Segunda-feira, 23 de Abril de 2018

Porque hoje é o dia mundial do livro

A Evolução de Deus

Cada livro que começamos a ler é como uma nova viagem que decidimos fazer. Esta adivinha-se longa (633 páginas, qualquer coisa como cerca de 20000 linhas, rondando as 200000 palavras). Porém, dada a minha boa preparação de leitor e o conhecimento do assunto (que sabemos nós de Deus?) não será excessivamente demorada. Uma viagem que não nos altera é uma viagem inútil mas para saber a resposta é preciso empreender a viagem. No fim, saberemos. Boa Viagem

publicado por julmar às 15:45
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Sexta-feira, 6 de Abril de 2018

Lugares da minha vida, de regresso

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De regresso ao velho escritório e o reencontro com memórias especiais: os livros, sobretudo, os livros. Não seria apenas exagero mas seria erro dizer que neles aprendi tudo o que sei. Não são livros decorativos. Todos, um a um corresponderam a um propósito. Cada um tem uma história. A maior parte deles foram lidos de fio a pavio,linha a linha, página a página que de pequeno aprendi que era assim que o meu pai lavrava a Canjeira, a maior tapada da aldeia. Foi aí que comecei a imagianar que, para além do Deus todo poderoso, havia um deus das pequenas coisas. Alguns lidos apenas uma vez, outros sublinhados, anotados, resumidos. Outros, poucos, lidos e relidos. E o livro que li mais vezes: O Discurso do Método, de Renè Descartes: ali está na edição de Livros de Bolso da Europa América com ar de usado, sempre a desafiar-me a uma nova leitura, pequenino e simples como uma história para crianças que elas querem sempre ouvir uma vez mais. Livros de filosofia, principalmente. Os manuais que fui acumulando ao longo dos anos, ofertas das editoras (caixotes e caixotes) seguirão brevemente para a minha escola do Freixieiro. Nunca gostei de manuais escolares. Além dos livros de filosofia, há a literatura: livros sobre literatura e literatura mesmo: romance e poesia. Os de Saramago, todos. E o romance da minha vida: As memórias de Adriano. Como todos os romances lido apenas uma vez. Talvez com medo que percam o encanto. A poesia a de Pessoa, a de Almada Negreiros, a do Torga, a do Camões e um gosto muito especial pela do António Gedeão. Depois há os livros de Psicolgia e Pedagogia por gosto e por dever do ofício. A sociologia, a antropologia, a economia, a política e a história também têm o seu espaço e o seu peso e a biologia e a astronomia também. Alguns livros mais esquisitos como S. Cipriano. Fazer coisas, como contrabalanço do pensar, levou a aquisição e leitura de outro tipo de livros, sendo o mais estranho(?) Como construir um minhocário. Certo é que o construí há cerca de vinte anos e os efeitos benéficos ainda hoje perduram no jardim: cada sachada, minhoca.

Se os livros  ajudam em todos os setores, por que não haveriam de ser úteis na procura fundamental  que todos os seres humanos emprendem? Falamos da felicidade. Foi, assim, que tardiamente, tive tempo para ler sobre o tema e adquiri uma quantidade de livros e me interessei pela PNL e pelo Coaching. E seminarista que fui também há lugar para os livros de religião, de religiões, sobre Deus e o Diabo, sobre os deuses, sobre a virgem e os santos, sobre o céu e o inferno, catecismos vários e sobre a ausência de Deus e vários livros de receitas culinárias e algumas outras.

 O mais do que isto.

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças.

