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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Morreu Cesariny

julmar, 26.11.06

Nunca se deveria dizer morreu o poeta porque o poeta não morre. Apenas morre a possibilidade da continuação da sua obra.

homenagem a cesário verde

Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas

Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!

                     Mário Cesariny

O último cavaleiro

julmar, 17.11.06

É admirável como Pacheco Pereira, apesar dos factos, continua a defender o indefensável. Mas é assim: ou nós ou eles. Que morram os iraquianos que se destrua uma civilização milenar, que o mundo todo se evapore desde que sobrevivam os nossos valores! Eu se fosse árabe olhando para a perspectiva de P.P. faria exactamente o que os radicais fazem: quer guerra tem guerra! Sempre pensei que pensasse que a cultura é mais do que isso! Que faltará para se convencer que errou? Ninguém espera de si que seja a verdade! Também você é humano e, portanto, sujeito a erro! Mas, enfim, uma vez que defende que apenas a força pode alterar o rumo dos acontecimentos, para quê esforçarmo-nos por encontrar razões? Porquê que há-de tentar em explicar seja o que for?

«Seja o que for o que aconteça, as raízes do problema do radicalismo islâmico e os seus efeitos não mudam com o "diálogo", mudam só pela força ou pelo receio da força. Os atentados fundamentalistas não vão parar e podem, com o novo armamento biológico disponível, assumir um carácter de perturbação social sem paralelo no passado. A nuclearização do Irão mudará completamente o Médio Oriente e colocará em risco o estado de Israel. Podemos não querer ver nada disto e meter a cabeça na areia, ou podemos tentar responder como fizeram os EUA, nalguns casos mal, noutros bem (os EUA estão hoje mais protegidos do que a Europa de riscos terroristas).»


(No Público de 16 de Novembro de 2006)

 

Outros Olhares

julmar, 16.11.06

Vendedor de framboesas

Fotografia de Manuel José Barros

O que nos encanta nesta fotografia? Tudo. Talvez pela combinação dos elementos: o rosto, os olhos (de um azul intenso que combina com o xadrez da camisola); o vermelho dos morangos e o branco do copo combinados com o referido xadrez, além do fino xadrez do casaco. E o chapéu, gosto muito do chapéu.

O homem não pensou nestas combinações. Para muita gente este é um homem vulgar. O fotógrafo arrancou-o à vulgaridade e transfigurou-o numa obra de arte.

Saber indignar-se

julmar, 14.11.06

«Qualquer um pode zangar-se isso é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa, isso não é fácil.»

Aristóteles, Ética a Nicómaco

Quem se importa com os professores?

julmar, 11.11.06
A pedido do amigo Ruas aqui se publica o srtigo com o título em epígrafe. ________________________________
 
 O que impressiona nas intervenções mediáticas dos responsáveis do Ministério da Educação (ME), é a ausência total de uma pa­lavra de apreço e incentivo para com os professo­res. Quando ela vem, parece forçada, demasiado geral, demonstrando uma incompreensão pro­funda pelas condições do exercício da profissão. Os últimos rumores (verdadeiros) sobre as eventuais oito horas lectivas obrigatórias, mais o corte das «pausas» do Natal, Carnaval e Páscoa, provam que as autoridades encarregadas de con­ceberem a política educativa do nosso país não sabem - ou não querem saber - o que implica ser professor.
Fica-se com a sensação de que o ME tem do professor a ideia de alguém que goza de privilégios imerecidos, que sobe «à balda» na carreira, que falta às aulas quanto pode, que se está nas tintas para o aluno, que se esquiva o mais possí­vel ao trabalho e ao esforço. O cúmulo deste intolerável estado de coisas é que usufruiria - como se faz crer aos por­tugueses - dos melhores salários em comparação com os equivalentes euro­peus. O imperativo da política educa­tiva formular-se-ia, pois, assim: «Vamos pôr tudo isto na ordem.» Vamos varrer o despesismo, a «balda», o desperdício, o oportunismo, o laxismo, a facilidade, a incompetência - todos esses vícios da maioria dos docentes que teriam trans­formado a escola num lugar para se vi­ver de boas rendas, trabalhando pouco, mal, e gozando de inomináveis rega-lias e do maior tempo de ócio. Imagem tão pregnante que as excepções - «aquele professor que nos marcou para toda a vida...», frase estafada que, pelo menos, diz a parte mínima que compõe a minoria - seriam incapa­zes de a combaterem e de a apagarem.
Eis o que explicaria os excessos discursivos (e não só) dos responsáveis do ME. Tem-se a nítida impressão de que não gostam dos professores - por mais que queiram dis­tingui-los dos sindicatos. Ora, o que está em jogo no actual debate sobre a educação, é a transformação de uma situação há muito desastrosa, criando condições para um ensino de qualidade, à altura das ambições da «modernização» global do País, proclamadas pelo Governo. Nesse quadro, a Edu­cação constitui um pilar essencial do projecto governativo do primeiro-ministro: se ele falha, falhará todo o projecto. Neste momento constata-se que o clima das escolas (professores cansados, abatidos, deprimidos - dos que pertencem às «excepções») não contribui para a boa aplicação dos no­vos estatutos que aí vêm.

