Segunda-feira, 29 de Novembro de 2010

Os poemas grandes da minha vida - O operário em Construção

Se não tivesse ouvido este poema ao Mário Viegas, talvez me passasse despercebido.

As coisas de que gosto, de que gosto muito, não me largo delas. Passam-me pela cabeça mas ficam-me no coração. Como este poema que, longo, se me agarrou e sei de cor.

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

                                                                                                 Vinicius de Morais

publicado por julmar às 18:20
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Pina Bausch

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«O mais importante é o que move as pessoas e não como as pessoas se movem».

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Quinta-feira, 25 de Novembro de 2010

Os poemas grandes da minha vida

(...)

Vem, Noite antiquíssima e idêntica,
Noite Rainha nascida destronada,
Noite igual por dentro ao silêncio. Noite
Com as estrelas lantejoulas rápidas
No teu vestido franjado de Infinito.
Vem, vagamente,
Vem, levemente,
Vem sozinha, solene, com as mãos caídas
Ao teu lado, vem
E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas.
Funde num campo teu todos os campos que vejo,
Faze da montanha um bloco só do teu corpo,
Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo.
Todas as estradas que a sobem,
Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe.
Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
E deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
Na distância imprecisa e vagamente perturbadora.
Na distância subitamente impossível de percorrer.
Nossa Senhora
Das coisas impossíveis que procuramos em vão,
Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela.
Dos propósitos que nos acariciam
Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas
Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto.
E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos,
Vem e afaga-nos.
Beija-nos silenciosamente na fronte,
Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam
Senão por uma diferença na alma.
E um vago soluço partindo melodiosamente
Do antiquíssimo de nós
Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha
Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos
Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.
Vem soleníssima,
Soleníssima e cheia
De uma oculta vontade de soluçar,
Talvez porque a alma é grande e a vida pequena.
E todos os gestos não saem do nosso corpo
E só alcançamos onde o nosso braço chega,
E só vemos até onde chega o nosso olhar.
Vem, dolorosa,
Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos,
Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados,
Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes.
Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados.
Vem, lá do fundo
Do horizonte lívido,
Vem e arranca-me
Do solo de angústia e de inutilidade
Onde vicejo.
Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido,
Folha a folha lê em mim não sei que sina
E desfolha-me para teu agrado,
Para teu agrado silencioso e fresco.
Uma folha de mim lança para o Norte,
Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei;
Outra folha de mim lança para o Sul,
Onde estão os mares que os Navegadores abriram;
Outra folha minha atira ao Ocidente,
Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro,
Que eu sem conhecer adoro;
E a outra, as outras, o resto de mim
Atira ao Oriente,
Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé,
Ao Oriente pomposo e fanático e quente,
Ao Oriente excessivo que eu nunca verei,
Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta,
Ao Oriente que tudo o que nós não temos.
Que tudo o que nós não somos,
Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva,
Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo...
Vem sobre os mares,
Sobre os mares maiores,
Sobre os mares sem horizontes precisos,
Vem e passa a mão pelo dorso da fera,
E acalma-o misteriosamente,
Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!
Vem, cuidadosa,
Vem, maternal,
Pé antepé enfermeira antiquíssima, que te sentaste
À cabeceira dos deuses das fés já perdidas,
E que viste nascer Jeová e Júpiter,
E sorriste porque tudo te é falso e inútil.
Vem, Noite silenciosa e extática,
Vem envolver na noite manto branco
O meu coração...
Serenamente como uma brisa na tarde leve,
Tranquilamente com um gesto materno afagando.
Com as estrelas luzindo nas tuas mãos
E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
Todos os sons soam de outra maneira
Quando tu vens.
Quando tu entras baixam todas as vozes,
Ninguém te vê entrar.
Ninguém sabe quando entraste,
Senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
Que tudo perde as arestas e as cores,
E que no alto céu ainda claramente azul
Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,
A lua começa a ser real.
Álvaro de Campos - Dois Excertos de "Odes"
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Purgatório - Uma ideia dos diabos - Amora da Silva

Imagem do purgatório no livro de orações Très Riches Heures du Duc de Berry

A tradição de rezar pelos mortos já era praticada pelos judeus, antes da vinda de Cristo. Se as almas estivessem defitivamente condenadas ou salvas, nada haveria a fazer. Porém, se além do Céu e do Inferno se criasse um estado de passagem, de purga, de sofrimento e penar mas com esperança, então a morte e o culto aos mortos teria um novo sentido.

