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Badameco

Anotações, observações, reflexões sobre quase tudo o que me (co)move

Badameco

Anotações, observações, reflexões sobre quase tudo o que me (co)move

Os meus amigos não morrem

Avatar do autor julmar, 19.01.26

Alberto Bastos – Apresentação do livro:

Volfrâmio: “Suor o deu, suor o levou” e "Cambra na Diáspora"

  1. Cumprimentos protocolares e saudações:

Presidente da Câmara e vereação, à Direção da Associação Cívica Alberto Bastos, na pessoa do seu presidente Adriano Castro, aos familiares do Alberto, aos cambrenses sócios da Associação e aos futuros sócios.

  1. Agradecimento pela honra de me ser dada a palavra para falar um pouco do Alberto e da sua obra

"Estou aqui hoje e podia contar-vos uma história … ou várias, se o tempo não fosse o bem mais escasso de que dispomos. É disso que a nossa vida é feita e cada um de vós pode contar a vossa respondendo a uma pergunta simples: - como conheceram o Alberto? A palavra milagre é pouco adequado na boca de um filósofo ou de um cientista, mas não o é, de todo, na boca de um poeta. E é um milagre que cada um de nós esteja aqui, que estejamos nós e não outros. Ao pensar no que aqui diria hoje fui levado para um passado que não julgava tão distante: em 1973, no princípio de outubro, início do ano letivo, andava um bacharel em Filosofia, aflito, à procura de emprego. Numa cabine telefónica, em Oliveira de Azeméis (a cabine ainda lá está e é hoje um posto de leitura) fez chamadas para várias escolas e, a última delas para a Escola Técnica de Vale de Cambra. À pergunta, se havia algum horário disponível, que sim que havia um horário, que sem falta fosse no dia seguinte. Tomou a camioneta do Caima, passou por Ossela, lembrou Ferreira de Castro e o livro “Os Emigrantes” que lera recentemente e pisou solo cambrense, pela primeira vez. Antes de descer da camioneta, perguntou ao motorista onde era a escola: É logo ali! À porta, estava um senhor, que era nem mais, nem menos o diretor, o dr Vide. Entraram no gabinete: - Aqui tem! E passou-lhe para a mão o horário: História: 12 horas diurnas, 6 turmas (3º, 4º,5º anos) e Português: 17 horas noturnas, várias turmas de vários cursos e anos. Total 29 horas! Disse-lhe: SR Dr., preferia ficar só com Português ou História, pois que ainda tinha o curso para acabar. Ele com uma palmadinha nas costas. Fica com o horário todo. Vai ver que vai ganhar um bom dinheirinho. Entre vários conselhos, pegou num stencyl e explicou como se escrevia nele. O importante era que os alunos tivessem notas. Por fim, entregou-lhe esta caderneta que agora vos mostro. O bacharel guardou-a. Durante a longa carreira de professor nunca guardou mais nenhuma.  Em outubro próximo, fará 50 anos.

Um ano depois da chegada do Bacharel a Vale de Cambra, chega, num dia das férias grandes, o Alberto com o Víctor Leite a Vilar Maior, a minha terra natal, vindos de uma viagem a Andorra, e por ali, ficaram uns dias o suficientes para nunca mais esquecerem a hospitalidade recebida. Com efeito, a Graça que por graça do João era o meu pai, sempre dava o melhor pelos meus amigos: Na mesa a toalha de linho imaculada, o pão sempre igual em cada dia, o vinho igual em cada ano, combinados com chouriço e presunto, guardados para tais ocasiões.

E dizia a Graça e insistia o João: coma um pouco de queijo, beba um pouco de leite, ande lá não faça cerimónia! Olhe que é tudo cá da casa!

Escrevi no meu Badameco, quando soube da tua morte. E contei uma história, de tantas outras, que ficam por dizer. Na compreensão que tinha de ti do modo como sentias, vivias e escrevias. Hoje quando te leio é como se estivesse a ver-te. Em palavras sobre a vida dos outros talhas o teu retrato num corpo que retrata a alma, esse teu do poema que escreveste - ‘Olhar – lume vivo, chama acesa’ Pg 9

Sim, o Alberto era um poema, estava imerso em poesia, tudo era poesia. Como adivinhaste que estaríamos aqui quando tiraste o teu retrato no Sousa do Codal?

