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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

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As anotações de Júlio Marques.

O dia do livro

julmar, 24.04.09

Não é um livro para especialistas que aqui pouco poderiam colher. É seguramente um dos melhores livros resumo do que é a cultura ocidental. O valor está aí: um resumo. E saber distinguir o essencial do acessório, é ser capaz de não se perder.

 

 

Lendo Fernão Lopes

julmar, 09.04.09

Quase sempre o prazer não está em ler. Por vezes, esse ler na escola chegou a não ser compreendido mas entediante e aborrecido.

Hoje, quantas vezes tomo de novo essas obras e, não sei como, não sei porquê tornam-se luminosas.

Para mim o prazer está em reler. Fernão Lopes, por exemplo. Pela forma mais do que pelo conteúdo.

- Senhor, eu me maravilho muito de vós mandardes-me cometer vossa  benquerença e amor, do jeito que mandastes; o qual deverá ser pêra casar comigo, e de outra guisa nom, que bem vedes vós que eu sou irmã da rainha, de padre e de madre; e de sermos filhas de algo, bem sabeis quanto o somos, tão bem da parte do padre como da madre (…) E portanto vos fiz aqui vir por vo-lo dizer à minha vontade, ca me parece, se vo-lo per outrem mandara dizer, que non fora minha vontade desabafada, ca assaz de empacho houvéreis vós de haver, mandardes-me demandar como se eu fosse uma dona de muito má fama»

E em razoando isto, mostrava queixume e que queria chorar, ( o que às mulheres e ligeiro de fazer), dizendo que se fosse muito em boa hora per onde viera, que, pêro lhe parecesse que estava só, que acompanhada estava, mais perto que ele cuidava.

 

A Escola a tempo inteiro, in Terrear

julmar, 09.04.09
Quando ouvi a proposta dos pais, através da CONFAP, para que as escolas passassem a estar abertas 12 horas por dia e, de seguida, conheci a resposta positiva do Ministério da Educação, dei comigo a pensar que o melhor seria propor já, numa atitude politicamente muito mais arrojada, a escola aberta 24 horas por dia.


 

Atendendo às dificuldades das famílias para que pais e filhos se encontrem, que não seja para dormirem sob o mesmo tecto (é esta a nova definição de família), atendendo à necessidade dos pais obterem rendimentos que permitam um “nível de vida adequado aos tempos modernos”, trabalhando mais e mais horas em empregos quantas vezes instáveis, atendendo ainda ao tipo de vida que criámos nas cidades, em que nos levantamos com o sol e chegamos a casa depois dele se ter deitado, consumindo três e quatro horas em transportes que vão furando por entre um caótico trânsito, atendendo às exigências e às dificuldades que hoje representa a educação de uma criança e de um jovem, …claro que os pais têm toda a razão e, por isso, o Ministério da Educação, que existe também para lhes agradar, também tem.


 

Mas o que não estamos a perceber é que esta exigência, que já se seguiu a outras de apenas 8 horas, é uma exigência em progresso, que ainda está na sua fase larvar e que vai chegar (quanto tardará não sei, talvez uns trinta anos, cinquenta, quem sabe) a uma fase madura e muito mais perfeita: a E24, ou seja, a escola aberta 24 sobre 24 horas. Além de se poderem apoiar os pais de um modo muito mais consistente e continuado, sem quebras de ritmo, podendo a escola finalmente incluir no seu currículo as tão proclamadas educação do consumidor, educação sexual, educação do consumo, educação da saúde, educação da autoridade (há tanta falta dela!), educação rodoviária, educação ambiental, educação para os media, educação para a sustentabilidade, educação para a paz, educação para as artes, e tantas outras e tão necessárias educações, sem atropelos desnecessários, além disso, os pais também poderão ganhar a sua vida à vontade, passear e descansar do cansaço do trabalho permanente, constituir novas e renovadas famílias sempre que necessário, além de deixar de ser problemática a perda de quatro ou cinco horas diárias nos trajectos casa-empregos-casa.
 
Ao Estado, como é óbvio, esta pretensão dos pais vem de encontro a um velho desejo de se transformar na grande oportunidade social educadora de todos os cidadãos, sem favorecer as desigualdades sociais, acolhendo todos, sem excepção, 24 horas por dia. Finalmente, alcança-se a tão almejada igualdade de oportunidades, ricos e pobres poderão ter, de uma vez por todas (como gostamos desta expressão!), acesso à mesma educação de qualidade, garantida pelo Estado. Podemos dizer que as escolas, aí sim, serão instituições verdadeiramente educadoras e capazes, melhor, totalmente capazes. Os professores no desemprego poderão ser contratados, todos poderão ser melhor proletarizados, em ambientes e ritmos de trabalho mais cronometrados pelo Ministério da Educação.


 

Num contexto de tanta incerteza social, que mais e melhor poderíamos pedir? Se a escola pública se oferece para ser uma instituição total, que totalmente ocupa os nossos filhos e netos, que mais poderíamos ansiar como educadores? Se obtemos a sua segurança, a sua educação escolar e o seu pão, que melhor poderemos crer ter? E se a escola agora até acolhe os avós, cada vez mais dependentes e em cima das nossas costas até uma tão avançada idade, nós que temos de trabalhar mais e mais, que melhor instituição poderia haver para acolher, em novas dinâmicas intergeracionais, crianças e avós, 24 horas por dia?


 

De facto, a E24 é a grande solução social do futuro. Famílias não haverá (e para que é que deveria haver, se os pais não ligam nada aos filhos e os filhos aos pais, se as famílias se fazem e desfazem ao ritmo dos bonecos de neve), os empregos serão cada vez mais precários, incertos e mal pagos (e para quê ser diferente se podemos agora combinar dois e três turnos?), o isolamento das pessoas e sobretudo das mais pobres e sós será ultrapassado (poderemos ficar sós todos juntos e a todo o tempo, em instituições de acolhimento verdadeiro!). As novas instituições E24 são o futuro por que tanto ansiamos. E o Ministério da Educação português, a pedido dos pais, oferece-nos, por antecipação, este futuro. Portugal mantém, assim, o seu perfil de povo inovador, gente de sensacionais descobertas, que abre novos mundos ao mundo!


 

Que mais e melhor poderei eu dizer? Viva a E24, a verdadeira revolução da educação promovida pelo Estado, a pedido dos pais!


 

PS: se alguém considerar este texto exagerado, peço apenas que sobreviva uns cinquenta anos, o que comigo já não ocorrerá!


 

Joaquim Azevedo
9 de Abril de 2009


 

 


 

E então, sim. A estação de serviço 24. Sempre aberta, sempre presente, sempre ausente. Um serviço público de qualidade total. Onde ser é estar. Onde estar é o máximo da condição humana. Tão simples, tão fácil, tão popular. Para mais em ano de eleições. Votos garantidos. Reconhecimentos perpétuos. Poder-se-ia até, em nome da autonomia das escolas, deixar ao critério a duração da abertura: E 24, E 20, E 16, E 14, E12. Sendo que o mímino imposto pelo Estado teria de ser E 12. E quem estivesse na tipologia das E 24 teria financiamento suplementar, lugares cimeiros no ranking. A qualidade total teria aqui o seu indicador primordial. A escola como espaço total, a escola da total fraternidade dos órfãos já começou. Dói escrever isto no tempo da Páscoa (que deveria ser um tempo de passagem). Dói escrever. Mas este é também o tempo da Paixão. Do sofrimento e de uma certa ruína. Mas há sempre a esperança da ressurreição