 

Como podemos ajudar a purificação das almas do purgatório?

Por causa da comunhão dos santos, os fiéis que ainda são peregrinos na terra são capazes de ajudar as almas do purgatório, oferecendo orações em sufrágio por eles, em especial o sacrifício eucarístico. Eles também os ajudam dando esmolas, indulgências e obras de penitência. (Catecismo Católico)

Desta forma a Igreja Católica encontrou uma fonte de recursoa fabulosa e que por doutrinação dogmática foi sendo aperfeiçoada em sucessivos concílios: Segundo Concílio de Lyon (1274), o Concílio de Florença (1438-1445), e o Concílio de Trento (1545-63 ), o último já para remediar as denúncias de Lutero sobre o negócio mais lucrativo de todos os tempos.

publicado por julmar às 18:10
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Terça-feira, 23 de Novembro de 2010

Depois de Cristo - Amora da Silva

O livro "Os Actos dos Apóstolos" narra-nos como o cristianismo se enraíza e dilata e como a organização se vai afirmando. Os apóstolos estão possuídos pelo espírito que dizem santo. E daí a inspiração no verbo que desconhece barreiras linguísticas. Basta pronunciar as palavras certas para que os milagres aconteçam. E a ideia de irmandade é tão grande que a propriedade privada deixa de fazer sentido:

«A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava propriedade sua o que possuía. Tudo entre eles era comum. (…) Os proprietários de campos ou casas vendiam tudo e iam depositar o preço da venda aos pés dos apóstolos. Repartia-se, então, a cada um segundo a sua necessidade» 4. 32-37

Não sei se Marx teve conhecimento desta passagem. Veria que não é preciso luta de classes para construir o comunismo.

Tudo ia bem até começar a ir mal

«Certo homem, chamado Ananias, de acordo com a sua mulher Safira, vendeu uma propriedade. Com a cumplicidade da mulher, reteve uma parte do preço e foi depositar o resto aos pés dos apóstolos. Pedro, porém, disse: “Ananias, por que Satanás se apoderou do teu coração para enganar o Espírito Santo, retendo uma parte do preço do terreno? Por acaso não podias conservá-lo sem o vender? E depois de vendido não podias dispor livremente da quantia? Não foi aos homens que mentiste mas a Deus.”Ao ouvir estas palavras Ananias caiu morto.» 5. 1-5

Eis a primeira vítima do Cristianismo!

«Grande medo tomou todos os que souberam disto (…) Passadas umas três horas, entrou também a mulher, sem saber o que havia acontecido. Pedro perguntou-lhe: “Dize-me, foi por tanto que vendeste o terreno?” Ela respondeu:”Sim foi por esse preço”. “Então Pedro disse:”Porque combinastes tentar o Espírito do Senhor?” Olha, já estão entrando pela porta aqueles que sepultaram o teu marido. Eles vão levar-te também a ti. Ela imediatamente caiu aos pés de Pedro e morreu. Quando os jovens entraram e encontraram a mulher morta e a levaram para a sepultura ao lado do marido. Grande medo se apoderou de toda a Igreja e de todos os que ouviram tais coisas.» 5. 7-11

Eis a segunda vítima do cristianismo. A partir de agora quem não entregar os seus bens, tem a sentença lida. O reino do medo chegou.

publicado por julmar às 21:39
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Segunda-feira, 22 de Novembro de 2010

A Educação na Finlândia - Paul Robert

Que podemos aprender com os finlandeses no domínio da Educação? O que faz com que eles sejam tão bem sucedidos?