Nem consta que tivesse biblioteca

F. Pessoa

publicado por julmar às 18:39
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Quarta-feira, 28 de Março de 2018

Uma Breve História do Tempo - Stephen Hawking

Resultado da Imagem para uma breve história do tempo pdf

Uma das coisas ( a par da arte) que mais me fascina na vida é a atitude, o espírito, o conhecimento científico, talvez a maior descoberta feita pelo homem. Sobretudo do conhecimento científico que se inaugura na idade moderna com homens como Galileu e Descartes, cientistas/filósofos a quem devo grande parte da minha formação e  que são autores de uma revolução ao nível do conhecimento pela consciência que tomam de que o conhecimento que a humanidade tem do mundo é falso (todo o aristotelismo), que é possível o homem progredir no conhecimento da natureza recorrendo, não à autoridade de Aristóteles ou da Bíblia, mas à luz natural da razão, à observação e ao cálculo matemática. Li Galileu e Descartes e entendi-os com perfeição, continuo a entendê-los. Comecei a ler a " Breve História do tempo" de Stephen Hawking e nas primeiras 100 páginas reli a física clássica. Depois entro na Relatividade Geral e Restrita de Einstein, no Princípio de Incerteza de Heisemberg, na mecânica ondulatória, na física quântica ... e, ainda que o autor, procure tornar acessível estes conhecimentos ao comum dos mortais devo confessar a minha impreparação para entender com perfeição estas matérias. E tenho pena. Apenas fico deslumbrado.

Para os que quiserem tentar, basta ir ao google e fazer baixar o respetivo download da obra (algo simples mas que só se tornou possível devido a esta ciência nova à qual devemos toda a tecnologia recente de que disfrutamos como o vulgar GPS ao dispor de qualquer analfabeto digital).

publicado por julmar às 11:38
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Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018

Saudade das coisa simples

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Se não conseguir juntar a boa vida a uma vida boa escolho sempre a última (é só uma pitada de filosofia!). A confecção de uma e outra não exige especial sabedoria. Já a combinação das duas tem mais que se lhe diga. No caso,  munido de uma tesoura e de um saco, arranjei uma boa companhia para um passeio pelas bordas do Cesarão até à Casa Branca (um lugar onde Deus podia ter criado Adão e Eva, assim o quisesse) onde desembocam as águas vindas das Canadas e em cujas águas correntes colhi as moruges ou merugens (à moda da vila) que limpas de outras ervas e bem lavada temperei com sal grosso, azeite e vinagre. Pão oferecido por um amigo que o fabrica com lenha da Correia, vinho oferecido por um familiar que o tem de seu trato e cuidado, queijo e enchidos do que se pôde arranjar ... bom se isto não é uma vida boa, o que é?

Por curiosidade, achei interessante ter encontrado em Londres, num supermercado, à venda moruges. Diferentes na quantidade, no preço, na cor ... quanto ao sabor não sei.

publicado por julmar às 18:05
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Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018

O tempo parado

casa do muro1.jpg

Durante anos a fio era o senhor Júlio Palos que dava corda ao relógio. Agora já não há quem dê corda ao tempo. Se ao menos o tempo parasse  e ficássemos todos parados com ele  evitaríamos o trágico e inexorável desenlace da vida! Mas não! Tudo anda, tudo se move, tudo muda, tudo passa, tudo corre. Menos o relógio ... e a ribeira.  

 

publicado por julmar às 11:39
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Oh as casas as casas as casas - poema de Ruy Belo



casa do muro6.jpg

(Primeiro esboço)

Oh as casas as casas as casas

as casas nascem vivem e morrem

Enquanto vivas distinguem-se umas das outras

distinguem-se designadamente pelo cheiro

variam até de sala pra sala

As casas que eu fazia em pequeno

onde estarei eu hoje em pequeno?

Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?

Terei eu casa onde reter tudo isto

ou serei sempre somente esta instabilidade?

As casas essas parecem estáveis

mas são tão frágeis as pobres casas

Oh as casas as casas as casas

mudas testemunhas da vida

elas morrem não só ao ser demolidas

Elas morrem com a morte das pessoas

As casas de fora olham-nos pelas janelas

Não sabem nada de casas os construtores

os senhorios os procuradores

Os ricos vivem nos seus palácios

mas a casa dos pobres é todo o mundo

os pobres sim têm o conhecimento das casas

os pobres esses conhecem tudo

Eu amei as casas os recantos das casas

Visitei casas apalpei casas

Só as casas explicam que exista

uma palavra como intimidade

Sem casas não haveria ruas

as ruas onde passamos pelos outros

mas passamos principalmente por nós

Na casa nasci e hei-de morrer

na casa sofri convivi amei

na casa atravessei as estações

Respirei – ó vida simples problema de respiração

Oh as casas as casas as casas

publicado por julmar às 11:29
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Sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2018