Escrever era, para ti, o alívio do peso das ideias, do excesso de sentir, era uma urgência que se manifestava numa tensão do corpo e da alma, na crença do poder da palavra: “A haver mudança, seja sim, sem mais tardança.” Cumprias, talvez sem o saber, o ditame do padre António Vieira “O melhor retracto de cada um é aquilo que escreve. O corpo retrata-se com o pincel. A alma com a pena”.

A Rota do Ouro

Avatar do autor julmar, 12.12.25

A Rota do Ouro, de William Dalrymple - Livro

Não deve ter sido nada fácil escrever um livro como este. São no total 508 páginas. Destas,105 são notas do autor,  60 de bibliografia e as restantes de índice remissivo. Tudo isto revela a serirdade do trabalho fundamentado em tão vasta documentação a que se acrescenta as viagens a lugares, monumentos e museus.  A leitura também não é 'como se fosse um romance'. É tal a abundância e densidade de informação tal o entrelaçamento de dados culturais que exige  atenção constante. De facto, só um livro assim poderia traduzir a incomensurável riqueza da indosfera. Penso que ao longo da nossa vida, incluindo a académica, nos centrámos na cultura ocidental como se ela fosse o alfa e o omega. Não é, e talvez estejamos no ponto de viragem em que a indosfera voltará a ser dominante. Já o é em termos demográficos. Talvez seja pertinente a mensagem  de um livro de Roger Garaudy que li, há largos anos, "Para um Diálogo das Civilizações", com o acertado subtítulo: "O Ocidente é um acidente". Quando lemos um livro assim, estamos sempre à espera de ver mencionado o nome de Portugal, neste caso, porque também os portugueses por lá andaram e constitui, para nós, o ponto mais alto da nossa História. E, sim, na página 317, na antepenúltima página:

Isto ( A Summa de Pacioli, um enorme compêndio de matemática impresso em Veneza em 1498) aconteceu apenas quatro anos antes de Vasco da Gama ter desembarcado em Calcutá, e, em seguida, bombardeado a cidade, dando início à era do colonialismo europeu e assumido o controlo do comércio das especiarias que outrora tanata riqueza de Roma levara à Índia. Numa das grandes ironias da história, a Índia forneceu ao ocidente as ferramentas financeiras e comerciais que a Europa viria a utilizar mais tarde para ocupar."

Lido o livro, gostaria de asseverar a justeza da síntese da badana inicial do livro que diz:

"Em a Rota do Ouro William Darrymple recorre a uma vida inteira de estudo para realçar a posição, frequentemente esquecida, da Índia enquanto coração da antiga Eurásia. Pela primeira vez dá um nome a esta difusão das ideias indianas que alteraram o runo da História. Do maior templo hindu em Angkor Wat ao budismo da China, do comércio que ajudou a financiar o Império Romano à invenção so números que usamos na atualidade (incluindo o zero), a Índia marcou a cultura e a tecnologia não só do mundo antigo, como também do mundo de hoje".

 

Era uma vez a democracia na América. Por que reler Tocqueville agora

Avatar do autor julmar, 30.11.25

Da Democracia da América - 1

"Aquilo que, emtodos os tempos, ancorou a liberdade no coração de alguns homens foi o seu encanto próprio, independentemente dos seus benefícios: foi o prazer de poder falar, agir e respirar, sem constrangimentos, sob o único governo de Deus e das leis" A. Tocqueville

Num tempo em que a democracia enfrenta ameaças sérias — polarização extrema, erosão das instituições, desinformação e crescente desconfiança entre cidadãos — Da Democracia na América revela-se surpreendentemente atual.

Tocqueville alertou para riscos que hoje ganham nova força: a tirania da maioria, a apatia cívica, a tentação de um Estado que controla em nome da proteção, e o perigo de sacrificarmos liberdades em troca de segurança ou conforto.

