Quarta-feira, 10 de Julho de 2013

Um povo que não se governa nem se deixa governar

Descendentes dos lusitanos, - depois de andarmos pelos cinco cantos do mundo, depois de uma história de mais de oito séculos como comunidade nacional e no mundo da globalização e das novas tecnologias de informação e comunicação – continua a assentar-nos a observação, atribuída a Júlio César (100-44 a.C.):

"Há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar."

Quem são estes lusitanos? Das descrições históricas, são apontados como traços comuns o caráter guerreiro, a falta de unidade e coesão política, uma vida rude. Estrabão diz que os lusitanos eram "a mais poderosa das nações ibéricas e que, entre todas, por mais tempo deteve as armas romanas", que eram sóbrios e frugais bebendo água,  cerveja de cevada e leite de cabra (vinho apenas nos festins) e comendo pão feito de bolotas de carvalho, carne de cabra, peixe e manteiga.

A contrastar com tanta austeridade, as mulheres aperaltavam-se com grande cópia de jóias.

Era assim nesta parte mais ocidental da Europa, antes de Cristo ter nascido, vivido, morrido. E também depois de ter ressuscitado. E depois da fé de Cristo cá ter chegado mais o culto de sua mãe que se havia de tornar padroeira de Portugal para que nunca mais castelhanos ou outros ousassem exercer domínio sobre nós.  Esta é uma realidade de caráter histórico e antropológico. Somos muito daquilo que já fomos, no pior e no melhor. Sendo que quase tudo o que temos de melhor se origina no que temos de pior. Como no espírito aventureiro onde a coragem e a imprudência andam de mãos dadas, onde fazemos das tripas coração, quase sempre porque a razão adormeceu muito para além do nascer do dia. O tempo, como a vida, para nós não anda nem está parada, o nosso modo de andar é ir andando. Os portugueses nunca estão bem ou mal – vão andando, estão mais ou menos, ou, nunca pior. O modo de agir dos portugueses é basicamente gerundivo, distendendo-se no tempo como se não tivesse tido princípio e como se não houvesse de ter um fim. É assim que os portugueses terminam uma conversa ou um discurso sem terminar porque querem acrescentar só mais uma coisa, dizer uma coisa de que se esqueceram e é da maior importância, repetindo, vezes sem conta, que com isto quero terminar. Os portugueses despedem-se sem se despedir. O que carateriza o modo de agir dos portugueses é o modo imperfeito quer seja passado, quer seja futuro, quase sempre condicional.  Os portugueses mais do que andar, gostam de vaguear, de andar como calha, para onde calha, como calha, que sempre a algum sítio se dará. Parece que foi assim, que chegámos a Vera Cruz. Ainda que tendo horas, continua-se a acertar compromissos, indefinidamente, lá para depois do almoço ou lá para a tardinha, ou, um pouco mais exato, lá para as dez horas da manhã.  

Somos um país por milagre divino, na origem, e por intercessão da Virgem, na perenidade dos anos.

publicado por julmar às 19:05
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