O Cardeal Manuel Clemente virou Diácono dos Remédios

                       Coat of arms of Manuel Clemente.svg

Eu não costumo interessar-me pela vida de eclesiàsticos, a menos que tenham alguma relevância histórica. O que levou uma figura com tão extensa obra escrita, com tanta atribuição de medalhas e insígnias, com prémios vários, entre os quais o Prémio Fernando Pessoa ( que maldades fazem aos mortos!) tão aplaudida (até eu comprei o seu livro Portugal e os Portugueses do qual li duas ou três páginas e pus de lado) com um percurso tão brilhante culminado com o chapéu cardinalício com direito a brasão, o que levou o cardeal a ser exposto ao ridículo? 

Então, os seus admiradores, aqueles que foram validando o seu percurso não acorrem em defesa do cardeal? Será que até o Espírito Santo lhe faltou com a luz?

O sexo tira muita gente da razão e estraga a vida a muita gente, sobretudo àqueles que dele não fazem uso e o querem recusar aos outros ou pretendem regulamentar o seu uso.

Não havia necessidade.

publicado por julmar às 17:05
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Quinta-feira, 1 de Fevereiro de 2018

A Inutilidade do Viajar

Resultado da sua pesquisa para séneca

Que utilidade pode ter, para quem quer que seja, o simples facto de viajar? Não é isso que modera os prazeres, que refreia os desejos, que reprime a ira, que quebra os excessos das paixões eróticas, que, em suma, arranca os males que povoam a alma. Não faculta o discernimento nem dissipa o erro, apenas detém a atenção momentaneamente pelo atractivo da novidade, como a uma criança que pasma perante algo que nunca viu! Além disso, o contínuo movimento de um lado para o outro acentua a instabilidade (já de si considerável!) do espírito, tornando-o ainda mais inconstante e incapaz de se fixar. Os viajantes abandonam ainda com mais vontade os lugares que tanto desejavam visitar; atravessam-nos voando como aves, vão-se ainda mais depressa do que vieram. Viajar dá-nos a conhecer novas gentes, mostra-nos formações montanhosas desconhecidas, planícies habitualmente não visitadas, ou vales irrigados por nascentes inesgotáveis; proporciona-nos a observação de algum rio de características invulgares, como o Nilo extravasando com as cheias de Verão, o Tigre, que desaparece à nossa vista e faz debaixo de terra parte do seu curso, retomando mais longe o seu abundante caudal, ou ainda o Meandro, tema favorito das lucubrações dos poetas, contorcendo-se em incontáveis sinuosidades, fazendo incessantemente ainda mais um circuito antes de enfim descansar no leito de que se aproxima. Mas viajar não torna ninguém melhor de carácter nem mais são de espírito. Teremos de nos aplicar ao estudo, de frequentar os mestres da filosofia, a fim de assimilarmos os princípios já estabelecidos e investigar o que ainda está por descobrir. Só assim a alma se pode arrancar à mais dura servidão e alcançar a verdadeira liberdade. Enquanto ignorares a distinção entre o evitável e o desejável, o necessário e o supérfluo, o justo e o injusto, o moral e o imoral — nunca serás um viajante, mas apenas um ser à deriva.As tuas deambulações não te trarão qualquer proveito, já que viajas na companhia das tuas paixões, seguido sempre pelos males que te dominam. E bom era que estes males apenas te seguissem! Bom era que eles estivessem longe de ti! O que se passa, porém, é que os levas em cima, e não atrás de ti. Deste modo, onde quer que estejas, eles oprimem-te, destroem-te com a mesma virulência. Um doente precisa que se lhe indique um remédio, não um panorama. Se um homem parte uma perna ou faz uma entorse não vai pôr-se a passear de carro ou de barco: manda, sim, é chamar um médico que lhe ligue o membro partido ou ponha no seu lugar o osso deslocado. Ora bem: acaso pensas tu que uma alma quebrada ou torcida em tantos lugares pode tratar-se com uma simples mudança de ambiente? Não, esta doença é demasiado grave para curar-se com um passeio! A formação de um médico ou de um orador não se faz em viagem; a aprendizagem de qualquer arte não depende da geografia. Como pensar que a sabedoria, a mais importante das artes, se pode adquirir saltando daqui para acolá?! Podes crer que nenhuma viagem te põe ao abrigo do desejo, da ira, do medo; se tal fosse o caso, todo o género humano começaria em massa a viajar. Estes males não cessarão de atormentar-te, de desgastar-te ao longo das tuas viagens, terrestres ou marítimas, enquanto tiveres em ti as suas causas. Admiras-te que de nada valha fugir quando tens dentro de ti aquilo de que foges? 

