«Quando se consegue estar sentado numa cadeira, em silêncio, sozinho num quarto, teve-se uma grande educação.»
B.Pascal
"Não te dei, ó Adão, nem rosto, nem um lugar que te seja próprio,
nem qualquer dom particular, para que teu rosto, teu lugar e teus
dons, os desejes, os conquistes e sejas tu mesmo a possui-los.
Encerra a natureza outras espécies em leis por mim estabelecidas.
Mas tu, que não conheces qualquer limite, só mercê do teu arbítrio,
em cujas mãos te coloquei, te defines a ti próprio. Coloquei-te no
centro do mundo, para que melhor possas contemplar o que o mundo
contém. Não te fiz nem celeste nem terrestre, nem mortal nem
imortal, para que tu, livremente, tal como um bom pintor ou um hábil
escultor, dês acabamento à forma que te é própria".
(Pico de
«Se alguma coisa puder correr mal, correrá mal»,
donde , um dos corolários:
« Deixadas a si mesmas, as coisas tendem a ir de mal a pior.»
Este corolário tem uma aplicação intensiva no modus vivendi português, traduzido em dito tão velho como «deixa correr o marfim» que deve ser dos tempos da colonização ou o mais recente e prosaico «deixa arder que o meu pai é bombeiro» ou ainda o anti-stréssico conselho de que «o que se não faz no dia de Santa Luzia se faz ao outro dia»
Poucos ousam falar dela como se a vida tivesse sentido sem ela! Edgar Morin diz que para o sol e para a morte não se consegue olhar de frente.
«É nisto que consiste o culto dos mortos numa primeira fase, mais primária: as oferendas, a decoração das sepulturas, as lápides, as flores. A celebração dos mortos deve, porém, ter também lugar ao nível da nossa própria alma, através da recordação, da evocação de lembranças com exactidão, de uma espécie de reconstrução do ente querido no nosso interior. Se formos capazes disso, a pessoa morta continuará a acompanhar-nos, a sua imagem ficará em nós guardada para sempre e ajudar-nos-á a tornar a dor frutuosa»
in Elogio da Velhice, Herman Hesse
Em Portugal não há parábolas mas apenas provérbios, como aquele que diz que
«deus escreve direito por linhas tortas»
« Um velho, de seu nome Chunglang que quer dizer mestre rochedo», possuía um pequeno terreno nas montanhas. Certo dia aconteceu-lhe perder um dos seu cavalos. Vieram então os vizinhos para lhe demonstrarem o pesar que sentiam pela desgraça sucedida.
O Velho,porém, perguntou-lhes:
- Como sabeis vós que tal foi um revés?
E, alguns dias mais tarde, lá voltou o vavalo mas acmpanhado de uma manada inteira de cavalos selvagens. Aparecerarm novamente os vizinhos que queriam felicitá-lo pela boa ventura.
O velho da montanha, por seu turno, retorquiu:
- Como sabeis vós que tal foi uma sorte?
Uma vez que tinha agora tantos cavalos à disposição, o filho do velho começou a desenvolver o gosto pela equitação e certo dia acabou por partir uma perna. Lá voltaram eles, os vizinhos, para demosnstrar ao velhote a sua tristeza pela desdita sofrida.
Uma vez mais respondeu-lhe este:
- Como sabeis vós que tal foi um revés?
No ano seguinte apareceu por quelas bandas a Comissão dos Granjolas, em busca de homens corpulentos e bem constituídos para servirem de criados descalçadores do imperador e para carregar a liteira. O filho do velho que ainda não recuperarar do problema da perna, ficou para trás.
Chung sorriu.
In, Elogio da Velhice, Herman Hesse.
Uma das frequentes conclusões falsas é esta: como alguém é verdadeiro e sincero para connosco, pois diz a verdade. Assim, a criança acredita nos juízos dos pais, o cristão nas afirmações do fundador da Igreja. Do mesmo modo, não se quer admitir que tudo aquilo, que os homens, com sacrifício da felicidade e da vida, defenderam em séculos anteriores, nada mais era do que erros: talvez se diga que tenham sido graus da verdade. Mas, no fundo, acha-se que se alguém acreditou honestamente em alguma coisa e combateu e morreu pela sua crença, seria, contudo, por de mais injusto se, efectivamente, apenas um erro o tivesse inspirado. Um caso assim parece contradizer a eterna justiça; por isso, o coração das pessoas sensíveis decreta constantemente contra a sua cabeça a seguinte norma: entre acções morais e juízos intelectuais tem de haver um nexo necessário. Infelizmente, não é assim, pois não há justiça eterna.
Friedrich Nietzsche, in 'Humano, Demasiado Humano'
(...)
A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo
(...)
Poemas inconjuntos, Fenando Pessoa
Já lá vão não sei quantos meses (até já mudamos de Presidente! que foi pedido um unquérito urgente sobre uma lista de telefonemas de altas individualidades do Estado - o célebre envelope 9- ligado ao processo da Casa da Pia. Até hoje nihil scitur.
Ao que chegámos.
Se um homem não nos faz vir, ao menos que nos faça rir
Virgínia da Conceição
O Cunha por onde passa faz amizades. Hoje fui encontrá-lo numa reunião municipal convocada (por quem não tinha competência para o fazer) para coisa nenhuma. Tinha-me telefonado há tempos e garantiu-me que já nos conhecíamos de tal sítio e de tal acontecimento. Estava à porta a receber e a cumprimentar todos. Depois foi convidado para mesa, onde não havia assunto a tratar. Enrolaram, enrolaram e foi marcada nova reunião, essa sim é que vai valer. Porque a presidente da mesa fez o que se costuma fazer: O superior disse, a instituição que devia responder não respondeu e eu disto não percebo nada, estou a zero, sabem como é, a vida custa a todos. E os basbaques dos convocados, são assim também, e até entendem que as coisas sendo assim da parte dos outros na parte que a eles toca até não está assim tão mal. E o Cunha no meio disto tudo brilha: ele está perto do poder, sabe o que se lá passa e até tem informação privilegiada. E fla para se mostrar e mostra o que faz e não se contém que não conte como é que até conseguiu junto de tal instituição uns milhares de contos que para ali estavam arrumados. A verdade é que toda a gente escuta atenciosamente o Cunha e o reverencia.
Desta vez o Cunha é mais gordo que forte, cabelo farto e preto, penteado para trás, ligeiramente ondulado e abrilhantado.

Porque é que, na maior parte das vezes, os homens na vida quotidiana dizem a verdade? Certamente, não porque um deus proibiu mentir. Mas sim, em primeiro lugar, porque é mais cómodo, pois a mentira exige invenção, dissimulação e memória. Por isso Swift diz: «Quem conta uma mentira raramente se apercebe do pesado fardo que toma sobre si; é que, para manter uma mentira, tem de inventar outras vinte». Em seguida, porque, em circunstâncias simples, é vantajoso dizer directamente: quero isto, fiz aquilo, e outras coisas parecidas; portanto, porque a via da obrigação e da autoridade é mais segura que a do ardil. Se uma criança, porém, tiver sido educada em circunstâncias domésticas complicadas, então maneja a mentira com a mesma naturalidade e diz, involuntariamente, sempre aquilo que corresponde ao seu interesse; um sentido da verdade, uma repugnância ante a mentira em si, são-lhe completamente estranhos e inacessíveis, e, portanto, ela mente com toda a inocência.
Friedrich Nietzsche, in 'Humano, Demasiado Humano'
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