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Badameco

Anotações, observações, reflexões sobre quase tudo o que me (co)move

Badameco

Anotações, observações, reflexões sobre quase tudo o que me (co)move

O Princípio de tudo

Avatar do autor julmar, 28.01.23

O Princípio de Tudo - Uma nova história da humanidade

Começei o ano com uma extensa leitura, uma longa viagem ao princípio de tudo. Houve um princípio que me foi contado, não como uma metáfora, mas como, mais que real, sagrado: A história do paraíso terreal em que Eva se aproveitou da sesta do seu senhor para roubar o fruto proibido. Depois a história continua, séculos fora, até aparecer Jesus Cristo, "morto e crucificado, ressucitou dos mortos ao terceiro dia e subiu ao céu...", por aí fora. O mundo esteve cheio de histórias assim, de mitos. Porém, eu sou filho de Eva na história que me fez pertencer ao mundo cultural  judaico-cristão. A vida e o estudo no seminário repetiram e alargaram a história que de tão insistentes me despertaram a dúvida. Mais tarde, na universidade, sob supervisão dos jesuítas, com a filosofia escolástica, a mesma história, agora no esforço de a compatibilizar com a 'razão natural', sempre sob o lema escolástico "Philosophia ancilla Theologiae". Até repetir o gesto de Eva: desobedecer. Em vez de maçã foram livros proibidos. Quando chegou a hora da certificação a que tinha direito recusaram conceder-ma e tive de a conseguir noutro lugar. 

Não é da minha história que o livro trata. Ou melhor, também é minha (e de cada um de nós) porque é da humanidade. Se os livros não tratassem de nós não teriam qualquer interesse, pois, os motivos fundamentais por que o escritor escreve são os mesmos dos do leitor que lê. 

Ler é como viajar. E depois que a viagem termina ainda continuamos durante muito tempo a pensar em tudo quanto vimos e ouvimos. Haverá coisas que jamais esqueceremos, sobretudo, as diferenças entre nós e os outros. Esta foi uma longa viagem absorvente que nos obrigou a pôr em causa muito daquilo que para nós já tinha sido uma iluminação, uma certeza. Porém, isso só reforça a convicção de que aprendemos desaprendendo e desobedecendo. Como na construção do conhecimento, o nosso desenvolvimento não pode ser aditivo, mas requer rupturas. O mandamento inscrito no pórtico de Delfos que Sócrates levou a sério: «Conhece-te a ti próprio», passa muito pela indagação dos caminhos que a humanidade percorreu até hoje.  

“Como é que ficamos presos? Como é que acabamos de um único modo? Como é que perdemos aquela consciência política, outrora tão típica da nossa espécie? Como é que passamos a tratar a iminência e a sua subserviência não como expediente temporários, ou até com a bomba e circunstâncias de uma espécie de grandioso teatro do jornal, mas como elemento da condição humana? Se começamos apenas a jogar jogos, em que ponto nos esquecemos de que estávamos a jogar? “ Página 142

“… a nossa questão inicial: o verdadeiro enigma não é quando terão os chefes, ou até os réis e as rainhas, surgido pela primeira vez, mas quando terá deixado de ser possível ridicularizá-los.” Pg 161

"Ao olharmos de novo para trás, história, é impossível sabermos ao certo que forma de propriedade ou titularidade existiram em lugares como SG, Overtime põe-te, já nem Mariana ou estudante, do mesmo modo que não podemos garantir que os objetos de aviões dos preços do paleolítico Superior eram as suas respostas pessoais. O que podemos agora sugerir, a luz destas considerações mais abrangentes, é que tens teatros de rituais cuidadosamente cordados, muitas vezes estruturados, com precisão geométrica, eram os lugares típicos onde as reivindicações exclusivo dos direitos sobre propriedade-rigorosa as exigências de obediência incontestada Essen seriam feitas, no seio de povos que, nas restantes dimensões, eram euros. Eram livres. se a propriedade privada teve origem, esta é também um dia uma ideia do sagrado, a qual, por sua vez, é provavelmente antiga ou a própria humanidade. A questão pertinente colocar não é tanto quando tal terá acontecido, mas mais como acabou por organizar tantos outros aspetos da vida humana. 194

