Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2012

Teoria e prática na formação de professores . Formigas, aranhas e abelhas

(artigo publicado no Boletim do CFAE Gaia Nascente)

Os filósofos que se meteram a tratar das ciências dividiram-se em duas classes: os empíricos e os dogmáticos. O empírico semelhante à formiga, contenta-se em juntar e consumir em seguida provisões. O dogmático, tal como a aranha, urde teias cuja matéria é extraída da sua própria substância. A abelha conserva o primeiro termo; extrai a matéria das flores dos campos e dos jardins; depois, por meio de uma arte que lhe é própria, trabalha-a e digere-a. A verdadeira filosofia faz qualquer coisa de semelhante.
Novum Organon – F. Bacon


As reflexões que se seguem são-me suscitadas pelas críticas mais frequentes que os formandos fazem em relação ás acções de formação. E todas as críticas representam o ponto de vista do sujeito que as enuncia. A mais comum de todas, referida de formas diversas, é a que refere o carácter excessivamente teórico e pouco prático das mesmas. Sendo razoáveis tais críticas nem sempre são racionais e não se entende muito bem como se deixam conduzir por caminhos que não querem.
É velho, muito velho o conflito entre os teóricos e os práticos e há muito se sabe da sua indissolúvel relação dialéctica. A prática sem a teoria é cega e a teoria sem a prática é inútil. A relação entre o pensamento e a acção constitui um tema essencial do campo educativo.
O que os práticos reclamam é um estatuto de operários executores de receitas que outros lhe forneçam; eles não têm que entender a realidade, outros que a entendam, que a simplifiquem de modo a que eles não tenham que perder tempo a pensar. No campo educativo onde se colocam tantas questões, muitas delas de carácter ético, não se lhe coloca problema nenhum. A eles não lhes interessa fazer perguntas; eles não entendem que a realidade é complexa, o que querem é executar; eles não entendem que possa haver muitos caminhos; eles não sabem que há muitas direcções e é preciso escolher uma; o que querem é andar não interessa para onde.
Em relação à formação a sua palavra de ordem é : Deixem-se de teorias! O que é preciso é resolver os problemas da vida real; Há muitos anos que trabalho nisto, ninguém me venha dizer como é que se faz!
De uma forma simples, onde há pensamento há teoria e as mais simples acções humanas são presididas por teorias. Imaginemos um acto simples(?) de um professor que colocou um aluno fora da sala de aula ( ou que o põe na rua – diferença de linguagem ou ponto de vista?) e pergunte-se-lhe sobre a razão do acto e ver-se-á como de facto ele usou uma teoria; pergunte-se ao mesmo professor por que razão marca TPC e ver-se-á que tem uma teoria; pergunte-se ao mesmo professor por que está a frequentar uma acção de formação e ver-se-á que ele continua a ter uma teoria; o que de facto ele faz é usar modelos (ou teorias) que aprendeu de uma maneira empírica e sobre os quais nunca reflectiu. Usa teorias espontâneas ou implícitas que por serem tão comuns lhe parecem ter um carácter natural de valor inquestionável `a semelhança da física aristotélica que embora falsa é bela e muito nos convém no dia a dia( pois, não é verdade que os corpos caem tanto mais depressa quanto mais pesados são!?; e o sistema geocêntrico não nos continuam a ser muito mais cómodos do que qualquer outro!? )
O trabalho do professor exige-lhe que continuamente tome decisões e só as pode tomar baseado em teorias pois, para citar, quiçá, o maior teórico do nosso tempo, Einstein – É a teoria que decide o que observar.
Kant, no século XVIII, censurou a pior das teorias – a de que a teoria não serve para nada:
« Ninguém, portanto, pode passar por versado na prática de uma ciência e, no entanto, desprezar a teoria sem mostrar que é ignorante no seu ramo: pois crê poder avançar mais do que lhe permite a teoria, mediante tacteios em tentativas e experiências , sem reunir certos princípios ( que constituem propriamente o que se chama teoria) e sem formar para si, a propósito da sua ocupação, uma totalidade.
No entanto, há que tolerar ainda mais que um ignorante apresente na sua pretensa prática a teoria como inútil e supérflua do que ver um espertalhão admitir que ela é valiosa para a escola ( afim de certamente exercitar a sua cabeça), mas afirmar ao mesmo tempo que na prática o não é; que ao sair da escola para o mundo se apercebe de ter andado atrás de ideias vazias e de sonhos filosóficos; numa palavra, que o que é plausível na teoria não tem valor nenhum na prática. »
In, A Paz Perpétua e outros Opúsculos