Revisitar este clássico é uma forma de recuperar lucidez num momento de incerteza. Tocqueville ajuda-nos a reconhecer os sinais de alerta e a recordar que a democracia só sobrevive quando os cidadãos a defendem ativamente

Uma Aldeia no Terceiro Reich

Avatar do autor julmar, 15.11.25

Uma Aldeia no Terceiro Reich

Alguns  dos livros lidos nos últimos anos abordam a problemática do nazismo e do estalinismo as duas enormes hecatombes do século XX e que continuam a assombrar o presente. Este livro faz-nos um retrato de um ponto de vista diferente a partir de uma aldeia (que se foi tornando uma pequena cidade), a aldeia de Oberstdorf, nos Alpes Bávaros, onde durante séculos os moradores levaram vidas simples e afastadas dos grandes acontecimentos da história — até que o regime nazista invadiu também esse refúgio remoto. 

Através de arquivos pessoais, cartas, entrevistas e memórias, os autores revelam como a ascensão do fascismo transformou profundamente a comunidade local: o fanatismo, a lealdade, os conflitos, o medo e a compaixão passam a coexistir entre camponeses, religiosos, políticos, refugiados, crianças e oficiais nazis. 

A cada passo se mostra a natureza humana como algo profundamente ambíguo: capaz de bondade, coragem e solidariedade, mas também de passividade, autoengano e crueldade quando pressionada por medo, propaganda ou desejo de pertença.

Julia Boyd dá vida concreta às ideias de Hannah Arendt, mostrando como o mal pode crescer silenciosamente através de pequenas concessões, falta de reflexão e desejo de pertencer — não apenas através de fanáticos, mas sobretudo através de pessoas comuns.

É esta gente comum que passoa a passo cumprindo ordens constrói a banalidade do mal onde a ausência de conciência crítica é terra fértil para o conformismo e a responsabilidade pessoal se dilui nos hinos, nas marchas e nas bandeiras desfraldadas.

O Cérebro ideológico

Avatar do autor julmar, 10.11.25

Bertrand.pt - O Cérebro Ideológico

Haverá muitos critérios para considerar a leitura de um livro importante.  No meu caso, tal é mensurável pela influência que exerce em mim, na forma como me ajuda a clarificar  ideias, no modo como me ajuda a entender-me a mim e aos outros. Digo no modo como poderia dizer no método. O método, ou caminho, que o autor segue para descobrir, mostrar ou demonstrar as teses que defende. Isso exige esforço, trabalho, espírito científico que se traduz na apresentação do livro, verificável, pela quantidade de notas e pela bibliografia exposta na parte final. Não basta afirmar, é preciso provar e confirmar. Isso é ciência. O nosso cérebro, preguiçoso como é, adora certezas, gosta de vadiar por caminhos fáceis e já trilhados e prefere companheiros pacíficos e obededientes. Acima de tudo, encanta-se com histórias e se, desde cedo, encontrar uma repetida por muitos poderá viver nela o tempo todo. O cérebro não cuida do que é verdadeiro mas do que é cómodo e conforme. Daí que lhe sejam simpáticas,
"as ideologia regressivas que olham para trás nostalgicamente-procurando preservar ou restabelecer antigas hierarquias de poder, enraizadas em características de gênero, geografia, raça, classe ou casta - exercem controle sobre os seus seguidores com ameaça de violência ou de privação material ( que é outro tipo de violência.
E, porque o cérebro é preguiçoso,
 encontrará maneiras de dividir as pessoas em binaridades de bem e de mal, sem nada entre elas ou além delas." pg91
O cérebro é faminto dessa droga mágica que dá pelo nome de dopamina o que ajuda a compreender muito do nosso comportamento que tende  a perseverar nas histórias que na infância nos foram inculcadas. C. Darwin é um bom exemplo dessa luta entre o cientista que descobre um novo significado para a vida na terra e o crente que descobre o sem sentido da Bíblia e que a frase que a esposa de C. Darwin pediu para que não constasse na sua autobiografia, ilustra:
 Não devemos ignorar a probabilidade de a constante inculcação de uma crença em Deus nas mentes das crianças produzir um efeito tão forte e porventura herdado nos seus cérebros ainda não completamente desenvolvidos, que lhes seria tão difícil abandonar a sua crença em Deus, quanto para um macaco livrar-se do seu medo e ódio instintivos por uma cobra “ página 183
Diz-nos o autor que 
“Num estudo com mais de 700 págs, descobri que a flexibilidade cognitiva estava ligada à descrença religiosa “  (...)  e
“Para mim, são essas as pessoas mais interessantes: as que desafiaram as expectativas dos seus pais e conduziram a suas vidas numa direção diferente. Nos dados, descobri que aqueles que abandonaram a ideologia religiosa conseguiram as pontuações mais elevadas em flexibilidade. Em alguns testes de flexibilidade, os indivíduos que se havia tornado seculares até tinha uma vantagem sobre as pessoas que sempre haviam sido seculares. E as pessoas que se converteram a uma ideologia religiosa conseguiram em média as mais baixas pontuações de flexibilidade, sendo por vezes mais rígidas do que as pessoas que mantiveram uma ligação religiosa durante toda a vida.“ Página 190
E, no caminho socrático do "Conhece-te a ti mesmo", achei o livro fantástico pela oportunidade de avaliar a minha história de vida com uma luz diferente.
 