 

A Torre de Babel e o altar inominado

Avatar do autor julmar, 26.01.23

Torre de Babel - Brughel 
“Vinde! Construamos uma cidade e uma torre cujo ápice penetre nos céus! Dessa forma, nosso nome será honrado por todos e jamais seremos dispersos pela face da terra!” (Gênesis 11:4).
Na humanidade a mania das grandezas vem, por fonte escrita, desde os tempos bíblicos e em Portugal, talvez devido à sua pequenez, é agravada usando qualquer pretexto para bater records da maior feijoada ou da mais alta árvore de natal. Deus, que pelos vistos, não gostava muitos de concentrações populacionais, confundiu-lhes as líguas para que se espalhassem pela terra, destruindo-lhes a torre para qual não haviam solicitado licença.
Passando ao Novo Testamento, com a vinda de Cristo à Terra, o filho de Deus torna-se o mais simples e humilde dos homens capaz de se enfurecer com os vendilhões do templo, derrubando-lhes as bancas do negócio.  
E, para quem viu o primeiro dia em que a notícia do inonimado altar, a única coisa que se ouviu, desde os políticos ao  comentador-mor e aos comentadores efetivos e avençados , foi acerca do negócio. Sendo Francisco ele próprio, simples e humilde, como o seu senhor que na terra representa, não me admiraria, não fosse a sua debilitação física, que repetisse o gesto do seu senhor. Esta gente empreendedora do negócio não tem, tal como os vendilhões qualquer cultura que vá além dos cifrões. Talvez lhes fizesse bem algumas leituras (por exemplo, O Sagrado e o Profano, a essência das religiões,  Mircea Eliade), porque é duma celebração religiosa que se trata. 
Fazem disto uma comédia triste a gozar com quem tem fé. Porque os outros que nunca a tiveram se acham mais ajuizados e os que a perderam se acham justificados.
Que tem aquele espaço, escolhido para o inonimado altar,  que o possa tornar, de um momento para o outro, num lugar de epifania do sagrado? Então, faltam santuários em Portugal? Então, não têm Fátima? Não têm o Sameiro? Então, para se reunirem ‘no amor de Cristo ‘ têm de construir uma mesa especial? 
O rebanho é grande? Que vão para a praia da Figueira da Foz, ou para um montado no Alentejo que o sagrado se revela mais na natura de sobreiros ( ou talvez da azinheira) que na urbe, num altar rochoso de granito que num traste de betão. 
Nem me passa pela cabeça ir lá, nem espreitarei pela televisão que durante esse tempo (antes, durante e depois) estará fechada. Não gosto da multidão, a turba onde o indivíduo se dilui, onde a razão se turva, onde a comoção cresce até às lágrimas ou, consoante, o amor ou o ódio chegam aos extremos. Para saber como é, não precisam de ler William Reich - Psicologa de Massas do Fascismo, nem ler sobre rituais festivos dos povos ditos primitivos ( tão próximos e distantes deles!), nem saber das orgias dionisíacas porque Hitler, Estaline e Mao estão ali, atrás de nós, e Trump e Bolsonaro ao nosso lado; à frente, não sabemos quem estará mas os sinais são preocupantes. E quem como eu nã gosta de multidões não esta livre de por elas ser arrastado.
Não há multidões boas ou más: há indivíduos transformados em massa com as propriedades que a tornam assim: massa. E, além dos conceitos científicos de massa, há os práticos: uns que a sabem fazer crescer, outros que a sabem desviar, outros que a sabem arrecadar e outros gastar. Alguns também sabem que a fé pode ser o fermento. Outros, ainda, sabem que o rebanho se enfurece primeiro, se acalma depois e a seguir, embasbacado, bate palmas.