Quem se importa com os professores? Questão que po­deria deslizar, perigosamente, para esta outra: quem se im­porta com o ensino? Quem, nesta reforma, pensa no tipo de trabalho, material e imaterial, que o professor fornece, para que a relação mestre aluno produza os efeitos esperados? Relação extremamente delicada, que não se reduz à trans­missão de conhecimentos, mas que exige do professor um investimento múltiplo, emocional e intelectual,
que provoca um desgaste psíquico e existencial extremo. Que se me permita citar umas linhas que escrevi noutro local: «O investimento na docência convoca forças de toda a ordem, os dons, a capacidade de controlar e de se auto controlar, a plasticidade para se
adaptar a e lidar com cada aluno em particular, o equilíbrio inces-
sante entre o papel de docente e o de educador, o constante brio que se exige
de si (o terrível superego do professor que o força a ter a melhor imagem de si para estar em paz consigo mesmo), a responsabilidade que assume pelo aproveitamento dos alunos, etc. Ele não investe uma ou duas «competências», investe na aula a sua existência inteira”.
Mas não são só o espírito e os métodos pedagógicos que devem ser considerados dentro de um contexto mais alargado.
É a própria noção de «racionalização» do ensino que tem de ser repensada. A ac­tual política educativa parece padecer de toda uma série de disfunções e desfasamentos: muda-se o estatuto da carreira docente, com novas tarefas, mais trabalho, mantendo-se inal­terados os conteúdos e negligenciando a formação necessária dos maus professores; instauram-se regras de avaliação, mas não se eliminam os compadrios e as conivências; exigem-se boas vontades para certas tarefas, e quebram-se as vontades não oferecendo contrapartidas; voltam-se os pais contra os professores, estes contra a instância que os tutela, o pessoal administrativo contra os professores, e já mesmo se formam alianças alunos - pais contra o Ministério. . .
Tudo isto é mau para o ensino e para a educação. Como se a «racionalização» do ensino básico e secundário, ao preocupar-se apenas com alguns dos seus aspectos, e sem visão global, induzisse necessariamente outras formas de irracio­nalidade e anarquia.»

José Gil - Visão, 9 de Novembro de 2006.

