Segunda-feira, 9 de Dezembro de 2019

Livros proibidos

A Arte de Não Acreditar em Nada e Livro dos Três Impostores | Antígona

Os livros sempre constituíram um perigo e, por isso, eram de acesso reservado. A forma mais eficaz de o conseguir era impedir as pessoas de aprender a ler. Ou, então, escrevê-los numa língua não popular. Com Lutero, o aparecimento do protestantismo (que preonizava a leitura dos livros sagrados na língua materna) e com a descoberta da imprensa, a Igreja Católica estabeleceu , através do Index, o que não se podia ler. Quanto aos livros sagrados - a Bíblia - continuariam em latim até ao Concílio Vaticano II. E recordo o embaraço do velho pároco Inácio Faria que a primeira vez em que celebrava a missa segundo os normativos do referido concílio, calhou de ser uma leitura de S. Paulo aos Gálatas, 4:22 - 31 : 

 "Diz lá que Abraão teve dois filhos: um da escrava e outro de sua mulher que era livre."

O padre, apanhado de surpresa: - Porra, porra, meu povo! Vamos lá regressar ao antigo. Voltou as costas ao povo e leu em latim.

"Embora interesse a todos os homens conhecer a verdade, são muito poucos os que gozam desse privilégio. Uns são incapazes de a procurar por si próprios, outros não querem fazer esse esforço. Não devemos por isso espantar-nos com o facto de o mundo estar cheio de opiniões vãs é ridículas; nada as faz correr melhor do que a ignorância, aí reside a única fonte de falsas ideias que temos da divindade, da alma, dos espíritos e de quase todos os Outros temas que constituem a religião. O uso prevaleceu, contentamo-nos com os preconceitos que vêm desde o nosso nascimento e entregamos as coisas mais essenciais a pessoas interesseiras que têm como lei sustentar teimosamente as opiniões recebidas e não ousam destruí-las com medo de se destruírem a si próprias"

 

publicado por julmar às 18:30
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Quinta-feira, 5 de Dezembro de 2019

Vale dos Reis, Luxor

egipto 074.jpg

Afinal é mesmo possível encontrarmo-nos connosco passados dez anos. Estava sentado e sentado ficou como se tudo fosse normal. Que tinha vindo ao Egito, que estava ali em Luxor embasbacado com a grandeza de tal civilização e, que Nilo abaixo ia até à sua foz. E eu lhe disse que, em  sentido contrário, ia Nilo acima até onde fosse a sua nascente. E como vais? Vou a pé, passo a passo. És maluco? Tanto comos reis que estão sepultados neste vale, o Vale dos Reis. Quando nos encontraremos? Talvez daqui a dez anos na casa da Vila. 

 

publicado por julmar às 11:10
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Segunda-feira, 2 de Dezembro de 2019

A ribeira de ontem e a ribeira de hoje

ribeira.png

Há 30/40 anos era assim

A ribeira de hoe2.jpg

Este ano é assim, e a mim incomoda-me que assim seja.

 

publicado por julmar às 18:22
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Sábado, 30 de Novembro de 2019

Andar passo a passo, com paragem obrigatória

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Não há ventos que não pretem
Nem marés que não convenham
Nem forças que me molestem
Poderes que me detenham
Há muitos anos, tomei de empréstimo de António Gedeão, meu querido mestre, para meu lema de vida, esta estrofe do seu poema, "Fala do homem nascido". E dou-lhe cumprimento cada dia. Dia 11, como se vê no gráfico, não aconteceu. Afinal, os buracos existem, o não ser espreita-nos permanentemente.

publicado por julmar às 19:04
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Terça-feira, 19 de Novembro de 2019

Na margem do Nilo

egipto 172.jpg

Será possível encontrarmo-nos connosco? Pois é. Passados 10 anos, venho encontrar-me na margem do Nilo com este turista de t-shirt azul, óculos de sol e máquina fotográfica a tiracolo que ficou surpreso por me encontrar, atirou-me que estava mais velho. Perguntou-me para onde ia e eu que ia ao encontro da nascente do Nilo e ele que ia até à foz do Nilo. Em sentido oposto, ele turista de cruzeiro, eu pedantibus.