Liberalismo

Avatar do autor julmar, 02.01.23

Liberalismo e Seus Descontentes

Esta foi a minha última leitura do ano 2022. Retornei, assim, ao autor de uma obra que  me marcou "O Fim da História e o último homem". A presente é uma pequena obra quando comparada com aquela mas cuja leitura nos ajuda muito a compreender as mudanças ocorridas ultimamente e nos trazem a este tempo conturbado, se é que há tempo que o não seja. A questão é que desde a fundação do liberalismo associado ao movimento iluminista, a humanidade, ou parte dela, com passos muito significativos para uma sociedade laica, mais justa e mais próspera, mais livre e democrática se encontra cada vez mais ameaçada, por regimes autocráticos e teocráticos e por o próprio liberalismo, desviado dos seu fundamentos ter desembocado no neoliberalismo.
 
"O problema do neoliberalismo económico não foi, então, o ter partido de falsas premissas. A suas premissas eram muitas vezes acertadas, mas estavam incompletas e condicionadas historicamente. O defeito da doutrina era o de levar essas premissas ao extremo de santificar os direitos de propriedade e bem-estar do consumidor enquanto diabolizava todos os aspetos da atuação do Estado e da solidariedade social."
 
Assim, se torna mau o que era bom.
 
 

 

Os livros

Avatar do autor julmar, 01.01.23

Os 50 melhores livros da história da literatura - Revista Bula

E se lhe lhe perguntassem qual é o objeto/ ferramenta/instrumento/máquina artefato que usou mais tempo no ano que agora termina? Talvez o volante de um veículo, um instrumento musical, um telemóvel, um computador, o fogão da cozinha, instrumentos de escrita, um pincel, um martelo, uma vassoura, um outro qualquer que a lista é longa. Claro, usou vários para desempenhar a sua atividade, profissional ou não, mas qual usou durante mais tempo? 

1- Um dia na vida de Ivan Denissovitch - Solijestin, Aleksander
2- As Fronteiras do Conhecimento - Grayling, A.C.
3- Estaline e Hitler - Rees, Laurence
4- Bíblia Sagrada- Religião para ateus - Botton, Alan de
5 - Autos de fé - A arte de destruir livros - Onfray, Michel
6- Vidas Seguintes -Gurnah, Abdulrazak 
7- The School of the life - Educaçáo emocional, Botton, Alan de
8- Breviário de Decomposição- Cioran, Emil
9 - Esta Vida, Fé secular e liberdade espiritual - Hagglund, Martin
10- Baiôa sem data para morrer- Couceiro, Rui
11 - Mapas do Sentido -  Peterson, Jordan
12- Vila Medieval  - Prista, Marta Lalanda
13 - A tirania do mérito- Sandel, Michael
14 - No Seminário Maior - Martins, Joaquim Tenreira
15- Viagem por África - Therroux, Paul
16- Teoria da Viagem - Onfray, Michel
17 - Breviário Mediterrânico -  Matmejevithc, Predrag
18 - A Torre dos segredos - Wilson-Lee, Edward

19 - Volfrâmio, suor o deu, miséria o levou  - Bastos, Alberto

20 - A Diáspora Cambrense, Bastos, Alberto

21 - O guia completo sobre absolutamente TUDO - Rutherford, Adam e Fry, Hannah

22 - Liberalismo e os seus descontentes - Fukuyama, Francis

23 - D. Zézinha: A vida singular de uma professora - Ribeiro, Altina

Andar passo a passo , medir o que é mensurável

Avatar do autor julmar, 01.01.23

22.jpg

Ano 2022

2016 (9), 2017 (10,1), 2018 (10), 2019 (11,5 ), 2020 (6,7), 2021 (8,5) e 2022 (8,7)

Guiado por um espírito científico aprecio os fatos e de praticar medidas, medir o que é mensurável. Uma aplicação no telemóvel fá-lo automaticamente. Mais difícil é levantar-se todos os dias antes do nascer do sol, independentemente do estado do tempo ou de outras circunstâncias. Sete anos ininterruptos de humildade, perseverança, coragem ... e da sorte que não depende de nós.

