digital.
Mas a situação pode ser revertida a favor da aprendizagem e do ensino. "Ao usar essas tecnologias na sala de aula o professor aproxima-se da linguagem dos alunos", salienta José Reis, que vê ainda nesta aproximação um fator decisivo para a boa convivência escolar.
Outro contributo "importante" para esta "paz" letiva , passaria pela "credibilização do trabalho docente", diz o professor de História. Uma missão que caberia não apenas às autoridades educativas [Ministério da Educação e Governo], mas também aos meios de comunicação. Algo que permitiria mudar a opinião pública negativa em torno da classe. No entanto, não é esta a realidade portuguesa. "Os media nunca mostram o professor como um símbolo para os alunos ou alguém com uma carga positiva", lamenta.
Autoridade de referência
Como consequência de uma profunda mudança na sociedade, "a forma de mostrar o respeito pela autoridade também mudou", realça Díaz-Aguado. Neste cenário, será verdade a ideia de que o professor perdeu a sua autoridade? Cerca de 58% das famílias inquiridas acreditam que sim, aponta o estudo do Observatório Estatal da Convivência Escolar, contra 42% que respondem não.
Também os pais espanhóis afirmam estar a sentir essa perda de autoridade, segundo o mesmo estudo. Por isso, Díaz-Aguado concluiu: "Não se trata de um problema específico da sala de aula, mas de toda a sociedade." Em todo o caso, como podem a escola e os professores contribuir para a resolução deste problema? "Exercendo a autoridade e transmitindo confiança ao mesmo tempo", resume Díaz-Aguado.
Mas a autoridade de que fala Maria José Díaz-Aguado não se baseia no castigo à mínima falta do aluno. "Trata-se de uma autoridade baseada na confiança, uma autoridade de referência, em oposição à baseada no medo."
É antes uma autoridade que, segundo a investigadora, faz com que os alunos vejam no professor alguém que os ajuda a alcançar os seus objetivos . "Um aliado que está ali para os ajudar, alguém a quem possam acudir para procurar soluções justas para os conflitos."
Segundo o estudo espanhol, "os alunos dos professores que exercem esta autoridade de referência apontam uma melhor convivência" no ambiente escolar. De igual modo, "os diretores que creem que o seu corpo docente exerce este tipo de autoridade indicam melhor convivência nas suas escolas", diz Díaz-Aguado.
A lecionar em duas escolas portuguesas, Liliana Ferreira vive experiências opostas em termos de convivência escolar. "Numa escola, os casos de indisciplina são flagrantes, os alunos desestabilizam as aulas e até agridem os docentes", relata.
Neste cenário, a professora não vê "como viáveis" os princípios defendidos por Díaz-Aguado. "Temos mesmo de recorrer aos castigos para conseguirmos estabelecer os limites do razoável e do que não pode acontecer na sala de aula", explica.
Situação oposta vive na outra escola onde leciona. "O ambiente é completamente diferente", relata a professora, "também existem casos de indisciplina, mas muito menos graves". Esta realidade leva Liliana Ferreira a admitir que o "exemplo da autoridade de referência funciona perfeitamente" nesta escola porque "é possível dialogar com o aluno e chamá-lo à razão".
Ainda assim, "a sanção tem de continuar a existir", lamenta a investigadora espanhola. E neste ponto surge uma outra questão: a da perceção do castigo por parte dos alunos. "Apesar de tudo, o estudo diz-nos que, para os alunos, as sanções são vistas como justas mas ineficazes."
Esta certeza tanto da justiça como a ineficácia das sanções é uma opinião partilhada tanto pelos professores como pelos diretores de escola inquiridos no estudo. Enquanto professora, Helena Rangel vê a questão dos castigos assumir bastante importância na prática letiva. "O conceito de justiça é o que faz funcionar a autoridade dentro da sala de aula", diz.
Remetendo-se para o estudo, Díaz-Aguado reflete sobre a falta de autoridade ao nível familiar. Em particular sobre a incapacidade dos pais de exercerem eles próprios a sua "autoridade de referência" perante os filhos. "As famílias acusam muitas vezes as entidades patronais de abuso de poder, e isso é bom [mostram-se conscientes], mas ainda não encontraram outra forma de evitar que os filhos transgridam os limites."

In Rev. Educare -

Andreia Lobo | 2011-04-13

 

O mundo interior dos professores João Ruivo | 2011-04-04, in Educare

julmar, 07.04.11

 

 

Os professores portugueses não vivem momentos facilitadores do desabrochar da ilusão, da fantasia criadora e da utopia que leva à vontade de fazer e de vencer.  O clima percepcionado na maioria das escolas é de desilusão, de desencanto, de anomia profissional.
Os mais jovens interrogam-se sobre as escolhas que fizeram no momento em que decidiram vir a ser professores. Os que acumularam mais experiência no desenrolar do seu percurso profissional questionam-se sobre o sentido da dádiva desinteressada com que se envolveram numa carreira que, pela sua nobreza e relevância social, deveria ter sido indiscutivelmente gratificante.
As políticas de reconstrução do tecido curricular, organizacional e de vida ativa dos docentes e das escolas correram mal. Correram mal a todos e pelos piores motivos. Correram mal aos governantes, por precipitação, autismo e muita soberba. Correram mal aos professores pelo desrespeito com que foram mimados, pelo desgaste da sua imagem social, e pela total desestruturação do seu mundo conceptual sobre a escola e sobre o seu futuro.

