Segunda-feira, 21 de Outubro de 2019

A memória da um poeta da Sabugal

Image result for manuel antonio pina

Junto à água

Os homens temem as longas viagens,
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.
Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às veredas da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.

Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!

E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos

e sem escuridão, sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia.

Manuel António Pina, In Um sítio para pousar a cabeça

publicado por julmar às 10:20
link do post | comentar | favorito
Domingo, 20 de Outubro de 2019

Andar passo a passo - Entrevista

a sombra.jpg

P. Começando pelo início, pode dar-nos uma pequena introdução sobre o Júlio e o seu blog (há quanto tempo o criou e com que objectivo, etc)?

R. Nasci a 1 de janeiro de 1951, em Vilar Maior, uma aldeia cheia de História e de histórias, que continua, para mim, a ser o centro do mundo. Foi lá que aprendi a ser gente. Saí de lá porque a minha mãe achava que eu havia de ter uma vida que me subtraísse à literalidade da maldição bíblica: ganharás o pão com o suor do teu rosto. Por isso, rumei ao Alentejo, primeiro em Beja, depois em Évora e a seguir em Coimbra, num caminho que me deveria ter conduzido ao serviço de Deus e dos homens. Porém, fazia muitas perguntas, perguntas a mais num caminho seguro, certo, único que não suportava dúvidas nem hesitações. Foi, assim, que passei do caminho da fé ao caminho da razão, no exercício da Filosofia, primeiro como estudante e, depois, como professor. Reformado de professor, continuo filósofo livre, sem obediência que não seja a da obrigação honesta da procura do saber e com o ócio que permite ocupar-nos das coisas consideradas inúteis: a arte e a filosofia.

E levei suficientemente a sério o verso de Alberto Caeiro,

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...,

para escrever um livro sobre esse pedaço de terra onde a maldição bíblica se cumpria escrupulosamente: Memórias de Vilar Maior, minha terra minha gente.

Em 2006, iniciei um blog sobre Vilar Maior que completou 13 anos no passado dia 6 de agosto e que constitui ,hoje, um valioso património para os vilarmaiorenses https://vilarmaior1.blogs.sapo.pt/

P - O Júlio foi publicando no seu blog alguns posts onde registava uma caminhada de Portugal à Índia. Para quem não acompanhou, em que consiste essa caminhada?

 R. As pessoas que, como eu, nasceram a seguir à Segunda Guerra Mundial viveram uma época extraordinária que, entre outras realizações , desembocou nas novas tecnologias da informação e da comunicação. Nunca, em tão pouco tempo, a Humanidade mudou tanto. Ferramentas poderosas foram colocadas à nossa disposição, nomeadamente, no ensino e educação - o meu campo profissional. Como diretor de um centro de formação de professores, pude testemunhar a resistência de muitos professores na aprendizagem e uso das novas tecnologias. E foi, na minha atividade de professor, que criei o meu primeiro blog - O (En) canto da Filosofia, que era complementado com um lugar físico - um canto onde se expunham livros e trabalhos. A par desse blog, criei um outro - O Pitagórico - onde postava sobre ciência, filosofia, educação, literatura, política, etc. A seguir, surge o Badameco https://badameco.blogs.sapo.pt/ (nome um pouco depreciativo), inspirado nos Ensaios de M. Montaigne que utilizava um vade mecum (vai comigo), um caderno de apontamentos para registo de ideias e observações. Montaigne havia de gostar de ter um iPhone como o meu e um blog onde postar os seus pensamentos.

Dentro dos objetos da minha vida, o IPhone foi o que teve (e continua a ter) uma importância maior, uma oferta de aniversário que me chegou à mão no dia 15 de Janeiro de 2016. No dia seguinte, fez-me o registo dos kms ( aplicação saúde) da minha caminhada e de todas as caminhadas até ao dia 27 de setembro de 2019 que, de Vila Nova de Gaia me levaram até Katmandu, no Nepal, no sopé dos Himalaias.