As marcas do tempo

Avatar do autor julmar, 23.12.22

Podence.jpeg 

(Casa em Podence)

Quem pode ficar indiferente a uma casa assim? Abandonada, certamente, há muito tempo, ocultando segredos, guardando histórias de vida, de olhar vazio para a rua, de porta cerrada que há muito deixou de abrir. A parede rota em baixo mostrando o cavername xistoso, a pintura das madeiras em degradé desmaiado pela ação solar, os quadradinhos de vidro, a janela de guilhotina, inteirinhos, salvo o inferior da banda de cima à esquerda que a pedra solta de um garoto, há muitos anos, partiu. E a moldura da janela encolhendo os ombros, indiferente ao incómodo de mim, a aguardar os caretos do próximo entrudo chocalheiro.

Um elogio à douta ignorância

Avatar do autor julmar, 21.12.22

Ao olhar para o título do livro haveria boas razões para não o ler, pois, se alguma coisa aprendemos ao aprender é a descoberta de novos horizontes que nem sequer suspeitávamos. Quanto mais conhecemos mais descobrimos a dimennsão da nossa ignorância. O livro é tudo menos um manual. Mas, pronto, os autores, dois cientistas com nobre missão de divulgar a ciência, são divertidos e, deste modo, nos conduzem a um conhecimento que não se encerra em manuais mesmo que sejam sebentas universitárias. Pessoalmente, sinto sempre desânimo e desconforto quando deixo a física aristotélica ou a física clássica, ou a geometria euclidiana. E, não fossem resultados técnicos que nos proporcionam energia, velocidade, conforto, resolução de problemas extraordinários e poderia dizer que o mundo atómico e as teorias da relatividade, a física quântica e o princípio de incerteza não passariam de lucubrações de mentes loucas. 

O que nos mostra esta novíssima ciência é que nós não conhecemos a realidade, coisa que o filósofo Kant (1724-1804) já nos havia ensinado com o conceito de nómeno (a realidade em si) e o fenómeno (a realidade apreendida por nós). Porém, esta novíssima ciência (pos-neutoniana) consegue fazê-lo de forma experimental e matemática e de uma forma tal que nós e o mundo que nos rodeia deixa de ser apenas um produto de uma longa evolução de milhões de anos .  

O que a ciência nos ensina é não perdermos a cabeça, é não embandeirarmos em arco, é prender-nos aos factos, é contentarmo-nos com aproximações, é saber quão sujeitos estamos ao erro, é sabermos que temos sempre de corrigir, é saber que as avarias fazem parte da viagem, é tomar consciência da nossa pequenez e do milagre (é um modo de dizer, pouco científico) de nos darmos conta de tudo isto. Este foi até hoje o caminho que valeu a pena percorrer: o caminho da douta ignorância. 

"Os nossos olhos ilustram comprovadamente o facto de que a nossa experiência é uma versão altamente editada da realidade. A evolução descobri uma forma de captarmos, processarmos e interpretarmos pacotes básicos de luz nas negras cavidades do nosso crânio. A nossa mente adapta-se às muitas limitações da anatomia para garantir o seu funcionamento -velocidade de fotogramas, ponto cegos, cones defeituosos, visão periférica a preto-e-branco ponto. Nem sequer reparamos nos limites dos nossos olhos, quando construímos a nossa visão subjetiva do mundo, dentro da nossa cabeça. Como todas as criaturas à face da terra, o nosso corpo está cuidadosamente afinado para garantir a continuação da nossa sobrevivência. Mas seria inútil desperdício de ego julgar que ele nos torna capazes de vivenciar a realidade como ela é. Cada um de nós está trancado dentro do seu próprio umwelt (meio), profundamente limitada pelos sentidos, condicionado pela nossa biologia, agrilhoado pelas correntes inescapáveis da nossa história evolutiva. Estamos irremediavelmente presos àquilo que conseguimos descobrir enquanto estamos encalhados neste planeta. Abrirás a abrir parênteses?  (ou perto dele, talvez), como um grão de poeira na vastidão do cosmos. Vemos apenas uma mísera fresta da realidade. Estamos a espreitar para o universo, pelo buraco de uma fechadura."

Camões e Damião, dois viajantes

Avatar do autor julmar, 05.12.22

Continuando com a literatura de viagens neste livro feito de prosa limpa sobre o período áureo da história de Portugal. E, finalmente, a descoberta, para mim, de um conto diferente daquele que aprendemos quando estudantes.

