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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Contra a Tlebs

julmar, 29.06.07

Redacção feita por uma aluna de Letras, que obteve a vitória num concurso interno promovido pelo professor da cadeira de Gramática Portuguesa.

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.

«Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo, era bem definido, feminino, singular. Ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.

O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice.

De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro.

Óptimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e pára exactamente no andar do substantivo.
Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento.
Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.

Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo.

Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo.

Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples, passaria entre os dois.

Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula.

Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum de dois géneros.

Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz activa. Entre beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais.

Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira e segunda pessoas do singular.

Ela era um perfeito agente da passiva; ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.

Nisto a porta abriu-se repentinamente.

Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.

Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se; e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício.

Que loucura, meu Deus!

Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois.

Só que, as condições eram estas:

Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.»

 

Fernanda Braga da Cruz

 

Mudar a cabeça dos professores

julmar, 25.06.07

No dia mundial da criança, 1 de Junho, fui convidado a dar uma aula de filosofia a crianças do 1º ciclo. Passei cerca de duas horas com crianças cuja idade ronda os 10 anos. Colocaram-me as perguntas mais importantes qque se podem colocar em filosofia: questões metafísicas. E tiveram suficiente ciência e paciência para me ouvir.

“Professor Rubem Alves, por que a escola mata o grande sonho das crianças, o sonho de aprender?”

 

Rubem Alves – Para responder essa pergunta, eu vou contar uma história para vocês. Uns psicólogos resolveram fazer uma experiência com macacos. Puseram cinco macacos dentro de uma jaula, dentro da jaula uma mesa, em cima da mesa um cacho de bananas. Os macacos entraram lá, viram as bananas, viram a mesa e, inteligentes que são, disseram: vamos subir na mesa para comer banana. Na hora em que o macaco subiu na mesa, os psicólogos estavam preparados com uma mangueira de água gelada e deram um banho nos macacos, que não apanharam a banana. Passado um tempo, resolvem: vamos comer banana. Outro macaco subiu em cima da mesa e os psicólogos deram outro banho gelado no macaco. Eles não entenderam o que estava acontecendo. Mas, depois do quarto banho, perceberam que havia uma lógica: quando subiam em cima da mesa, vinha banho. Como não queriam tomar banho, estabeleceram, lá entre eles, o seguinte: quem tentasse subir na mesa apanhava. Então, toda vez que um macaco tentava subir na mesa, ele apanhava. As psicólogas tiraram um macaco que sabia do banho e puseram um macaco fresquinho, que nada sabia sobre o banho. Ele chegou lá, viu a banana e falou: eu vou comer banana. Na hora que ele tentou subir na mesa, os outros quatro o agarraram e deram uma surra nele. Ele não entendeu nada: achou que era um trote. Passado algum tempo, ele pensou: vou comer banana. Na hora que ele subiu na mesa, apanhou de novo. Na terceira vez que isso aconteceu, ele compreendeu: nesta jaula, macaco que tenta subir na mesa, apanha. Aí tiraram mais um macaco e puseram outro macaco fresquinho. Aconteceu exatamente a mesma coisa: quando ele tentou subir na mesa, não só os três, que já sabiam do banho, mas também o outro, que nada sabia do banho, se juntaram e deram uma sova no macaco. Aí eles foram tirando os macacos até que ficaram lá só macacos que nada sabiam do banho. Mas eles continuavam a bater nos macacos que subiam na mesa. As psicólogas brincam, dizendo: se perguntassem aos macacos por que agiam assim, eles responderiam que é porque, nesta jaula, sempre foi assim: quem sobe na mesa, apanha. Por que as escolas são do jeito que são? A resposta é: porque elas sempre foram assim. Ou seja: nós nos acostumamos desse jeito e não esquecemos. É preciso desaprender um jeito de ser escola. É preciso desaprender. Infelizmente, eu não tenho tempo para contar a vocês uma experiência que eu tive em Portugal. Lá, eu descobri uma escola inteligente, chamada Escola da Ponte. Escrevi um livrinho sobre isso, que foi publicado em Portugal, teve mensagem até do presidente da República de Portugal. Ele se chama: Escola com que eu sempre sonhei sem saber que pudesse existir. É uma escola totalmente democrática, em que as crianças tomam decisões em pé de igualdade com o diretor e com os professores. Elas aprendem de um jeito maravilhoso: não tem aula, não tem professor dando aula, o professor jamais pede silêncio. Professor não tem nada a ver com disciplina, são elas mesmas que exercem a disciplina. Então, há maneiras diferentes de ser escola, há maneiras diferentes de aprender. Eu diria o seguinte: as escolas são do jeito que são porque nós ficamos prisioneiros dos hábitos e não temos liberdade de imaginação para pensar as escolas de maneira diferente. Olha gente, está tudo na cabeça. Não se melhora a educação dando mais verba para a educação. Dinheiro é muito perigoso. Quem tem dinheiro e tem idéia ruim, só faz coisa ruim com o dinheiro. É preciso imaginação: o segredo da reforma da escola não está em lei de diretrizes, está na cabeça dos professores. Uma pessoa me pergunta: o que fazer para mudar a cabeça dos professores? Eu acho que uma das coisas são encontros como este, para mudar a cabeça dos professores. Escrevendo, eu tento mudar a cabeça dos professores. Eu acho que a única maneira de mudar a cabeça das pessoas é através da conversa e através da leitura. Essas são as únicas formas de mudar a cabeça.

