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Badameco

As anotações de Júlio Marques.

Badameco

As anotações de Júlio Marques.

A máquina do mundo

julmar, 29.09.06

O universo é feito essencialmente

de coisa nenhuma

Intervalos, distância, buracos

porosidade etérea.

Espaço vazio em suma

O resto, é a matéria.

Daí, que este arrepio,

este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e

defrontá-lo,

esta frente de nada aberta no vazio, deve ser um intervalo. 

Trova de Sábado

julmar, 27.09.06

Com o cabrão do João Ferreira, com um dedo do Luís Filipe Vieira, com a mão do Paços de Ferreira, perdoai, Senhor, os filhos da puta que roubam

(retirado do Berra Boi)

Sobre a leitura

julmar, 25.09.06

 

A leitura de todos os bons livros é como uma conversa com os melhores espíritos dos séculos passados, que foram os seus autores, e até uma conversa estudada, em que eles só nos revelam os seus melhores pensamentos.

René Descartes, in 'Discurso do Método'

A Internet e a educação

julmar, 20.09.06

Castells, em «A Galáxia Internet» dedica um capítulo à info-exclusão, uma das consequências mais importantes da nova tecnologia.

«Nas sociedades avançadas, as escolas estão a ligar-se rapidamente à Internet. Nos EUA, a percentagem de escolas públicas ligadas cresceu de  35% em 1994, para 95% em 1999, e até 100% em 2001».

No entanto, adverte para o facto de que a eficiência da tecnologia educativa está dependente da eficiência dos professores que a utilizam. E, mais ainda, para o facto de que a aprendizagem baseada na Internet não depende unicamente da perícia tecnológica mas de um novo tipo de pedagogia necessária para trabalhar na Internet. Como afirma:«O fundamental é trocar o conceito de aprender pelo de aprender a aprender, já que a maior parte da informação se encontra on-line, e do que realmente se necessita é de habilidade para decidir o que queremos procurar, como obtê-lo, como processá-lo e como utilizá-lo para a tarefa que despoletou a procura dessa informação».

Lendo a 'Galáxia Internet'

julmar, 18.09.06

Porque acho que a Internet está a mudar o mundo quis ler um pouco sobre o assunto e escolhi «A galáxia Internet, reflexões sobre Internet, sociedade e negócios» de um conceituado sociólogo actual Manuel Castells, edição da Calouste Gulbenkian.

O que me surperende em primeiro lugar é a velocidade que não deixa de ser uma das características fundamentais das sociedades modernas e que a Internet encarna de modo quase absoluto ao mesmo tempo que quase tem o dom da ubiquidade e da instantaneidade: está lá tudo de modo instantâneo. Dez anos na vida da humanidade não é nada. Mas foi em 1995 que a Internet começou tal como a conhecemos. Dez anos apenas.  Aumenta exponencialmente o desenvolvimento desigual cavando um fosso abissal entre ricos e pobres, quer se trate de indivíduos quer de países. E mais: não deixa alternativa a outros modelos de desenvolvimento. E faz cumprir a palavra do Evangelho: «Aos que muito têm mais lhes será dado e aos que pouco têm até esse pouco lhes será tirado»

«A cultura da Internet é uma cultura construída sobre a crença tecnocrática no progresso humano através da tecnologia, praticada por comunidades de hackers que prosperam num ambiente de criatividade tecnológica livre e aberta, assente em redes virtuais, dedicadas a reinventar a sociedade, e  materializada por empreendedores capitalistas na maneira como a nova economia opera».

E coitados dos info-excluídos: «A info-exclusão fundamental não se mede pelo número de ligações à Internet, mas sim pelas consequências que tanto a ligação como a falta de ligação comportam, porque a Internet não é apenas uma tecnologia: é o instrumento tecnológico e a forma organizativa que distribui o poder da informação, a geração de conhecimentos e a capacidade de ligar-se em rede em qualquer âmbito da actividade humana (...)

O desenvolvimento sem Internet seria equivalente à industrialização sem electicidade durante a era industrial. É devido a isto que a afirmação tantas vezes ouvida relativamente à necessidade de começar 'pelos problemas reais do Terceiro Mundo', ou seja, a saúde, a educação, a água, a electricidade e outras necessidades, antes de se pensar no desenvolvimento da Internet, revela um profundo desconhecimento que realmente importam hoje em dia».

E Castells termina de uma forma pouca tranquila para os que gostariam apenas de viver a vida: «Imagino que alguém poderia dizer:' Porque é que não me deixa em paz? Eu não quero saber nada da sua Internet, da sua civilização tecnológica, da sua sociedade em rede! A única coisa que quero é viver a minha vida!' Pois bem, se esse for o seu caso, tenho más notícias para si: mesmo que você não se relacione com as redes, as redes vão-se relacionar consigo. Enquanto quiser continuar a viver em sociedade e neste lugar, terá que lidar com a sociedade em rede. Porque vivemos na Galáxia Internet»

Como dizia o poeta: Navegar é preciso!

Riscar do dicionário

julmar, 16.09.06

Se me pedissem para riscar uma palavra do dicionário escolheria a expressão bom senso. Por causa da sua adulteração. É com essa expressão que abre o Discurso do Método de Descartes, dizendo-nos em que consiste. Hoje em dia sempre que não se trabalhou o suficiente para ter ideias claras e distintas, sempre que não se sabe como actuar, apela-se inevitavelmente ao bom senso. Mais a mais, o bom senso assim prodigamente recomendado varia tanto como os interesses de quem o recomenda.

Mais um ano lectivo

julmar, 14.09.06

 Nova corrida, nova viagem. Desta vez iniciada com comida - um excelente arroz à valenciana  um vinho tinto, honesto - e discursos vários. E com o poema que se segue. Por mim há 33 anos que rolo a minha pedra até ao cume da montanha. Chegará o dia em que ficará no sopé.

 SÍSIFO

Recomeça…

Se puderes,

Sem angústia e sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro

Do futuro

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcanses

Não descanses.

 

E, nunca saciado,

Vai colhendo

Ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar

E vendo,

Acordado,

O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças

            Miguel Torga

 

Sobre a leitura

julmar, 12.09.06

«É nesse ponto que o estudo fenomenológico vai revelar a sua eficácia. Que nos aconselha a atitude fenomenológica? Pede para instituir em nós um orgulho de leitura que nos dará a ilusão de participar no próprio trabalho do escritor. Tal atitude não pode ser tomada na primeira leitura. A primeira leitura é feita com excessiva passividade. O leitor é ainda um pouco criança, uma criança que a leitura distrai. Mas todo bom livro, assim que terminado deve ser relido imediatamente. Após o esboço que é a primeira leitura, vem a obra de leitura. É preciso então, conhecer o problema do autor. A segunda leitura, a terceira, etc., vão nos ensinando pouco a pouco a solução desse problema. Insensivelmente, temos a ilusão que o problema e a solução são nossos. Essa nuance psicológica: ‘Eu é que devia ter escrito isso’, transforma-nos em fenomenólogos da leitura. Enquanto não chegarmos a essa nuance, continuaremos sendo psicólogos ou psicanalistas»

 A Poética do Espaço, Gaston Bachelard

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