Quanto ao resto, aquilo que eu gostaria de dizer não o conseguiria melhor do que  se encontra na contracapa. Coloquei a negrito o último parágrafo.

E acrescento pequenos extratos da obra que nos falam também da face negra do mesmo período: o tráfico de escravos, a censura, a perseguição aos judeus, a Santíssima Inquisição.

"Estamos em 30 de janeiro de 1574 e Damião de Góis, o arquivista do rei português, está morto - queimado, estrangulado ou afogado. O papel que estava na sua mão pode ser de qualquer canto do império português. Mas o que quer que contenha é provavelmente uma mentira.
Damião de Góis - admirador da cultura etíope, colecionador de arte, historiador e compositor - viveu uma vida extraordinária antes de se encerrar na Torre do Tombo, o primeiro grande arquivo nacional da Europa, instalado numa torre do castelo de São Jorge. E foi aí que as aventuras realmente começaram...
Ao lado da história de Damião de Góis está a história de outro português: Luís de Camões. Considerado por muitos um desordeiro e um falido inveterado, tornou-se, como sabemos, o poeta nacional, publicando o seu épico relato do encontro com a Índia no mesmo ano em que Góis foi condenado pela Inquisição.
As histórias de Damião de Góis e Luís de Camões captam as extraordinárias maravilhas que aguardavam os europeus à sua chegada à Índia e à China, os desafios que estas maravilhas traziam às crenças de longa data, e a vasta conspiração para silenciar as questões colocadas sobre a natureza da história e da vida humana.
Este livro é um mistério de assassinato, o relato de um julgamento inquisitorial, uma história das viagens portuguesas para o Oriente; um catálogo das ideias de Damião de Góis e um conto picaresco das fugas de Camões; um passeio por regiões do mundo moderno que raramente encontramos - o Círculo Polar Ártico, os montes Urais, Madagáscar, o Planalto do Decão.
Mas também é uma história sobre como - e por que razões - as culturas se afastaram da fantástica diversidade do mundo em direção a narrativas monolíticas de caráter nacional, de pureza religiosa e de destino histórico: por que motivo escolheram Camões em vez de Góis?"
 