Pergunta-me quando  voltaremos a encontrar-nos. Talvez daqui a 10 anos na nossa casa da vila, respondi-lhe. 

publicado por julmar às 18:21
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Segunda-feira, 18 de Novembro de 2019

A reta é a mais curta distância para a morte

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Nos bancos da escola aprendi que a linha reta é um conjunto infinito de pontos e que um segmento de reta é a mais curta distância entre dois pontos. Aprendi mais tarde que este era um dos postulados da Geometria de Euclides (viveu cerca de 300 anos a. C., em Alexandria), considerado o pai da Geometria que tal como a  Física de Aristóteles, é tão bela, tão falsa e tão útil no nosso quotidiano. Haveriam de surgir outras geometrias, no século XIX, - entre elas a geometia hiperbólica (Lobachevsky) e a geometria elíptica (Riemann) - de mais difícil entendimento por se encontrarem ausentes do mundo como naturalmente o vemos.

Ainda que o quisesse, nas minhas caminhadas não poderia caminhar em reta. Quando caminho da cidade do Cairo à cidade de Luxor, o meu calculador de distâncias dá-me sempre dois valores: Distância 504,29 km; Rota - 642,62km. Em rigor, se quisesse caminhar em linha reta de uma cidade à outra, teria de entrar pela terra dentro como uma toupeira, dado que, como hoje sabemos a terra é esférica - que os terraplanistas, cujo número dizem  estar a crescer consideravelmente, me perdoem. 

Quem na vida anda sempre na mesma direção, deverá aprender menos, viver menos do que aquele que não dá carreira direita, que se engana, que vai por aqui e por ali, que vai para a frente e volta para trás, que se perde. Talvez que a linha que une o nascimento à morte não sela uma reta mas um emaranhado de linhas curvas. Desde a infância em que rodava o arco  que prefiro as curvas.Image result for brinquedos antigos o arco

 

publicado por julmar às 17:40
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Ora, descubra lá a(s) diferença(s)

Fotografia de 2009

Placas.jpg

Fotografia de 2019

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Sexta-feira, 15 de Novembro de 2019

Põe-te em movimento, anda! Abençoado seja todo aquele que caminha.

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Sabendo que ia ter uns dias em que, por força maior, iria estar impedido de andar, passei pela FNAC (tenho muita saudade das velhas livrarias do Porto, mas os tempos são outros) e procurei um livro que, de outra forma, me transportasse para outros lugares. A escolha foi rápida: A imagem da capa, o título - sim, o título -, a autora, prémio nobel a literatura. 

Comecei  a ler e não é uma leitura fácil. Não são, propriamente contos e também não é um romance. É à medida que vamos lendo que nos deparamos com um puzlle e que nos compete a nós construí-lo. Para isso, temos de encontrar a cola que une as peças que encontramos no título original: BIEGUNI, que a tradutora em nota de rodapé explicita "Designa uma seita de antigos crentes ortododoxos que tratavam o movimento de maneira sagrada. Estar em constante movimento e atravessar fronteiras significava para eles não se apegar a nada e tentar fugir do mal que tenta privar-nos da liberdade". 

É também um retrato e uma crítica à nossa sociedade tão veloz e tão estática 

"Aquele que parar ficará petrificado; aquele que se detivera por um instante será alfinetado como o inseto, o seu coração será teres passado por uma agulha de madeira, as suas mãos e pés serão furados e pregados as ombreiras das portas.
Foi assim que morreu aquele que usou revoltar-se. Foi capturado e o seu corpo pregado na cruz, imobilizado como o de um inseto, para ser visto por olhos humanos e inumanos, mas principalmente por inumanos - os que mais se de leitam com estas cenas. Por isso, não é de estranhar que a reconstruam todos os anos e a celebrem, rezando a um corpo morto. E é também por isso que os tiranos de todas as espécies são servos infernais que transportam no sangue o ódio de morte aos povos nómadas. Daí as perseguições a judeus e ciganos. Daí que os homens livres sejam forçados a estabelecer-se e, depois marcados com uma morada que para nós é uma sentença. O que eles pretendem é estabelecer uma ordem sólida e tornar a passagem do tempo aparente, de modo a que os dias se tornem repetitivos e não se distingam uns dos outros. Querem construir uma grande máquina, na qual cada criatura terá de ocupar um determinado lugar executar movimentos, também eles aparentes - as instituições e os gabinetes, os carimbos e as circulares, a hierarquia e os cargos, as patentes, os requerimentos e os indiferimentos, os passaportes, os números, os cartões, resultados das eleições, as promoções e acumulação de pontos e a troca de umas coisas por outras.