Provavelmente o mais importante - a cultura- será algo que não é importável. Haverá outros aspectos que talvez o sejam. E mesmo a cultura também pode ser assimilável, de forma mais lenta. (para continuar) Alguns pontos a destacar que podem fazer a diferença:

- O Aluno está no centro do Sistema; O importante é o aluno e não o currículo

- Os espaços de trabalho são amplos (salas de 65m2); há zonas de descanso confortáveis; as escolas são de pequena/média dimensão( 200, 300, 400, 500 alunos)

-A entrada na escola é aos 7 anos, havendo um de pré-escolar; em acordo com os pais a criança pode entrar apenas aos oito se não estiver pronta para a leitura;

- «O chumbo» é proibido por lei até final do ciclo básico;

 - As aulas são de 45 minutos;

- Há uma detecção precoce das limitações e perturações da aprendizagem;

- As turmas não ultrapassam os 25 alunos

- Os alunos são, por norma, envolvidos e activos na aprendizagem

- Por norma, as aulas não são expositivas, o papel principal do professor é criar e gerir situações de aprendizagem.

- No secundário, em grande parte, o currículo é construído pelo aluno, deixando de ser organizado por turma.

- A avaliação é sempre motivadora: os alunos não são classificados nos primeiros anos; as notas quantitativas só aparecem a partir do 6º ano. A escala de avaliação é de 4 a 10 o que revela a vontade de valorizar o aluno;

- A profissão é socialmente valorizada embora em termos salariais esteja na média da OCDE; há um recrutamento exigente; uma formação inicial avançada; A carga lectiva envolve em média 20 tempo semanais de 45 minutos, podendo os professores de línguas ter menos horas que os de expressões; As condições de trabalho - espaços e tecnologias são óptimas; Uma liberdade pedagógica grande; participam regularmente em acções de formação contínua; investem profundamente na profissão,têm elevado nivel de tolerância para as pequenas falhas dos alunos, s~~ao motivados e positivos.

Existe descentralização: os professores dependem directamente dos municípios e dos estabelecimentos de ensino quer a nível salarial, quer contratual.

- Cada estabelecimento tem de ter um plano de avaliação.

- Os alunos têm 30 aulas por semana, à razão de seis por dia;

- Nos primeiros anos a disciplina de Economia doméstica é obrigatória;

- Há 7 temas transversais, definidos nacionalmente:

        Tornar-se pessoa;

        Identidade cultural e dimensão internacional

        Media e comunicação

        Cidadania participativa e mundo do trabalho

        Responsabilidade face ao ambiente, bem estar e desenvolvimento sustentado

        Segurança rodoviária

        Tecnologia e indivíduo

- É privilegiada a dimensão educativa e a criação de uma atmosfera de trabalho positiva e cooperativa.

 - Tudo é feito para estimular os alunos a criar a sua própria empresa mais tarde.                   

 

 

 

publicado por julmar às 12:41
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Terça-feira, 16 de Novembro de 2010

Os poemas da minha vida

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Sôbolos rios que vão
por Babilónia, me achei,
Onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nela passei.
Ali, o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e, tudo bem comparado,
Babilónia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.

 

Ali, lembranças contentes
n'alma se representaram,
e minhas cousas ausentes
se fizeram tão presentes
como se nunca passaram.
Ali, depois de acordado,
co rosto banhado em água,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
não é gosto, mas é mágoa.

 

E vi que todos os danos
se causavam das mudanças
e as mudanças dos anos;
onde vi quantos enganos
faz o tempo às esperanças.
Ali vi o maior bem
quão pouco espaço que dura,
o mal quão depressa vem,
e quão triste estado tem
quem se fia da ventura.

 

Vi aquilo que mais val,
que então se entende milhor
quanto mais perdido for;
vi o bem suceder o mal,
e o mal, muito pior,
E vi com muito trabalho
comprar arrependimento;
vi nenhum contentamento,
e vejo-me a mim, que espalho
tristes palavras ao vento.

 

Bem são rios estas águas,
com que banho este papel;
bem parece ser cruel
variedade de mágoas
e confusão de Babel.
Como homem que, por exemplo
dos transes em que se achou,
despois que a guerra deixou,
pelas paredes do templo
suas armas pendurou:

 

Assi, despois que assentei
que tudo o tempo gastava,
da tristeza que tomei
nos salgueiros pendurei
os órgãos com que cantava.
Aquele instrumento ledo
deixei da vida passada,
dizendo: -- Música amada,
deixo-vos neste arvoredo
à memória consagrada.

(...)

publicado por julmar às 18:23
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Segunda-feira, 15 de Novembro de 2010

Os poemas grandes que são grandes poemas-A Cena do ódio

 

 

Para ouvir o poema todo, na arte de dizer de Mário Viegas

http://www.youtube.com/watch?v=bm0JxtLdZfk

(...)