“ Muitos anos mais tarde, depois de regressar a Portugal, Damião veria uma preocupante lembrança destes dias estouvados na forma de um papel pregado na porta de todas as igrejas de Lisboa: um catálogo de livros proibidos que eram como que uma lista de nomes dos encontros de Damião. Incluídos todos os livros de Lutero e de Melankton, é claro, a maior parte dos de Bucer, além de obras de Munster e de Hélio; também a peça de Gil Vicente Jubileus de Amores que foram um êxito tremendo em Bruxelas. A maior parte da letra D era ocupada por obras de Desidério Erasmo de Roterdão, e para garantir que não se contornava a ordem de entrega daqueles livros afim de serem queimados, havia também uma interdição geral contra todos os livros sem título, ou sem o nome do impressor ou sem autor expresso.
Portugal foi o primeiro país a emitir o índice de livros proibidos, sinistro monumento ao poder da leitura na forma de uma biblioteca dos condenados, que procurava excluir do mundo determinados volumes. O exemplo português seria seguido por outros países, e por fim pelo próprio Vaticano, até grande parte da Europa estar sujeita a tais restrições. Já não era uma questão de se saber se as ações ou palavras de uma pessoa estavam conformes ao que se considerava aceitável; a proibição de livros pretendia nada mais nada menos do que a regulamentação dos lugares silenciosos das pessoas, procurando tornarem visíveis determinadas formas de ver o mundo e tornar impensáveis determinados pensamentos. Estas listas ameaçavam embotar a intensidade da palavra escrita como instrumento de pensamento: se não me é permitido discutir simplesmente com pessoas educadas, refletia um contemporâneo, então não sei para que aprendi a ler. Mas a elaboração destas listas exibia também a natureza frágil da ortodoxia, cujas ilusões coletivas podiam ver-se estilhaçadas por demasiadas pessoas a fazerem as perguntas erradas. Com enorme ironia, estes índices criaram também uma das mais cativantes bibliotecas alguma vez concebidas, uma sala trancada ou arca selada repleta de todos os pensamentos que não era para se pensar, e não demorou muito até a inclusão na lista já não ser uma marca de notoriedade mas sim um emblema de orgulho. Entre os primeiros precedentes do índice português, e talvez entre os primeiros livros sujeitos a proibição de impressão ou importação, estava a tradução de Damião do Eclesiastes e o seu tratado sobre os costumes do povo etíope. Página 204
(...)
Mas os homicídios podem também dar-nos de rompante os contornos concedidos de uma época: a que ponto a vítima representava uma ameaça para o modo de viver no mundo para não poder continuar a respirar livremente nesse mundo. Talvez importe menos resolver um homicídio do que o que se testemunhou ao longo do percurso, o que pouco menos é do que uma conspiração para esconder o mundo. 
Fazendo eco do grande escritor português Fernando Pessoa, chegamos a Lisboa, mas não a uma conclusão. Apesar da cultura europeia dominante ter optado, ao longo de centenas de anos, pela visão monolítica e eurocêntrica de Camões em detrimento da visão infinita e poli fónica da história de Damião de Góis, reações de abertura e inquiridoras de algumas pessoas inícios do século XVI perante novos encontros culturais não se perderam por completo. Por volta da mesma altura em que Damião era preso pela Inquisição, outro intelectual excêntrico confinados numa torre cheia de papéis e livros depois de virar as costas ao mundo exterior assolado pela guerra determinado por via do pensamento quaisquer ilusões pessoais que emboscassem dentro dele este homem Michael, Michael de montanha viria a dizer de modo muito mais explícito nos e nos seus ensaios que ficou sempre implícito no trabalho de mim de Damião o encontro: o encontro com a cultura de todo o Globo que tinham ideias tão diferente sobre tantos aspetos da da vida, desde comer e jejuar, passando pela roupa, pelo tempo, pela astronomia, pelo sexo e pelo gênero, sugeria que não havia nada de inevitável, necessário ou inerentemente melhor e muitas ideias e crenças europeias. Em vez disso era apenas a perspetiva de 11 olhada fazia parecer que esta era a única maneira natural de fazer as coisas, perspetiva reforçada a todo momento para outros aspetos da Cultura, desde as maneiras à mesa e os códigos de vestuário até aos estilos de construção e outras coisas. Na verdade, ontem iria ainda mais longe do que isso, expandindo a sua demolição do Eurocentrismo é um assalto total as presunções de antropocentrismo. A sua análise levou a concluir que as mesmas práticas que nos levaram erroneamente é acreditar na nossa superioridade cultural tinham também construído uma falsa noção da nossa diferença quanto os outros animais. Não estamos nem acima nem abaixo das outras coisas, escreveu ele: a diferenças, a ordem os graus; mas é tudo subordinado a mesma natureza. Apesar de ter lido muitos livros durante os 10 anos em que sincero na sua biblioteca na Torre, uma das suas mais profundos influências, e das maiores fontes de informação sobre outras culturas, foi um volume de um português chamado Jerónimo Osório da Fonseca, que Montagne elogiou como o maior historiador da época. Ainda que Montaigne não parecesse ter noção disso, De Rebus Emanuelis, de Osório, era simplesmente uma tradução latina quase palavra por palavra da crónica sobre o rei D. Manuel escrita por Damião de Góis. Pág. 277
 
 

Breviário Mediterrânico

Avatar do autor julmar, 27.11.22

“Há viagens depois das quais o nosso olhar deixa de ser o mesmo e outras em que até o nosso passado se transforma. “

 O livro, como a comida ou a bebida, só se sabe provando a que sabe.  Desaprovo a frase feita, tida como irrefutável "A primeira impressão é a que fica". A minha primeira impressão da cerveja, do whisky, do tabaco, da filosofia e de outras coisas que para aqui não são chamadas foi, não digo horrível, mas desagradável, até aprender a gostar. Passa-se o mesmo com os livros. O primeiro livro de que me lembro ter gostado a sério chamava-se "O Mediterrâneo em Chamas". A minha aprendizagem da cultura greco-romana foi favorecida por essa leitura. No meu gosto por literatura de viagens, acrescentado neste ano por excelentes leituras, conta-se o "Breviário Mediterrânico". Não é, propriamente, um livro de leitura fácil: Não é um romance, não é um documentário, não é uma narração histórica, não é uma descrição geográfica, não é um ensaio filosófico, não é poesia, nem música, nem pintura, mas tem um pouco de tudo isso. Provavelmente, não há uma maneira melhor de mostrar a diversidade mediterrânica. Trata do mar, sobretudo do mar, porque tudo se inclina para ele e pelos rios escorrem as águas e, com elas, os homens e as suas vidas. Tudo vai dar ao mar. 