Elegia da lembrança impossível

julmar, 24.06.07

Ia a arrumar um dos volumes de Jorge Luís Borges, quando se me abriu neste poema de que respigo apenas:

(...)

O que não daria eu pela memória

Da minha mãe a olhar a manhã

(...)

O que não daria eu pela memória

De ter sido ouvinte daquele Sócrates

Que, na tarde da cicuta,

Examinou serenamente o problema

Da imortalidade,

Alternando os mitos e as razões

Enquanto a morte azul ia subindo

Dos seus pés já tão frios.

O que não daria eu pela memória

De que tu me dissesses que me amavas

E de não ter dormido até à aurora,

Dissoluto e feliz..»»

cobras e pirilampos

julmar, 22.06.07
Era uma vez uma cobra que começou a perseguir um pirilampo.
* *Ele fugia com medo da feroz predadora, mas a cobra não desistia. Um dia,
já sem forças, o pirilampo parou e disse à cobra:
- Posso fazer três perguntas?
- Podes. Não costumo abrir esse precedente, mas já que te vou comer, podes
perguntar.
- Pertenço à tua cadeia alimentar?
- Não.
- Fiz-te alguma coisa?
- Não.
- Então porque é que me queres comer?
- PORQUE NÃO SUPORTO VER-TE BRILHAR!!!

O Jornalismo que temos - amoara da silva

julmar, 17.06.07

O Editorial do Público de 15-06-07 do jornal Público, assinado pelo seu director José Manuel Fernandes é uma boa amostra do mau jornalismo que temos. O homem empenhou o seu jornal numa verdadeira campanha contra a política do Governo o que até seria proveitoso ao país (dada a incompetência da oposição) se fosse o caso de o seu jornal assumir às claras uma opção política. Mas para isso era preciso ter aquilo que recusa aos outros: espinha e coragem.

E era preciso que tivesse dignidade e respeito. A dignidade e o respeito que as pessoas (não estou a falar de ministros, políticos, jornalistas ou directores de um Jornal ou de uma qualquer Direcção), todas as pessoas merecem. Se tem tão bons argumentos e evidências tão claras, qual a necessidade de utilizar expressões como “rotunda senhora”  ou “a megalomania da senhora é proporcional ao seu volume”?

Desconhecendo as motivações do jornalista que se empenhou a fundo na questão da licenciatura do Primeiro Ministro, vê-se por este editorial que o director do Público perdeu o discernimento e diz o que não deve: somos um “país de bananas”, deixamos de ser Portugal para ser um “canto da Europa” e, por enquanto, vamos menos mal porque não temos um ditador mas um “candidato a autocrata” E enfim, pelos vistos a grande conquista dos trinta anos da democracia foi ter permitido que todo o português, sem excepção, possa dizer livremente “o que lhe vai na alma, ao gritar numa bancada, a propósito da mãe de um árbitro”.

Então, as mulheres deste canto da Europa não dizem nada?

O mais interessante disto tudo, é ver gente ilustrada(?) a bater palmas à paixão triste do sr Director do Público.