As fichas de Santana Castilho - Afonso Leonardo

julmar, 07.11.06

Tenho pelos professores a mesma consideração que tenho por qualquer outro cidadão. Nem mais nem menos. Aprecio qualquer um quando faz o seu trabalho bem feito. Por isso, não acredito nas loas dos sindicatos sobre os méritos de uma classe tão numerosa nem nos deméritos que outros lhe atribuem. Estou mesmo em crer que partilham dos defeitos e das virtudes de todos os seus concidadãos. Estou igualmente em crer que os fracos resultados que obtêm se devem a uma política educativa desastrosa desde há muitos anos e que leva a que às organizações onde trabalham não sejam pedidas contas. Porque de contas se trata. Faz de contas o governo que governa, fazem de conta os alunos que aprendem, fazem de conta os professores que ensinam. Fazem de conta os sindicatos que os professores são todos tão bons que todos em carreira chegam ao topo. Fazem de conta que as leis, nomeadamente a do estatuto da Carreira Docente, sempre foi cumprida e que pelos seus brilhantes resultados deveria ser mantida. Faz-se de conta que para a educadora que dá de comer às criancinhas enquanto canta o Come a papa Joana come a papa e o professor que ensina a Fenomenologia do Espírito se requer igual grau académico e igual retribuição. Faz-se de conta que a boa vontade proposta por Kant deveria ser o único imperativo a reger a actividade docente. Faz-se de conta que na carreira docente alguns professores para transitarem ao 8º escalão não tiveram que prestar provas públicas (como a memória é curta!). Faz-se de conta que muitos professores que estão agora no topo da carreira não se licenciaram num ano sem precisarem sequer de deixar de trabalhar. Faz-se de conta que não havia escolas públicas a esvaziarem-se de alunos onde os professores com poucas horas iam leccionar para os colégios ao lado que se iam enchendo. Faz-se de conta que a formação contínua dos professores era uma resposta aos seus problemas profissionais e das suas escolas. Faz-se de conta que não houve professores que se reformaram aos cinquenta anos porque compraram tempo de serviço que faz de conta que existiu. Faz-se de conta que existiu uma coisa chamada ‘Área-Escola?’, uma disciplina chamada Desenvolvimento Social e Pessoal (DPS), um movimento da Escola Cultural (como seria possível uma escola não ser cultural?!) . Faz-se de conta que é normal um aluno de 7º ano ter 15 (Quinze) disciplinas. Faz-se de conta que é normal os ministros da Educação terem muito boas ideias sobre o assunto depois de terem sido ministros e escreverem livros interessantes. 

De tanto fazer de conta até fazemos de conta que a conta que contamos há-de ser levada a sério. Vem isto a propósito de um artigo do escrevente Santana Castilho (professor do Ensino Superior), publicado no Público, em 6 de Novembro de 2006. Dirigindo-se aos pais, diz: «Pensem que ter 200 alunos é uma média corrente». Que quer dizer, o senhor professor, com média corrente? Quer dizer que a média de alunos por professor é de 200? Quer dizer que é frequente um professor ter 200 alunos? Ou, simplesmente, dentro da cultura atrás exposta, quer dizer que faz de conta que cada professor tem 200 alunos? Se for a sério e fazendo contas do teor que o senhor professor faz metade da população portuguesa anda na escola. Então, depois de contas assim feitas, acha que as fichas é que são idiotas?

Mestre Pacheco

julmar, 07.11.06
JPP sofre da maior parte dos males que critica. Agora qual 'gato fedorento' , despido de humor , repete como um slogan os 'Momentos-Chavez' querendo colar este  a Sócrates. É o lado do estratega populista do homem que pairando metafisicamente acima das aparências julga ser o dono da verdade. Que Bush lhe valha.

Ser bom professor - Paulo Guinote

julmar, 04.11.06
Antigamente existiam uns cromos muito ingénuos com um menino e uma menina com o título "O Amor é." e depois existiam múltiplas soluções.

Já quanto a saber o que é um "bom professor" confesso que agora, mais do que nunca, ando cheio de dúvidas. É que fui apanhado de surpresa por um colega meu, 10º escalão, larga experiência de docência e cargos vários, que desorriso afivelado me inquiriu quando eu espreitei para o espaço dos fumadores, "E tu o que achas que é um bom professor?". Pois ele próprio andava às voltas com a questão e não lhe encontrava solução.

Não sou de ficar sem resposta facilmente, mas desta vez fiquei meio parado sem saber o que dizer, ou como juntar de forma coerente um par depensamentos que ultrapassassem o óbvio. É que em perto de 20 anos muita coisa mudou e o conceito de "bom professor" foi naturalmente evoluindo e sofrendo múltiplas transformações, normalmente no sentido do seu alargamento
para novos domínios.

