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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

O país dos enganos

julmar, 21.02.08

Continuam todas as condições, apesar de algumas reformas necessárias, para continuarmos a ser um país inculto, a gerar analfabetos ainda que passem pela escola 7, 9, 12 anos ou mesmo que tirem licenciaturas. Entre esses condicionalismos temos: currículos completamente desadequados e que foram pensados nos professores a que é preciso assegurar emprego; na selecção de professores que não existe: vai para professor quem quer ou quem não sabe fazer mais nada: Imaginem só que se exigia que para ser professor era necessário ter as mesmas notas que para entrar num curso de medicina. Pois é. Há gente que entrou na profissão com formação em escolas ditas superiores -tão superiores eram que as classificações eram altíssimas com saber não avaliado. E as famílias, na sua maioria, não faz a sua parte; temos desde o 25 de Abril a escola única feita de um discurso de escola inclusiva mas que na prática exclui e trama a vida de crianças e jovens à custa de lhes dizer que todos têm os mesmos direitos, as mesmas oportunidades. Aí está o problema: o discurso anda para um lado e a realidade para o outro.

Copy paste

julmar, 12.02.08

Às vezes lembro-me do trabalho dos monges copistas que passavam horas,dias, meses, anos uma vida inteira a copiar livros de Aristóteles e livros sagrados que decoravam com iluminuras. Acredito que muitos deles de tanto copiar se tornavam verdadeiros sábios. Cópia feita letra a letra, palavra a palavra, linha a linha, página a página até o livro ficar completo. Molhar a pena vezes sem conta. Também eu sou ainda do tempo em que não havia foocópias e passava aulas a tirar apontamentos e passava horas em bibliotecas a tirar anotações, fazer esquemas e resumos. Fazer resumos sempre era mais fácil do que escrever o livro todo. Era um exercício de atenção que começava na leitura, que distinguia o que era essencial e secundário e que enquanto escrevia favorecia a reflexão.

Hoje fácil mesmo é pôr tudo igual ao original. Ainda hoje enquanto aguardava num átrio das salas de aula ia lendo trabalhos de alunos do 7º ano. Completamente copiados não se sabe de onde. Com a maior das maturalidades assinam seus nomes no fim. Os professores também acham natural.

O mais certo é nem os alunos nem os professores saberem o que lá está escrito.

sobre copianços - in reum natura

julmar, 11.02.08
Não sou pessimista. Detectar o mal onde ele existe é, em minha opinião, uma forma de optimismo” – Roberto Rossellini.

Um artigo da escritora Alice Vieira - “Copiar não vale” (“Jornal de Notícias”, 3/Fevereiro/2008) – justifica o facto de voltar ao papel dos computadores na educação dos jovens escolares, abordado por mim neste blogue, em 15 de Setembro do ano passado, através do "post" com o título “A entrega de computadores na escola”.

Despertou o seu conteúdo mais de três dezenas de polémicos comentários pela minha chamada de atenção para uma gigantesca campanha política de “marketing” por parte da ministra da Educação que anunciou, “urbi et orbi”, o interesse desta discutível medida, aquando da abertura do ano lectivo na Escola Secundária Francisco da Holanda, em Guimarães.

Detenhamo-nos, agora, na leitura de substanciais excertos do texto do jornal, em que a sua subscritora começa por dizer que “antigamente, muito antigamente, copiar era coisa muito feia”. E prossegue:

Hoje em dia são os professores que ensinam os alunos a copiar, que os incentivam a copiar. Hoje em dia a cópia está institucionalizada. Está a fazer-se uma revolução silenciosa. Hoje em dia os alunos nem entendem que possa ser doutra maneira. Chamem-lhe o que quiserem ‘descarregar’, ‘fazer download’, o que quiserem: nunca deixará de ser uma cópia. Eu chego a uma escola e ouço ‘Os alunos fizeram muitos trabalhos a seu respeito’. E encontro 50, 100, 200 trabalhos rigorosamente iguais, iguais, por sua vez, aos que já tinha encontrado na escola anterior, e na outra, e na outra, com os mesmos erros (nem a Wikipedia nem o Google são infalíveis), com as mesmas desactualizações, com palavras difíceis de que nenhum deles sabe sequer o significado, etc. Os meninos são ensinados a mexer num computador, a carregar nos botõezinhos necessários para que o texto apareça – mas depois ninguém lhes ensina que isso não basta, e que trabalhar e pesquisar não é isso. Isso é, pura e simplesmente, copiar. E como se dizia no meu tempo, copiar não vale, etc. etc."

Desta forma, Alice Vieira alerta-nos para o perigo de tornar os jovens escolares presa fácil da tentação de copiar. Como escreveu Óscar Wilde, “consigo resistir a tudo menos à tentação”.

Longe de mim atrever-me a dizer, ou apenas a deixar subentendido, que o plágio é atributo negativo apenas da era dos computadores. Noutros contextos, seria a exigência utópica de uma sociedade perfeita onde se não aproveitassem todas as oportunidades para infringir as regras ditadas pela aceitação ética e tácita do que é correcto ou não. Os testes com cruzinhas de escolha múltipla facilitam, também eles, o copianço, tornando-o mais difícil nas respostas de desenvolvimento e mais difícil, ainda, quando é permitida a consulta de manuais por as respostas às questões equacionadas exigirem a pesquisa rápida de várias temáticas dispersas em páginas de difícil acesso para quem não estiver bem senhor da matéria.

O nosso compatriota Ricardo Reis, professor da universidade americana de Princeton, num artigo publicado no “Diário Económico” (3/Abril/2007), com o sugestivo título “Copianço”, descreve, bem a propósito, o que se passa na sua universidade: “Em Princeton, o professor é obrigado a deixar os alunos sozinhos na sala durante o exame. Vigiá-los seria uma falta de confiança, até porque todos assinam no topo da folha de resposta uma jura de que se vão comportar de uma forma honrada. Mas se alguém é apanhado a copiar (ou porque foi denunciado por um colega ou porque as respostas o tornam óbvio) então a punição é muito severa: pelo menos suspensão por um ano e talvez expulsão”.

No caso português, ocorre-me a história picaresca daquele aluno cábula até mais não que se dirige ao professor, que lhe atribuiu zero num determinado teste, para lhe pedir satisfações de não ter tido a mesma classificação atribuída ao melhor aluno da turma que tinha as repostas iguais às suas. Ao que o dito professor respondeu que o zero se devia a um evidente copianço seu que se detectava à légua. De imediato, o cábula contra-argumenta que a acusação pela sua gravidade carecia de uma prova cabal que a justificasse. É muito simples, responde-lhe o docente: “À pergunta número tal, o seu colega respondeu ‘não sei’. E o senhor, ‘eu também não’!”

Bem se pode dizer que o copianço é uma forma de corrupção estudantil bem enraizada na tradição nacional e que se pode tornar em semente germinativa de casos bem mais graves na idade adulta. Durante este ano, decorrem as comemorações do 400.º aniversário do nascimento do Padre António Vieira. Em seus “Sermões”, este gigante da literatura portuguesa e acérrimo defensor dos bons costumes não podia deixar de criticar um fenómeno social intemporal: “Chegou a corrupção dos costumes a tal estado que os poderosos têm ódio a quem repreende suas injustiças”. Séculos passaram de então para cá, mas os maus costumes mantêm-se. E assumiram forma bem mais subtil, até!

COMO SE MOLDAM AS ALMAS

julmar, 02.02.08

Este é um dos muitos textos do meu compêndio(assim se designavam os manuais escolares) ´do 3º ano - Alma Pátria, Pátria Alma - com os quais me quiseram moldar a alma que era para isso que a escola servia. A escola era mesmo entendida como Oficina de almas. Bem que o tentaram. Mas eu não tinha alma de cavador.