 
 

Montaigne é o meu padrinho, diz o Badameco

Avatar do autor julmar, 04.11.25

Ensaios - Antologia - 1
Michel Montaigne (1533-1592)

Se eu fosse sociólogo gastaria algum do meu tempo na observação de lugares recentes onde as gentes confluem por necessidade, por ócio, por prazer. De entre esses lugares, escolheria as “Fnac’s.  Agrada-me sobremaneira ver tanta gente interessada em livros. Da última vez, porque se comemorava o Dia Mundial do Livro, num gesto simpático, um funcionário entregava um opúsculo de Montaigne: Dos livros. Pequeno que é, li-o no mesmo dia. Tive a felicidade de nele encontrar uma citação que tinha anotada mas de que ignorava o autor: “A opinião que formulo serve igualmente para pôr em evidência os limites do meu discernimento e não os limites das coisas”, fórmula que antecipa em séculos o perspectivismo proposto por Nietzsche na construção do conhecimento e na procura da verdade. 
Igualmente, fiquei contente por encontrar em Montaigne uma metodologia que há muito sigo: “A minha memória é tão fraca que já me aconteceu mais que uma vez pegar de novo, como se fossem recentes e desconhecidos para mim, em livros que lera cuidadosamente uns anos antes e que rabiscara com as minhas notas. Para acudir a estas falhas, ganhei o hábito, desde algum tempo, de acrescentar no fim de cada livro a opinião que dele fiz em geral”, a data em que terminei a minha leitura e a opinião que dele fiz em geral para poder recuperar ao menos a maneira e a ideia geral que concebi do autor durante a minha leitura”.
Como se pode ler por muitas razões, Montaigne dá-nos as suas:
“Nos livros procuro apenas obter prazer num divertimento honesto; ou, se estudo, procuro apenas a ciência que trata do conhecimento de mim próprio e que me instrua no bem morrer e bem viver”.

Nota: Este post foi publicado no meu extinto blog Pitagórico que antecedeu o Badameco. Foi este hábito de tomar notas de acontecimentos, ideias e leituras,  partilhado com o filósofo M. Montaigne que inspirou o nome do blog Badameco (Vade mecum), uma espécie de agenda.

No gesto da procura

Avatar do autor julmar, 01.11.25

Zé Manel.JPG

Caro Zé Manel, costumo dizer que os meus amigos não morrem. Conhecemo-nos  há 50 anos quando tu davas aulas de Português na Escola Preparatória D. Afonso Anes de Cambra e eu dava aulas de História na Secção Liceal de Vale de Cambra e aulas de Português da Escola Técnica, no ano da Revolução do 25 de Abril. Era nesse ano, professor da tua irmã, a Maria José que viria a falecer, anos mais tarde, num acidente de viação quando, como professora se delocava para a escola. Desde esses anos  de Abril de  cravos e de sonhos, que não mais nos encontrámos. Foi com surpresa que soube da tua morte. 

Ias gostar de saber que te estou a escrever para te dizer que hoje ao desfazer-me de papéis antigos encontrei este opúsculo artesanal de poemas - de papel desmaiado e agrafos enferrujados  - sobre o amor, a flor e a liberdade -  dos teus alunos a quem inspiravas.  Li e gostei. 

Um dia encontrei uma velhinha. Pediu-me uma esmola e eu dei-lha. Ela agradeceu. Agarrei numa viola e comecei a tocar para ela. As andorinhas à nossa volta  faziam roda e também começaram a cantar porque sabiam o que era o amor.