Nos meus primeiros tempos, achava eu que ser um bom professor passava por ensinar o melhor possível os meus alunos, tornando-os capazes (agora é seria melhor escrever "competentes" ou ainda melhor "dotados das competências") deobter bons resultados nos momentos de avaliação e, ambição maior, que esse saber pudesse ser útil no seu futuro; assim como também passava por cumprir as minhas obrigações formais na Escola e não atrapalhar os outros colegas. Este último detalhe não era, de todo, de desprezar.

Com o passar do tempo as coisas foram-se modificando em meu redor e eu próprio passei de caloiro a jovem professor e, a certa altura, comecei a ver-me a meio da carreira, tão perto ou longe do seu início como do seu fim,a meio caminho entre a completa inexperiência e o conforto de um saber profissional capaz de dar resposta às diversas solicitações da função. Que épor onde ainda estou.

Só que, entretanto, a função do professor desdobrou-se em múltiplasdimensões e, para além de educador, tornou-se um elemento activo de uma ou mais equipas (os Conselhos de Turma), de uma organização (a Escola), um profissional que se pretende reflexivo e crítico (foi a moda na segundametade dos anos 90 do século passado), alguém que deve estar atento a todo e
qualquer perfil de aluno nas suas aulas, uma miríade de exigências de que, sinceramente, nem sempre me sinto à altura.

Talvez não saiba definir o que é um "bom professor", porque tenha o receiode encarar a dura verdade de eu próprio não me considerar um bom professor,um entusiasmado e dedicado elo na grande engrenagem do sistema educativo.Porque não sou capaz de sacrificar todo o meu tempo em prol da Escola, roubando-o à família. Porque não sou capaz apenas de pensar no "trabalho pedagógico" e na sua preparação e perco muito do meu tempo a ler ou mesmo,sacrilégio, a ver televisão. Porque nos fins de semana me recuso a estar horasagarrado a dezenas de testes, procurando o equilíbrio supremo da avaliação justa, ou a conceber "novos materiais" de apoio, e preferindo ir dar um passeio até aos jardins da Gulbenkian, onde a minha filha possa dar umas côdeas aos patos sem precisar de se desviar constantemente de fezes caninas ou ciclistas entusiasmados.

Enfim, muita coisa me faz acreditar que não estou em condições de ser um "bom professor".

O que nunca me tinha ocorrido é que essa condição poderia estar dependente de leccionar uma dada e muito específica percentagem - digamos, assim poracaso, 95% - de aulas. Nunca considerei esse critério quantitativo como elemento indispensável e exclusivo (no sentido de excluir quem o não cumpre) para a minha definição como bom, muito bom, menos bom ou francamente mau professor. Nunca pensei que em 709 aulas previstas para este ano lectivo
poderei ser um bom professor, ou mesmo muito bom, se der 676, mas já só poderei ser considerado suficiente se apenas der 672.

Sinceramente, durante muito tempo quis acreditar que a qualidade do meutrabalho não seria mensurável nestes termos. Mas pelos vistos vivi o suficiente para assistir a esta forma de classificar o trabalho de um professor. Porque, não o esqueçamos, este critério quantitativo é aquele semo qual todos os outros são irrelevantes. Não interessa se eu tiver formado óptimos alunos e futuros cidadãos; que nas provas de aferição eles tenham performances estonteantes e acima da média nacional, que tenha desempenhadoas minhas missões administrativas a contento na Escola (podendo hipoteticamente ser de Director de Turma, ou Coordenador de Departamento ou isto ou aquilo); que os encarregados de educação me adorem sem excepção.

Se não der as 675 aulas determinadas pela fórmula mágica e me descuidar,
tudo vai por água abaixo e "bom professor" terei logo a certeza de não ser.
Pelo menos as minhas dúvidas terão fim.

Grande Entrevista

julmar, 02.11.06
O Dr  (com um dezito) Alberto João Jardim é o meu herói. Apesar de ser o estilo dele, quase poderia assegurar que desta vez o homem jantou bem e bebeu demais. Na taberna que frequento nem o mais bêbado dos bêbados se comporta desta maneira.

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