Alfinetar o mundo com a ajuda de códigos de barras, colar um rótulo em todas as coisas para que se saiba que a mercadoria e é aquela e quanto custa. Que esta estranha língua seja incompreensível para as pessoas, que seja apenas lida por máquinas e autómatos e que estas façam recitais da sua poesia em códigos de barras, pela noites dentro, no interior das grandes lojas subterrâneas.

Põe-te em movimento, anda.! Abençoado seja todo aquele que caminha.

publicado por julmar às 18:11
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Domingo, 27 de Outubro de 2019

Por Terras de Penafiel - Escritaria

m alegre.jpg

A poesia também muda o mundo e O Canto e as Armas, também me mudou a mim. O meu tributo ao poeta e ao homem.

AS MÃOS

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar.Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisastransformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

Manuel Alegre, O Canto e as Armas,1967

 

 

publicado por julmar às 17:33
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Até ao Cairo, passo a passo

egipto 294.jpg

É preciso chegar à África, chegar ao Egito, chegar ao Cairo para saber da grandeza das coisas Co mo foi possível ao homem construir estas pirâmides? Como todas as coisas grandes: pedra a pedra com um rio de suor da multidão imensa de escravos. Aqui pequeno, apenas eu ao constatar assombrado as pirâmides que, criança,via nos livros de História. E até o imenso deserto é feito areia a areia.

publicado por julmar às 10:17
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Terça-feira, 22 de Outubro de 2019

Andar, passo a passo:Partida de Alexandria

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Biblioteca de Alexandria

Dia 28 de setembro de 2019, 6 horas. Partida de Alexandria, essa antiquíssima cidade, a cujo porto afluíam negociantes, filósofos, artistas, sacerdotes, matemáticos, conquistadores como se o seu farol - uma das sete maravilhas do mundo -  fosse o poderoso íman que a todos atraía. Era, à época, a maior cidade, o maior porto e com a maior biblioteca. Foi esta enorme cidade, fundada pelo maior conquistador da História, Alexandre o Grande que eu na minha pequenez, adorador do deus das pequenas coisas, tomei como ponto de partida para, passo a passo, calcorrear o imenso continente africano. Primeira etapa: Alexandria - Cairo

publicado por julmar às 20:50
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Segunda-feira, 21 de Outubro de 2019

A memória de um poeta do Sabugal

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Junto à água

Os homens temem as longas viagens,
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.
Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às veredas da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.

Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!

E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos

e sem escuridão, sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia.

Manuel António Pina, In Um sítio para pousar a cabeça

publicado por julmar às 10:20
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Domingo, 20 de Outubro de 2019

Andar passo a passo - Entrevista

a sombra.jpg

P. Começando pelo início, pode dar-nos uma pequena introdução sobre o Júlio e o seu blog (há quanto tempo o criou e com que objectivo, etc)?

R. Nasci a 1 de janeiro de 1951, em Vilar Maior, uma aldeia cheia de História e de histórias, que continua, para mim, a ser o centro do mundo. Foi lá que aprendi a ser gente. Saí de lá porque a minha mãe achava que eu havia de ter uma vida que me subtraísse à literalidade da maldição bíblica: ganharás o pão com o suor do teu rosto. Por isso, rumei ao Alentejo, primeiro em Beja, depois em Évora e a seguir em Coimbra, num caminho que me deveria ter conduzido ao serviço de Deus e dos homens. Porém, fazia muitas perguntas, perguntas a mais num caminho seguro, certo, único que não suportava dúvidas nem hesitações. Foi, assim, que passei do caminho da fé ao caminho da razão, no exercício da Filosofia, primeiro como estudante e, depois, como professor. Reformado de professor, continuo filósofo livre, sem obediência que não seja a da obrigação honesta da procura do saber e com o ócio que permite ocupar-nos das coisas consideradas inúteis: a arte e a filosofia.

E levei suficientemente a sério o verso de Alberto Caeiro,

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...,

para escrever um livro sobre esse pedaço de terra onde a maldição bíblica se cumpria escrupulosamente: Memórias de Vilar Maior, minha terra minha gente.