Aluno - Luís Jorge Santos Pinho

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Contra o Progresso

Avatar do autor julmar, 27.10.25

Contra o Progresso - 1

Não esqueço que sou filósofo e conheço o caminho que aí me conduziu. São tantos os livros que gostava de ler, são tantos os interesses que me movem no mundo da cultura que me falta o tempo para as leituras filosóficas que requerem um parentese especial na vida agitada que levamos: silêncio, concentração e o tempo que levar.  Descartes comparava a filosofia a uma árvore: 

"Assim, toda a Filosofia é como uma árvore, cujas raízes são a Metafísica, o tronco é a Física e os ramos que saem desse tronco são todas as outras ciências, que se reduzem a três principais, a saber, a Medicina, a Mecânica e a Moral; entendo, porém, pela Moral, a mais alta e perfeita que, pressupondo um completo conhecimento das outras ciências, é o último grau da sabedoria.”

(René Descartes, Princípios da Filosofia, Carta-prefácio a Cláudio Picot, 1647)

O trabalho mais difícil e penoso é o das raizes, o verdadeiro trabalho dos filósofos. Não que a metafísica de Descartes seja a metafísica de hoje. Descartes que é considerado o pai da filosofia moderna, sabemos hoje que estava errado, como errado estava toda a física aristotélica o que não retira o enorme contributo de um e de outro na construção do saber. Não teríamos avançado sem os erros de um e de outro. O saber é feito de construções e descontruções. Por vezes, são construções (sistemas) que caem por terra. Quem durante a sua vida não desaprendeu pouco terá aprendido. Isto par dizer, que emboa parte é esta a mensagem mais tácita do que explícita do autor de "Contra o Progresso"

A árdua ética tarefa consiste, por isso, em ‘desaprender ‘ as coordenadas mais básicas da nossa imersão no mundo quotidiano: o que outrora serviu como recurso à sabedoria ( a confiança básica nas coordenadas de fundo do nosso mundo) é agora a fonte de um perigo mortal ” pg 45
 
E o autor vai concluindo, o que eu o próprio concluí, de que a solução passa por regressar a Sócrates:
“ A revolução socrática apresenta duas características. Primeiro, constitui uma reação à crise generalizada de vida social grega que, para Sócrates, se manifesta na popularidade generalizada dos sofistas, mestres de truques retóricos vazios que encarnavam uma ‘autocopioria da tradição da polis. Em segundo lugar, o que Sócrates contrapõe a este declínio não é apenas um regresso ao passado glorioso, mas um auto questionamento radical. O princípio básico da filosofia socrático é a repetição incessante da fórmula: “o que entendes, exatamente por (…): Por virtude, verdade, bondade e questões fundamentais afins? Na situação atual, necessitamos do mesmo questionamento: o que entendemos por igualdade, liberdade, direitos humanos, povo, solidariedade, emancipação e todos os assuntos e todos os outros conceitos de que nos servimos para legitimar as nossas decisões? Assim, o que importa não é regressarmos ao legado da Europa, mas resgatá-lo por meio de uma reflexão profunda a seu respeito.” Pg 82

Às mulheres da minha aldeia

Avatar do autor julmar, 15.10.25

Graça rendeira preto.jpg

No Dia Mundial da Mulher, a nossa homenagem vai para todas as mulheres da nossa aldeia – as de hoje e as de ontem, as que foram meninas e cresceram a trabalhar duramente, de sol a sol, sem queixume, com a força da terra e o amor da família.

Lembramos aquelas que, desde tenra idade, pegaram na enxada e no sacho, que cavaram a terra com mãos calejadas e pés firmes, que mondaram ervas, ceifaram o trigo, regaram os campos, garantindo o sustento da casa. Mulheres que, mesmo cansadas, voltavam para os seus lares, onde a lida nunca terminava. Acendiam o lume, enchiam a panela com o que a terra dá e, com mestria, aproveitavam cada ingrediente com sabedoria, lavavam a roupa na presa de Vale de Castanheiros ou na ribeira, fiavam e teciam, transformando fios em peças de aconchego. E cantavam, para afugentar o mal.

Foram mães dedicadas, esposas incansáveis, filhas diligentes e avós sábias. Carregaram cestos e cântaros à cabeça, levaram os filhos ao colo e suportaram fardos invisíveis, aqueles que a vida lhes impôs sem pedir licença. Com a força de quem nunca desiste, enfrentaram o vento e a chuva, o frio e o calor, sem nunca baixar os braços. Resistiram.