Há muito que os especialistas tentam compreender estes estádios de carreira, ou ciclos de vida dos professores.
Porque são previsíveis e, logo, facilmente controláveis, em termos de expectativas e de procedimentos, a literatura aconselha a manter os docentes em um dos três estádios clássicos do seu percurso profissional:
1- O estádio da sobrevivência, ou da fantasia, que geralmente coincide com o início da carreira, e que se singulariza pela necessidade de afirmação do professor, no contacto que mantém com os seus alunos, com os colegas e com comunidade educativa;
2- O estádio da mestria, em que o professor foca o seu esforço no desempenho profissional, na preocupação de ser um "bom" professor, dominando competências inerentes a essa intencionalidade, pelo que procura respostas adequadas para determinadas situações que o ato de ensinar lhe coloca: o número de alunos por turma, a ausência de regras bem definidas de ação, a falta de materiais e condições para o exercício do seu trabalho na classe, a falta de tempo para a consecução dos objetivos, ou para a abordagem dos conteúdos;
3- O estádio da estabilidade, em que o docente tenta individualizar o ensino, preocupando-se quer com os seus alunos, quer com as suas necessidades e anseios, sejam elas de ordem curricular como de natureza social e, até, familiar.
A pressão permanente sobre o sistema e sobre os professores; a sua menorização pessoal, intelectual e profissional, invariavelmente conduz a situações de prolongado e persistente mal-estar, retirando os docentes de um desses três estádios clássicos e colocando-os no que Francis Füller tão engenhosamente chamou de "curva ou estádio do desencanto".
Infelizmente, vivemos em Portugal um desses momentos raros e que presumimos indesejáveis para todos os intervenientes: professores, pais e governantes. Momento em que se rompeu com um período em que os professores se encontravam em ciclos da carreira de desinteressada dádiva ao sistema, à escola e aos alunos, e que os tinham levado a otimizar o seu investimento pessoal.
O ataque à sua profissionalidade surgiu uma vez e outra, até que esta inesperada e evitável curva do desencanto os atingiu fatalmente.
O acumular de situações provocadas por esta já longa e insuportável conjuntura, por todos conhecida, o retomar insistente de promessas incumpridas de verdadeira descentralização do sistema educativo português, e a negação de se atribuir mais poder de decisão aos professores e às escolas também contribuíram para que a desilusão e o desencanto se enquistassem no sistema, transformando as sinergias naturais em processos de entropia irrefreáveis.
O trabalho do professor é socialmente incontornável. Não depende apenas das políticas e dos políticos. É uma exigência social, reconhecida e validada, que implica com a construção do futuro e com o bem-estar das novas e das mais seniores gerações.
A escola é um bem não negociável. Não pode ser objeto de argumentos de fação, de olhares recriminatórios e de invetivas de tirania psicológica. Não pode, porque o que se faz à escola tem um efeito multiplicador e de imprevisível bumerangue. O desrespeito desleal pela escola marca e vitima os acusadores. A cicatriz social que daí resulta leva tempo a sarar.
O mal-estar que se instalou por demasiado tempo tem custos que ainda estão por calcular. E pagamos todos. Mesmo aqueles que, como nós, continuam a pensar que para com os professores temos uma dívida impagável que releva os momentos menos felizes do exercício da profissão. Porque lhes devemos uma boa parte do que somos e do que ainda queremos vir a ser.

 

CORO DOS EMPREGADOS DA CÂMARA

julmar, 07.04.11

(recordações do meu tempo de professor de português)


É tão vazia a nossa vida,
é tão inútil a nossa vida
que a gente veste de escuro
como se andasse de luto.
Ao menos se alguém morresse
e esse alguém fosse um de nós
e esse um de nós fosse eu...


... O sol andando lá fora,
fazendo lume nos vidros,
chegando carros ao largo
com gente que vem de fora
(quem será que vem de fora?)
e a gente práqui fechados
na penumbra das paredes,
curvados prás secretárias
fazendo letra bonita.


Fazendo letra bonita
e o vento andando lá fora
rumorejando nas árvores,
levando nuvens pelo céu,
trazendo um grito da rua
(quem seria que gritou?)
e a gente práqui fechados
na penumbra das paredes,
curvados prás secretárias
fazendo letra bonita,
enchendo impressos, impressos,
livros, livros, folhas soltas,
carimbando, pondo selos,
bocejando, bocejando,
bocejando.


Manuel da Fonseca