Séneca, in 'Cartas a Lucílio' 
publicado por julmar às 19:01
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Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2018

Viajar

 

Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.

Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.

“Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo”. Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.

Fernando Pessoa
publicado por julmar às 11:21
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Domingo, 31 de Dezembro de 2017

Ano de 2017, passo a passo

2017 passo.jpg

Difícil não é fazer uma caminhada grande, de vez em quando. Difícil é fazer pequenas caminhadas todos os dias. É o que faço desde há dois  anos. 3705,98 km foi o total do ano que termina. Coragem é o que espero inventar em mim para o ano que aí vem.

 

publicado por julmar às 19:52
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Quarta-feira, 20 de Dezembro de 2017

Boas Festas de natal

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Para todos os que frequentam este espaço virtual: leitores, espreitadores, comentadores, profissionais, amadores, ocasionais, viciados, homens, mulheres, crianças, jovens, adultos, velhos, vilarmaiorenses, de terras vizinhas e afastadas, residentes, ausentes, do continente ou das ilhas, da Améica do Sul e da América do Norte, da Europa de cá e de lá, das Áfricas, da Ásia Maior e Menor, quiçá da Oceania, quem sabe extraterrestres também, para incréus, ateus, ortodoxos, agnósticos, religiosos de credos vários ou nem por isso, a todos  desde que sejam homens de boa vontade,  os votos de um feliz natal.

publicado por julmar às 12:36
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Leituras de 2017

Do relatório, feito a cada ano que passa (porque uma parte de mim exige que preste contas à outra parte de mim) constam as leituras - essas conversas com gente ilustríssima e ilustradíssima. Excelentes leituras, das quais destacarei o Homo Deus o qual todos os que se interrogam sobre o amanhã do homem deveriam começar a ler hoje. E no género ficção uma leitura difícil e extraordinária, da autoria do meu amigo Aires Montenegro, Tristeza Solene.

Porque as leituras - que são modos de viajar acompanhados por gente muito ilustre - ocupam uma boa parte do meu tempo, aqui vai a lista dos livros:

Leituras
1 - Quinze cães - Alexis, André
2 - A Era do Caos - Rampini, Frederico

3- Quem governa o mundo - Chomsky,Noam
4- A avareza - Emiliano Fitipaldi

5 - Vigiar e Punir - Foucault, Michel
6 - O cérebro idiota - Burnett, Dean

7 - A ùltima Pergunta - Asimov, Isac
8 - A Cigarra Filosófica - A vida é um jogo?, Suits, Bernard

9 - A Cena do ódio - Negreiros, Almada

10 - Orca Terra, Mesquita, Rosa

11- Obrigado pelo atraso - Um Guia otimista para vencer na era da velocidade - Friedman, Thomas

12- Trás-os-Montes - Carvalho, J. Rentes

13 - Sapiens, Uma breve história da Humanidade - Harari, Iuval Noah
14 - Homo Deus, Breve História do amanhã - Harari, Iuval Noah

15 - Tristeza Solene - Montenegro, Aires
16 - A Estranha ordem das coisas - Damásio, António (leitura em curso)

publicado por julmar às 12:11
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Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017