“Os itinerários dos mercados correspondem aos da fé. Onde se separaram estalaram os conflitos. Nos mercados do Mediterrâneo, as vendas são às vezes menos importante que o mercadejar, os negócios deixam-se ultrapassar pela paixão do comércio “.
(...)
O cais, Porto, o molhe e a ponta do navio, a praça pública, o mercado e a venda de peixe, o estaleiro naval, os espaços que roodeiam as fontes ou faróis, que contornam igrejas ou mosteiros, os cemitérios e o próprio Mar torna-se assim, de tempos a tempos, palcos e teatros de ar livre. Lá se representa diversos papéis, insignificantes ou fatais, comédias e dramas, quotidiano e eternos. Os séculos estamos cheios de espectáculos destes.” 88
(...)
A gente do Norte assimila muitas vezes o sul ao Mediterrâneo: Qualquer coisa para ele, mesmo quando permanece apegada à sua terra natal. Mais que a simples necessidade de um sol quente e de uma luz mais viva. Não sei se é permitido qualificar isto de “fé no sul”. É possível uma pessoa, independentemente do lugar onde nasceu e onde vive, tornar-se mediterrânica. A Mediterrâneidade não se herda , adquire-se. É uma distinção, não uma vantagem. Não se trata apenas de história ou de tradições, de geografia ou de raízes de memória ou de crenças: o Mediterrâneo é também um destino. "

Teoria da viagem

Avatar do autor julmar, 14.11.22

Teoria da Viagem

Regresso à conversa com Michel Onfray - uma conversa breve, depois da longa conversa sobre "O declínio do Ocidente". Gosto de geografia, gosto da literatura de viagens. Gosto de todos os filósofos que li, mesmo que não esteja de acordo com as suas posições e gosto de da filosofia de Onfray por, além do exercício da razão, partilhar do mesmo caminho. 

Há teorias sobre (quase) tudo o que importa ao homem e as viagens importam muito. O que faz este opúsculo é um esboço de teoria que poderia ser a introdução para uma teoria mais alargada e que abordasse o homem sobre essa perspetiva de Homo Viator, ou de O Viandante e a sua Sombra , só para enunciar  dois títulos de posições tão diversa como são Gabriel Marcel e Fréderic Nietzsche.

As pessoas que desprezam as teorias, afirmando que o importante é a prática é, por norma, gente cega que se acha iluminada que prefere andar de qualquer maneira mesmo que não saiba para onde vai, ou que pensa que a algum lado há-de ir ter. Gente preguiçosa que, quando muito, aceita uma teoria qualquer. É gente sedentária que não tem alma de viajante.

"Na viagem apenas se descobre o que trazemos connosco. O vazio do viajante traduz a vacuidade da viagem; a sua riqueza produz a excelência (...)
“Não viajamos para nos curarmos, mas para nos adestrar, fortalecer, conhecer e apreender mais profundamente (...)