Em 2006, iniciei um blog sobre Vilar Maior que completou 13 anos no passado dia 6 de agosto e que constitui ,hoje, um valioso património para os vilarmaiorenses https://vilarmaior1.blogs.sapo.pt/

P - O Júlio foi publicando no seu blog alguns posts onde registava uma caminhada de Portugal à Índia. Para quem não acompanhou, em que consiste essa caminhada?

 R. As pessoas que, como eu, nasceram a seguir à Segunda Guerra Mundial viveram uma época extraordinária que, entre outras realizações , desembocou nas novas tecnologias da informação e da comunicação. Nunca, em tão pouco tempo, a Humanidade mudou tanto. Ferramentas poderosas foram colocadas à nossa disposição, nomeadamente, no ensino e educação - o meu campo profissional. Como diretor de um centro de formação de professores, pude testemunhar a resistência de muitos professores na aprendizagem e uso das novas tecnologias. E foi, na minha atividade de professor, que criei o meu primeiro blog - O (En) canto da Filosofia, que era complementado com um lugar físico - um canto onde se expunham livros e trabalhos. A par desse blog, criei um outro - O Pitagórico - onde postava sobre ciência, filosofia, educação, literatura, política, etc. A seguir, surge o Badameco https://badameco.blogs.sapo.pt/ (nome um pouco depreciativo), inspirado nos Ensaios de M. Montaigne que utilizava um vade mecum (vai comigo), um caderno de apontamentos para registo de ideias e observações. Montaigne havia de gostar de ter um iPhone como o meu e um blog onde postar os seus pensamentos.

Dentro dos objetos da minha vida, o IPhone foi o que teve (e continua a ter) uma importância maior, uma oferta de aniversário que me chegou à mão no dia 15 de Janeiro de 2016. No dia seguinte, fez-me o registo dos kms ( aplicação saúde) da minha caminhada e de todas as caminhadas até ao dia 27 de setembro de 2019 que, de Vila Nova de Gaia me levaram até Katmandu, no Nepal, no sopé dos Himalaias.

P. Pode dizer-se que esta ideia forneceu-lhe a motivação que procurava para caminhar mais? Ou o impulso foi outro?

A ideia de transpor os kms feitos nas minhas caminhadas para um mapa surgiu-me, já com kms andados que davam para ir além Pirinéus. Então, tracei como objetivo chegar a Paris. A seguir, pensei em Napoleão e como ele e as suas tropas chegaram a Moscovo. Aí chegado, não me quis aventurar pela interminável Sibéria, nem sei como encontraria rotas. E decidi que haveria de chegar a Istambul, cidade incrível, onde, efetivamente, já havia estado e que me daria efetivo acesso pedestre ao continente asiático. Foi, então, que coloquei como objetivo atravessar a Índia e chegar a Katmandu, no sopé dos Himalaias, o que aconteceu no dia 27 de setembro de 2019. Não iria tão longe sem o meu iPhone que regista os meus passos; sem o meu Badameco onde anoto os sítios por onde passo e assumo compromissos comigo mesmo e onde dou conta de uma outra viagem dentro de mim, uma viagem mais longa que qualquer outra.

Andar, ler, escrever. Quando acentuamos uma dimensão na nossa vida, as outras começam a ordenar-se, coordenar-se, a subordinar-se a ela constituindo uma rede ou campo semântico. O andar é o que mais mexe connosco: nele se encontra materializado o espaço, o tempo, a aceleração - a física, a matemática, a história, a geografia , enfim, todas as ciências num corpo andante que, bípede , libertou as mãos para fazer, a cabeça para pensar e com os olhos poder contemplar o firmamento.

Precisamos de dar sentido ao que fazemos, porque em si o que fazemos pode não ter sentido nenhum. Levantar-se cedo, quase sempre antes do nascer sol, andar cerca de duas horas, não é para qualquer um. A questão é o que fazemos quando andamos. Andar, ler e escrever são três verbos que faço e que me fazem. São três atividades diacrónicas que nos ensinam que as coisas grandes se fazem de coisas pequenas - uma viagem é feita passo a passo, um texto feito palavra a palavra. Isso ensina-nos a ser humildes, persistentes e corajosos. Sem isso, não chegaria a Katmandu. Da próxima, irei mesmo de verdade, mas não será a mesma coisa.