A formação não pode consistir em meros exercícios de aprendizagens de teorias suportadas em compêndios, fotocópias, acetatos que dizem como se deve ensinar ou como se deve aprender. A formação partindo da experiência ( e dos problemas se os houver) deve reflectir sobre ela e assim promover a substituição de teorias implícitas por teorias explícitas. Isto conduzirá ao confronto entre as teorias e práticas educativas. Para isso o professor terá de ter vagar e disposição. As grandes teorias - e as nossas pequenas teorias - parecem ser filhas da ociosidade : Tales olhando , distraído, para o céu cai num poço; diz-se que a ideia da gravidade terá surgido a Newton quando descansava debaixo de uma macieira e lhe caiu uma maçã em cima ; Descartes conta-nos que o seu projecto de uma ciência universal lhe surgiu quando liberto de cuidados ou paixões passava o dia inteiro fechado no quarto diante de um fogão, livremente dado a seus pensamentos; parece, ainda que foi a olhar para o céu que o homem descobriu a terra; finalmente, tendemos a esquecer que as coisas mais importantes da vida as aprendemos a brincar. Ora, a formação terá de constituir um espaço e um tempo que distanciado do espaço e tempo escola permita sem a urgência da necessidade prática um olhar distante condição de descentração, de reflexão, de conhecimento, de teoria . A identidade profissional, a valorização do professor passa pela sua razão de ser, de saber e de fazer. A sua autonomia funda-se em saber o que faz e porque o faz .
Esse tempo e espaço onde decorre a formação deve ser um lugar de encontro. Encontro de profissionais que pertencentes a níveis diferentes de ensino, com diferentes formações académicas, provenientes de diferentes escolas têm diferentes experiências e diferentes pontos de vista (diferentes teorias) têm aqui a oportunidade de partilharem tudo isso. E todos sabemos como é solitário o trabalho dos professores independentemente da sua escola ter muitos ou poucos professores. E todos sabemos como se pode estar e fazer reuniões de grupo de conselho de turma e outras sem que cada um saia da sua solidão, sem que haja partilha.
Toda a formação só faz sentido como autoformação, atendendo a que se trata de pessoas adultas com elevado nível cultural, com experiência profissional e com continuado desejo de aprender. E tal como não se pode obrigar os alunos a aprender (ainda que estejam na escolaridade obrigatória) o mesmo é verdade na formação de professores (ainda que a formação seja obrigatória). Mas neste domínio como noutros quem mais tem mais necessidade sente: Os alunos que menos precisam de estudar são, quase sempre, os que mais estudam e os encarregados que menos precisam de vir à escola são os que mais aparecem. Alguém disse que a formação começou por ser reivindicada como um direito, se transformou num dever e é suportada como um castigo. Como é difícil passar do reino da necessidade para o reino da liberdade!
As escolas são locais de trabalho e de um trabalho de características especiais. Trabalho de alunos e professores e que como todo o trabalho tem de resultar em produto. E esse produto tem de resultar numa cultura científica que nos leva a uma compreensão dos fenómenos que ultrapasse o mero senso comum. Tal exige dos professores uma atitude científica, uma atitude filosófica, uma atitude artística, se entendermos que é nesta tríade que o homem se realiza
Só faz sentido para o professor a rejeição do estatuto de (mero) funcionário se se assumir não apenas como um executor mas como um planificador, que traça objectivos e escolhe os meios mais eficazes de os atingir e que para o conseguir precisa de uma sólida formação de base bem como uma actualização contínua dadas as mudanças dos públicos que serve e dos conhecimentos que transmite.
Se em nenhum campo é produtiva a separação teoria - prática, no campo da formação/educação tal separação é uma monstruosidade. Cada professor tem descobrir a sua própria luz. Pequena que seja a luz que durante o dia não se vê dá-nos muito jeito durante a noite e a noite às vezes é muito longa. Então, venham os grandes iluminados, os grandes reformadores, os que nos dizem que tudo está a mudar e que precisamos de dar cambalhotas para acompanhar a mudança. Quando a luz deles passar a nossa continuará a iluminar e saberemos que caminho seguir. Mas então não peçamos receitas. Aprendamos artisticamente a encontrar os sabores dos saberes e os saberes dos sabores. Nem formigas, nem aranhas: sejamos abelhas. E entendamos a mensagem de Almada Negreiros:
«E de que serve o livro e a ciência, se a experiência da vida é que faz compreender o livro e a ciência?»

Júlio Silva Marques – Professor de Filosofia
publicado por julmar às 12:14
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