Hoje, queremosr lembra e honrar estas mulheres. Porque foram elas que, com sacrifício e resiliência, ergueram famílias e transmitiram valores. São elas que nos ensinaram que a verdadeira força não mais do que nos músculos, se encontra na alma, na coragem de continuar, no amor que colocaram em cada tarefa, em cada gesto.

Que neste dia e em todos os outros, possamos reconhecer e agradecer o legado que deixaram e continuam a deixar. Porque sem elas, a nossa aldeia não seria o que é. Sem elas não seríamos, deram-nos tudo. deram-nos a vida, cuidaram de nós.A todas as mulheres da nossa terra, a nossa eterna gratidão.

 

O retrato de Dorian Gray

Avatar do autor julmar, 24.09.25

O Retrato de Dorian Gray

(Post resgatado ao Pitagórico, publicado em fevereiro de 2004)

Este é um romance que me encheu a alma. A história gira à volta do personagem principal que á o nome à obra – Dorian Gray – um jovem de excepcional beleza que vive obcecado pela ideia de poder envelhecer. Por um fenómeno inexplicável o envelhecimento é transferido para um seu retrato pintado por um seu amigo Basil Hallward a quem acabaria por assassinar, quando este depois de lhe ter contado as coisas horríveis que acerca dele corriam, quis ver o retrato que Dorian escondera numa divisão onde só ele tinha acesso. Se Dorian é o personagem em que assenta toda a acção, todas as despesas da teoria, da dissertação sobre os mais diversos assuntos correm a cargo de Lord Henry. Penso que é nele que Óscar Wilde se autobiógrafa: a assumpção da estética como actividade suprema do homem, na sua concordância com a posição de Dostoevsky de que arte salvará o mundo. Se Wilde acreditasse que o mundo tem salvação. Lord Henry disserta acerca de tudo revelando um conhecimento extraordinário do comportamento dos homens (e das mulheres), de ciência, pintura, música, filosofia. Acima de tudo á apreciável a sua fina e permanente ironia que pressupõe sempre a consideração da vida como um jogo. E talvez não seja verdade que quem ganha no jogo perde no amor. A vida não está preocupada com esses equilíbrios. De resto o provérbio só pode ter sido inventado por um ressaibiado.

«O artista é o criador de coisas belas.
Revelar a arte ocultar o artista é o objectivo da arte.
O crítico é aquele que consegue traduzir de outro modo ou em novo material a sua impressão das coisas belas.
A mais elevada, como a mais medíocre, forma de crítica é uma expressão autobiográfica.
Os que encontram significados disformes em coisas belas são os cultos. Para esses há esperança.
São os eleitos para quem as coisas belas apenas significam Beleza.
Não existem livros morais ou imorais. Os livros são bem ou mal escritos. É tudo.
A antipatia do século XIX pelo romantismo é a raiva de Caliban ao ver a sua cara no espelho.
A antipatia do século XIX pelo romantismo é a raiva de Caliban por não ver a sua cara no espelho.
A vida moral do homem é assunto para o artista, mas a moralidade da arte consiste na perfeita utilização de um meio imperfeito. Um artista não quer provar coisa alguma. Até as coisas verdadeiras podem ser provadas.
Um artista não tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um maneirismo de estilo imperdoável.
Um artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo.
Para o artista, o pensamento e a linguagem são instrumentos de uma arte.
Para o artista o vício e a virtude são matéria de uma arte.
Do ponto de vista formal, o modelo de todas as arte é a arte do músico. Do ponto de vista sentimental, o trabalho do actor é o modelo.
Toda a arte é simultaneamente superfície e símbolo.
Os que penetram para lá da superfície, fazem-no a suas próprias expensas.
O que a arte espelha realmente é o espectador e não a vida.
A diversidade de opinião sobre uma obra de arte revela que a obra é nova, complexa e vital.
Quando os críticos divergem, o artista está em consonância consigo próprio.
Podemos perdoar um homem que faça uma coisa inútil desde que não a admire. A única desculpa para fazer uma coisa inútil é ser objecto de intensa admiração.
Toda a arte é perfeitamente inútil»

Romance lido em Janeiro de 2004