Em toda a parte o teu papel é admirar,

mas (caso inf’liz)

nunca acertas numa admiração feliz.

Lês os jornais e admiras tudo do princípio ao fim

e se por desgraça vem um dia sem jornais,

tens de ficar em casa nos chinelos

porque nesse dia, felizmente,

não tens opinião pra levares à rua.

Mas nos outros dias lá estás a discutir.

É que a Natureza é compensadora:

quem não tem dinheiro p’ra ir ao Coliseu

deve ter cá fora razões p’ra se rir.

Só te oiço dizer dos outros

a inveja de seres como eles.

Nem ao menos, pobre fadista,

a veleidade de seres mais bruto?

Até os teus desejos são avaros

como as tuas unhas sujas e ratadas.

Ó meu gordo pelintrão,

água-morna suja, broa do outro v’rao!

Os homens são na proporção dos seus desejos

e é por isso que eu tenho a Concepção do Infinito...

Não te cora ser grande o teu avô

e tu apenas o seu neto, e tu apenas o seu esperma?

Não te dói Adão mais que tu?

Não te envergonha o teres antes de ti

outros muito maiores que tu?

Jamais eu quereria vir a ser um dia

o que o maior de todos já o tivesse sido

eu quero sempre muito mais

e mais ainda muito pr’além-demais-Infinito...

(...)

publicado por julmar às 22:04
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Quinta-feira, 11 de Novembro de 2010

Leituras -Pequeno Almoço com Sócrates

 

Ler a Teoria da Relatividade de Einstein ou entender O princípio da Incerteza de Heisemberg na sua exposição original não é para o comum dos mortais. Uma coisa é a criação, outra é a transmissão da doutrina. Isso que é verdade para a ciência é mais válido ainda para a filosofia se tivermos em conta que ninguém pode viver sem filosofar(?). Ora o que o autor da obra em causa faz é explicar-nos Kant, Hegel, Marx, Witgenstein, Derrida ou Foucault numa linguagem corrente a partir das situações comuns de um dia comum. Como por exemplo, a relação entre filosofar e cozinhar.

 «Em certo sentido, cozinhar é filosofia, seja porque enquanto retiramos a polpa às abóboras usamos o tempo para reflectir, ou porque cortar os pimentos, tirar os ossos ao frango ou fazer filetes mostra a anatomia das coisas, revela o seu funcionamento interno à nossa observação e questionamento. Esta qualidade analítica da preparação de ingredientes transpõe-se depois para o acto de cozinhar, que, tal como a filosofia consiste na transformação do parcialmente intuído no plenamente compreendido, no trabalhar das coisas a fim de as tornar digeríveis para os outros. Ao formarem um prato, os ingredientes recebem um significado; quando com eles fazemos o jantar percorremos um leque de acções, desde o acto de os abrir com frieza cirúrgica ao de os recombinar no fogo e, durante esse processo como se fossem conceitos em busca de uma tese.»

publicado por julmar às 17:51
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Segunda-feira, 1 de Novembro de 2010

Difícil é Educá-los

Precisamos cada vez mais quem de forma desapaixonada nos faça a representação do estado da educação, quem, de forma objectiva, nos compare com os demais países porque a qualidade de vida dos povos está, e cada vez mais, ligada à qualidade da educação. David Justino tira-nos o retrato e não ficamos nada bem. Em resumo, somos pouco e mal educados.

O autor, que já foi ministro da educação, coloca o dedo nas feridas da nossa educação. Por serem tantas e tão profundas receia-se que não haja cura. É essa a conclusão, em português suave, que o autor retira:

«Neste contexto, teremos de reconhecer que a educação se tornou quase irreformável. Admito que seja regenerável, mas, neste caso, a quem queira tomar em mãos esse processo aconselho a não falar de reformas, lançando-as sem lhe dar esse estatuto simbólico».

Dificilmente, em tão poucas páginas se encontrará uma análise tão objectiva da educação em Portugal. Mas passará despercebida à maior parte dos actores do teatro educativo. É que um dos sintomas da nossa (des)educação é a falta  de leitura.

publicado por julmar às 19:12
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