Tristeza Solene, o livro do ano

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Conheci o autor acerca de trinta e seis anos, colegas que fomos, no oficio de professores de Filosofia, na Escola Secundária Raínha Santa, no Porto. Até poderíamos continuar a trabalhar juntos (Formação de professores) não fosse o meu impedimento burocrático da minha condição de professor não efectivo. Faz algum tempo descobri o Aires no Facebook, a maior rua do mundo e soube da sua condição de músico e de escritor. Assisti ao lançamento do seu livro na Casa da Cultura de Paredes. Acabei agora de ler o livro, e fico sem palavras para dizer o quanto fiquei maravilhado pela construção desta obra. Soube-me bem reencontrar um período que me é querido e dois autores - Giordano Bruno e Nicolau de Cusa - para os quais me despertou o saudoso professor Júlio Fraga. É preciso muita imaginação e talento para contar várias histórias numa história (o recurso ao itálico, ao negrito...). Enfim, um livro de leitura difícil e como tal há-de ter poucos leitores, mas bons. Sobre a escrita, nada como saborear este extrato do capítulo V:
 
Da profunda escuridão noturna irrompe Bruno iluminado, anda comigo, digo-lhe que não e ele insiste, que a alma da cidade é noite sem fim, que a noite é uma avenida por onde caminhamos espetros, que habitar a noite é devorá-la e cravá-la nas entranhas. Com uma vontade arrasada, fui atrás dele. Rompemos as trevas passo a passo. Uma lúgubre cerração entranhou-se-me no corpo e estremeci em arrepios quando a amálgama de gemidos sufocados me agrediu. Dois homens no chão eram espancados pelas matracas de um grupo mascarado. Bruno agarrou-me e não deixou acudir, o seu olhar faiscava o ódio retorcido das palavras, drogados bêbados mendigos prostitutas. Este mundo não é nosso! Quis desfazê-lo escarrardes-lhe a cara, mas senti-me sufocar e não fui capaz.
Como um sonâmbulo engoli As ruas da cidade, como um doido desmembrei-me e despejei os meus destroços nas lixeiras, deitei-me com os sem-abrigo, droguei-me com os drogados, emborrachei-me com os bêbados e com eles cambaleei e vomitei, pedinchei com os mendigos, fiz-me prostituta dos becos malditos e fui para a cama com todos os deserdados do amor Pág. 65

 

publicado por julmar às 15:33
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Segunda-feira, 4 de Dezembro de 2017

Chegada a Istambul, passo a passo

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Contar: Fazer contas, calcular, para construir um um conto sobre uma conta. Início de viagem: Vila Nova de Gaia,14 de janeiro de 2016. Sempre, quase sempre manhã cedo, muitas vezes antes do nascer do sol, com frio, geada, neve e sol. Todo o tempo é bom para andar. Chegada a Istambul, passados 688 dias, percorrida uma distância de 6728 Km, com uma média diária de 9,8 km diários, a uma velocidade média de 5km hora, totalizando 1345 horas. E porque toda a rota que subiu até Moscovo e desceu até Istambul foi feita passo a passo, quantos passos foram precisos? 

9 985 768 - nove milhões novecentos e oitenta e cinco setecentos e sessenta e oito. 

Tudo registado pelo meu inseparável companheiro - o iphone.

Esta é a conta, o conto virá depois.

 

publicado por julmar às 21:22
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Quarta-feira, 8 de Novembro de 2017

Leituras de menino - O lavrador da arada

Ao pegar num dos meus livros da Primária e ao abri-lo ao calhas, apareceu assim este texto que faz parte do folclore tradicional da Beira Alta. 

alt

Vindo um lavrador da arada,                    Lá pela noite adiante

Encontrou um  pobrezinho;                      O pobrezinho gemia;          

E o pobrezinho lhe disse:                         Levantou-se o lavrador

- Tenho fome e tenho frio,                       A ver o que o pobre tinha.

Leva-me no teu carrinho.   