P. Porquê a Índia? E já foi realmente à Índia?

Todos temos um imaginário da Índia desde que na escola primária ouvimos falar do Infante D. Henrique, das caravelas, de Vasco da Gama, do caminho marítimo para a Índia ( o terrestre já era conhecido) e temos um fascínio pelo Oriente. Porém, o lugar que quis como termo da viagem foi Katmandu. Talvez pela leitura que fiz do livro A Mais Alta Solidão, de João Garcia, onde nos conta a épica subida ao Monte Evereste. Muito do que sou devo-o aos livros e sei que esta minha maneira de andar também tem a ver com outras leituras das quais, de imediato, me surge Auto Retrato de um Escritor Enquanto Corredor de Fundo, de Haruki Murakami

P. Por fim, o que se segue? Até "onde" pretende caminhar a seguir.

R. A próxima está em curso. Sei que é em África, sei que a partida foi de Alexandria (Egipto), sei que a chegada será na Cidade do Cabo (África do Sul). O itinerário será traçado. Distância a percorrer cerca de doze mil quilómetros. Quanto tempo? Não sei.

publicado por julmar às 08:55
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Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019

A CRUZ MUTILADA . Alexandre Herculano

cruz1.jpg

Há textos, poemas do meu tempo de estudante que não mais esqueci. Basta-me olhar uma cruz, de preferência em espaço aberto, para que ele me ocorra à memória

Amo-te, ó cruz, no vértice, firmada
De esplêndidas igrejas;
Amo-te quando à noite, sobre a campa,
Junto ao cipreste alvejas;
Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos,
As preces te rodeiam;
Amo-te quando em préstito festivo
As multidões te hasteiam;
Amo-te erguida no cruzeiro antigo,
No adro do presbitério,
Ou quando o morto, impressa no ataúde,
Guias ao cemitério;
Amo-te, ó cruz, até, quando no vale
Negrejas triste e só,
Núncia do crime, a que deveu a terra
Do assassinado o pó:

Porém quando mais te amo,
Ó cruz do meu Senhor,
É, se te encontro à tarde,
Antes de o Sol se pôr,

Na clareira da serra,
Que o arvoredo assombra,
Quando à luz que fenece
Se estira a tua sombra,

E o dia últimos raios
Com o luar mistura,
E o seu hino da tarde
O pinheiral murmura

publicado por julmar às 18:20
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Mário Cláudio

 

camilo broca.jpg

Já havia lido alguns livros de Mário Cláudio, mas nenhum me soube como este.Há seis ou sete anos foi o autor que me aconselhou a sua leitura, num curso seu sobre Escrita Criativa. Agora entendo porquê.  Um grande escritor!

«Meu mano não se continha e lançava nisto, 'Não há história que eu saiba que não vá desaguar nessa história, e desta rede é que se tece o génio de quem escreve, tentarei narrar amores e mortes sem medida, convocar a este Mundo um milhão de personagens, ensaiar frases, inventar palavras, e coar outras da nascente onde repousam há milénios, e a história que hei-de escrever será sempre a dos grandes Brocas» 

publicado por julmar às 11:51
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Segunda-feira, 14 de Outubro de 2019

Cruz do Arreçaio

Cruz do arreçaio.jpg

A natureza segue o seu curso natural, indiferente às necessidades, desejos, paixões ou opiniões do homem. As árvores não pedem licença para nascer aqui ou ali, em espaço público ou privado, em espaço sagrado ou profano. Nem se incomodam de tirar a vista, ao castelo, à Igreja ou à cruz. No seu crescer lento e contínuo os olhos das gentes vão-se habituando a que assim seja. Mas que a paisagem está diferente, está.

 

publicado por julmar às 12:20
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Quinta-feira, 10 de Outubro de 2019

O colégio de Aldeia da Ponte

colégio.jpg

Curioso da história local, consegui descobrir este livro, recentemente editado, no Intermarché do Sabugal. No Sabugal não há um sítio onde se vendam livros.

Quanto ao volumoso livro de 604 páginas, centra-se nos frades de Aldeia da Ponte( num contexto do fim da monarquia, da proclamação das ideias liberais e da instauração da República) que dão um contributo extraordinário para apropaganda anticlerical na imprensa regional e nacional.   

publicado por julmar às 10:52
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Terça-feira, 8 de Outubro de 2019

Ler Camilo Broca

camilo broca.jpg

Leitura aconselhada há seis anos, chegou a altura de começar.

