Mais um reencontro com Gilles Deleuze sobre uma questão que quase sempre é tratada pelo senso comum filosófico. É um grato prazer ao encontrarmos um texto sobre algo que queríamos dizer mas não havíamos ainda encontrado as palavras certas.
«É por isso que o filósofo não tem grande gosto
O que é a Filosofia?
Gilles Deleuze e Félix Guattari
Ed. Presença
Meu caro Afonso Leonardo
Falas-me das tuas férias à beira-mar e do mar de gente que à praia ocorre e de te como é difícil encontrares um lugar para estenderes a toalha; e de como na água não podes dar as braçadas largas de que gostas; e de como não encontras lugar para estacionares o teu carro; e de como tens de esperar para comprar um simples jornal; e de como te recusas a ir para uma fila à espera que vague uma mesa no restaurante; e de como à noite a confusão continua nas ruas apinhadas de gente. Chego a ter pena de ti que gostas da areia da praia, da água e do sol mas que nas circunstâncias descritas se tornam um pesadelo.
Aqui pelas aldeias raianas tudo é diferente. Aqui acorrem os emigrantes no mês de Agosto e outros de Lisboa e outras zonas do país. A maior parte das pessoas é afável e procura ser prestável. Há uma grande diversidade de línguas e de gerações. Bebe-se vinho nas adêgas particulares acompanhado de presunto, chouriço e queijo; às vezes alguém se lembra de fazer uma pândega e come-se borrego ou simplesmente uma punheta de bacalhau. Quase todas as terras raianas têm as suas capeias. E não faltam festas onde para além da parte religiosa têm a parte profana feita de jogos populares, de bailes que entram pela madrugada fora, animados por acordeonistas ou por conjuntos com aquelas músicas de gosto pimba mas que conferem grande animação.
E assim se faz Portugal.
Um abraço do Luís
Interpretação: Amália Rodrigues
Música: Fado Victoria
Letra: Pedro Homem de Melo
Pena é que, por preconceito, continuemos a associar o fado à ditadura do Estado Novo.
Povo que lavas no rio
E talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão.
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não.
Fui ter à mesa redonda
Bebi em malga que me esconde
O beijo de mão em mão.
Era o vinho que me deste
A água pura, puro agreste
Mas a tua vida não.
Aromas de luz e de lama
Dormi com eles na cama
Tive a mesma condição.
Povo, povo, eu te pertenço
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida não.
Povo que lavas no rio
E talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão.
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não
Simão num dia fica, noutro dia sai; depois já nã sai, fica ... em dias e semanas seguidas.
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