                     

Deu-lhe a mão o lavrador,                      Deu-lhe o coração um baque,

E no seu carro o metia;                          Como ele não ficaria!

Levou-o para sua casa                           Achou-o crucificado

Prà melhor sala que tinha.                      Numa cruz de prata fina.

 

Mandou-lhe fazer a ceia                         - Meu Senhor, se eu tal soubera,

Do melhor manjar que havia;                 Que em minha casa Vos tinha,

Sentou-o à sua mesa,                            Mandara fazer preparos

Com  sua mão o servia                          Do melhor que encontraria.

Mas o pobre não comia.

 

Mandou-lhe fazer a cama                        - Cala, cala ó lavrador,

Da melhor roupa que tinha:                    Não fales com fantasia,

Por baixo damasco roxo,                        No Céu te tenho guardadas

Por cima cambraia fina.                          Cadeira de prata fina,

                                                                Tua mulher a teu lado,

                                                                Que também o merecia.

 

 

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Quinta-feira, 12 de Outubro de 2017

Leitura a não perder

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“Dependerá a felicidade, realmente, de nos iludirmos a nós mesmos?” pg 457
Dos muitos bons livros lidos até hoje, este há- de ocupar um dos primeiros lugares. Não por virtude das respostas que dá mas das perguntas que coloca. Para os crentes, não apenas dos que acreditam na vida eterna mas de qualquer outro paraíso terrestre, há -de causar- lhes grande perplexidade (ou infelicidade). A mim trouxe-me grande consolo: afetivo, por saber que não estou só; intelectual por sentir expostas, de forma clara e fundamentada, muitas das minhas ideias, entre as quais, o poder da imaginação e das histórias que construímos

publicado por julmar às 11:52
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Terça-feira, 26 de Setembro de 2017

A Vila - vista noturna

vilar maior de noite.jpg

Fotografia de Marco Simão Santos

Vilar Maior é a aldeia mais bonita do concelho do Sabugal. Não por ser a minha terra, mas porque nenhuma outra tem uma disposição topográfica que a favoreça tanto. Desta vez, é-nos dado poder usufruir de uma panorâmica noturna.

 

 

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Quinta-feira, 31 de Agosto de 2017

A Coruja de Minerva

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                       A Coruja de Minerva levanta vôo ao anoitecer - Hegel

Chegado a uma idade bem madura, espero que não esteja passado, dou comigo a fazer uma coisa que só pode fazer quem já tem muito caminho andado: desaprender. Eu que passei toda a vida a dizer e a praticar a experiência do aprender, dou- me conta que quem não desaprender ficará pelo conhecimento mas não chegará ao saber; eu que passei tanto tempo na procura da racionalidade correndo o risco de me tornar um logopata, dou-me agora conta de que quem não chegar à razoabilidade apenas terá encontrado um caminho sem saída. Podemos não chegar ao saber do sabor mas é possível chegar ao sabor do saber. Sem pretensões, se isto não é sabedoria, será, pelo menos a porta de entrada

publicado por julmar às 12:54
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Sexta-feira, 11 de Agosto de 2017

Andar - Cálculos

andar calculos.jpg

A viagem mais longa que um homem deve fazer é a que tem de percorrer até se encontrar. Foi esse o conselho imperativo de Sócrates: "Conhece-te a ti mesmo".  É uma longa estrada que tem de ser feita cada dia. Cada um a fará (ou não) a seu jeito. A minha é feita passo a passo e para me não perder nas voltas, voltei aos primitivos cálculos: cada volta um cálculo (pequenina pedra). Depois mudei para um ramo com folhinhas. Tudo estratagemas para que não se perca o essencial. E aprender por experiência a origem do cálculo.

 

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Quinta-feira, 3 de Agosto de 2017

A sombra do viajante

a sombra.jpg

Todos os dias do ano faça chuva ou faça sol o caminhante faz a sua viagem. Moscovo ficou lá para norte e os olhos estão postos em Istambul. Passo a passo, é o segredo.

 

publicado por julmar às 11:31
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