 

publicado por julmar às 12:03
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Segunda-feira, 30 de Setembro de 2019

Ler página a página: 12 rules for the life

12 regras para.png

Uma leitura morosa e difícil. Morosa porque o meu inglês ainda troeça em muitos termos que me obrigam a recorrer ao 'Tradutor'; difícil porque ao contrário do que o título possa sugerir não se trata de um receituário em que o autor nos dê uma cartilha de como fazer para ter uma vida feliz. Tratando-se de um psicanalista vai convocar os seus três grandes fundadores, Freud, Jung e Adler para a anális das situações problemáticas com que o homem se confronta. Convoca alguns filósofos, sobressaindo F. Nietszche; e também os marxistas e neomarxistas de quem discorda radicalmente, aliás, como do descontrucionista Derrida. À literatura vai buscar, sobretudo dois nomes: Dostoyevski ( Os Irmãos Karamazov) e Alexandre Solzhenitsyn (O Arquipélago do Gulag). Na religião convoca 'O Genesis' com a expulsão do paraíso, o asssinio de Abel às mãos de seu irmão Caim e várias passagens do evangelho de S. Mateus. Todos estes recursos para a construção de uma fenomenologia da condição humana sentida, sofrida na pele das pessoas de corpo e alma que passam pela sua vida, profissional e não só. Mesmo da experiência dolorosa da sua filha. Daí resulta um ponto, algo comum na vida daqueles que à procura da verdade, do sentido da vida, atrvés do exercício da razão que nos ilumina, esbarra na sua própria limitação. Foi assim, com Sócrates, com Pascal, com Kant ... e com o autor como afirma na págia 347:

"Thought, after all, is the highest of human achievement, is it not?

Perhaps not.

Something supersedes thinking, despite is truly awesome power. When existence reveals itself as existentially intolerable, thinking colapses in on itself. In such situations - in the depths - it's noticing, not thinking, that does the trick. Perhaps you might start by noting this: when you love someone, it´s not despite their limitations. It's because of their limitations.

 

Outline of the book:

  1. Stand up straight with your shoulders back
  2. Treat yourself like someone you are responsible for helping
  3. Make friends with people who want the best for you
  4. Compare yourself to who you were yesterday, not to who someone else is today
  5. Do not let your children do anything that makes you dislike them
  6. Set your house in perfect order before you criticize the world
  7. Pursue what is meaningful (not what is expedient)
  8. Tell the truth – or, at least, don't lie
  9. Assume that the person you are listening to might know something you don't
  10. Be precise in your speech
  11. Do not bother children when they are skateboarding
  12. Pet a cat when you encounter one on the street

 

publicado por julmar às 19:11
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Sexta-feira, 27 de Setembro de 2019

Andar, passo a passo: Viagem além da Índia

Kathmandu1.jpg

Chegada a Katmandu

As contas que servem de base aos contos

A viagem começou em 16 de Janeiro  de 2016 e terminou hoje dia 27 de setembro de 2019, perfazendo um total de 1349 dias. Foram percorridos 13621 Km, o equivalente 18813419 passos  (dezoito milhões, oitocentos e treze mil, quatrocentos e dezanove) , num valor aproximado de 2724 horas (aceitando uma velocidade de 5km por hora) a partir de Vila Nova de Gaia. Passei por 16 países: Portugal, Espanha, França, Alemanha, Polónia, Bielorrúsia, Rússia, Ucrânia, Roménia, Bulgária, Turquia, Arménia, Irão, Paquistão, Índia e Nepal. Foram utilizados seis pares de sapatilhas (o último ainda está para andar e durar). As rotas foram calculadas a partir do site: https://pt.distance.to/.

Os registos foram efetuados no iphone, na aplicação 'Saúde',

A média de Kms por dia foi: 2016 - 9km; 2017 - 10,1; 2018 - 10km; 2019 - 11,4 (até hoje)

Número de dias em que não saí para andar: 6, assim distribuídos: 2016 - 2; 2017 - 2; 2018 - 0; 2019 - 2

 

publicado por julmar às 15:59
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