"Musicar o real impele-o a surgir em modos mais facilmente perpetuados (...)
O mundo resiste, contudo às tentativas de ser traduzido em palavras. O o discurso poético permite, sem dúvida, uma aproximação mais subtil, e também mais volátil. Quanto mais imagens e sinestesias, mais o epicentro do real aparece, mas também mais frágil, delicado evanescente se revela. O poema lesse, relesse, medita-se e alcança o éter, provocando incessantemente uma reativação da leitura.(…)
A maioria dos filósofos ignora a geografia.
A história permite pensar a política, mas a escrita da terra-segundo termo grego-não obrém nenhum voto e parece aparentemente inútil à primeira vista. Os dois mundos podem, contudo, comunicar, criando assim uma política de um tipo pré- socrático ou bachelardiano: para isso basta recorrer a uma retórica dos elementos, a uma metafísica da terra e do fogo, a uma ontologia do ar e do éter, a uma lógica das matérias e dos fluxos, numa palavra, a uma estética. A etimologia revela o parentesco da palavra e da faculdade de sentir ou de aprender o sensível. Uma poética de geografia gera uma estética materialista e dinâmica, uma filosofia das forças e dos fluxos, formas e movimentos. (…)
Gosto de ver, quando espreita pelas vigias dos aviões, a geografia encarnada, compreender movimentos que, graças aos coremas de Roger Brunet, se tornam de súbito inteligíveis. Cidades, aglomerados de aldeias, estradas de montanha, geografias caprichosas , a claridade diurna espalhada pelos vales, a sombra nas vertentes das montanhas, a luz nas encostas, as linhas de caminho de ferro, o recortes dos campos, gosto do amarelo da colza, do verde do trigo ainda viçoso, do violeta ou da malva da lavanda, gosto das margens recortadas, das costas do litoral, decorrentes do jogos de cores refletidos no mar, de redes hidrográficas, lagos, riachos, açudes, pântanos transformados pelo sol em intensos espelhos, gosto de ver passar os automóveis, pequenos traços lentos nas estradas, desaparecer os comboios, ao longo de serpentes ondulantes, deslizar as barcaças, pesadas e lentas, ou caminhar os humanos, fúteis e essenciais.
Toda esta diversidade vista do céu resume-se a uma sábia arte combinatória que revela uma verdadeira decifração do mundo, mantendo uma autêntica leitura do real geográfico. O que é afinal a geografia coremática? Um alfabeto de signos, de coremas, capazes de revelar todas as organizações espaciais legíveis nas paisagens. O contemplar indolente debruçado sobre a terra pode, pela vigia, e com ajuda destas categorias da razão pura geográfica, ler, decifrar, compreender, operar inteligentemente através da visão. Do real sensível às categorias inteligíveis o próprio viajante leva a cabo o processo dedutivo, ativa a processão, como seguiria em termos Plotinianos.
Se o viajante e o contemplador se recordar em que a palavra de venda arte de colocar em pespectiva instâncias que, a priori, não possui nenhuma relação entre elas, alcançam o verdadeiro júbilo da inteligência. Uma floresta e uma área, um caminho e uma linha, uma aldeia e 1., uma paisagem e uma rede-porque., linha, área e rede oferecem as quatro entrada que devem ser colocadas em perspetiva com a sete colunas que representam as estruturas elementares do espaço: rede, quadrícula, gravitação, contacto, tropismo, dinâmica territorial, e que era de tia hierarquia. Com ajuda das quatro referências em erro Cisse e dezassete coordenadas obtemos vinte e oito figuras cardeais que nos permitiram decifrar o mundo. Embalados pelo ruído no avião que vem a dança a 1000 m de altitude, podemos então entreter-nos a procurar, e a encontrar, áreas de contacto, canteiros urbanos, cerca de rede, podemos observar disse simetrias em evolução, discernir gráficos, apurar ligações preferenciais, assinalar roturas, distinguir inter faces, seguir linhas de partida de partilha, surpreender redes de estações, caixas de propagação e áreas de extensão, pontos consecutivos e superfícies de tendência a diversidade do Real concreto simplifica-se graças a grelha de leitura muito útilA descodificação daquilo que constitui a paisagem e a natureza. Já no solo, de regresso a terra, habitamos estas figuras transfiguradas depois de surpreendêramos a sua coerência vista do céu. Como  vemo-nos de forma diferente perante um lugar que vislumbrámos previamente do avião, de forma global-Uma palavra que reduzem dúvida esta operação intelectual a forma de um globo, de uma espera esfera perfeita como uma mónada de live nisso. Atravessar os campos de força, passar a linha invisível de um interface Continental, transpor um arco, o mesmo estar diante de uma banana azul, exalo que nos faz pensar meditar sonhar."