P. Pode dizer-se que esta ideia forneceu-lhe a motivação que procurava para caminhar mais? Ou o impulso foi outro?

A ideia de transpor os kms feitos nas minhas caminhadas para um mapa surgiu-me, já com kms andados que davam para ir além Pirinéus. Então, tracei como objetivo chegar a Paris. A seguir, pensei em Napoleão e como ele e as suas tropas chegaram a Moscovo. Aí chegado, não me quis aventurar pela interminável Sibéria, nem sei como encontraria rotas. E decidi que haveria de chegar a Istambul, cidade incrível, onde, efetivamente, já havia estado e que me daria efetivo acesso pedestre ao continente asiático. Foi, então, que coloquei como objetivo atravessar a Índia e chegar a Katmandu, no sopé dos Himalaias, o que aconteceu no dia 27 de setembro de 2019. Não iria tão longe sem o meu iPhone que regista os meus passos; sem o meu Badameco onde anoto os sítios por onde passo e assumo compromissos comigo mesmo e onde dou conta de uma outra viagem dentro de mim, uma viagem mais longa que qualquer outra.

Andar, ler, escrever. Quando acentuamos uma dimensão na nossa vida, as outras começam a ordenar-se, coordenar-se, a subordinar-se a ela constituindo uma rede ou campo semântico. O andar é o que mais mexe connosco: nele se encontra materializado o espaço, o tempo, a aceleração - a física, a matemática, a história, a geografia , enfim, todas as ciências num corpo andante que, bípede , libertou as mãos para fazer, a cabeça para pensar e com os olhos poder contemplar o firmamento.

Precisamos de dar sentido ao que fazemos, porque em si o que fazemos pode não ter sentido nenhum. Levantar-se cedo, quase sempre antes do nascer sol, andar cerca de duas horas, não é para qualquer um. A questão é o que fazemos quando andamos. Andar, ler e escrever são três verbos que faço e que me fazem. São três atividades diacrónicas que nos ensinam que as coisas grandes se fazem de coisas pequenas - uma viagem é feita passo a passo, um texto feito palavra a palavra. Isso ensina-nos a ser humildes, persistentes e corajosos. Sem isso, não chegaria a Katmandu. Da próxima, irei mesmo de verdade, mas não será a mesma coisa.

P. Porquê a Índia? E já foi realmente à Índia?

Todos temos um imaginário da Índia desde que na escola primária ouvimos falar do Infante D. Henrique, das caravelas, de Vasco da Gama, do caminho marítimo para a Índia ( o terrestre já era conhecido) e temos um fascínio pelo Oriente. Porém, o lugar que quis como termo da viagem foi Katmandu. Talvez pela leitura que fiz do livro A Mais Alta Solidão, de João Garcia, onde nos conta a épica subida ao Monte Evereste. Muito do que sou devo-o aos livros e sei que esta minha maneira de andar também tem a ver com outras leituras das quais, de imediato, me surge Auto Retrato de um Escritor Enquanto Corredor de Fundo, de Haruki Murakami

P. Por fim, o que se segue? Até "onde" pretende caminhar a seguir.

R. A próxima está em curso. Sei que é em África, sei que a partida foi de Alexandria (Egipto), sei que a chegada será na Cidade do Cabo (África do Sul). O itinerário será traçado. Distância a percorrer cerca de doze mil quilómetros. Quanto tempo? Não sei.

publicado por julmar às 08:55
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019

A CRUZ MUTILADA . Alexandre Herculano

cruz1.jpg

Há textos, poemas do meu tempo de estudante que não mais esqueci. Basta-me olhar uma cruz, de preferência em espaço aberto, para que ele me ocorra à memória

Amo-te, ó cruz, no vértice, firmada
De esplêndidas igrejas;
Amo-te quando à noite, sobre a campa,
Junto ao cipreste alvejas;
Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos,
As preces te rodeiam;
Amo-te quando em préstito festivo
As multidões te hasteiam;
Amo-te erguida no cruzeiro antigo,
No adro do presbitério,
Ou quando o morto, impressa no ataúde,
Guias ao cemitério;
Amo-te, ó cruz, até, quando no vale
Negrejas triste e só,
Núncia do crime, a que deveu a terra
Do assassinado o pó:

Porém quando mais te amo,
Ó cruz do meu Senhor,
É, se te encontro à tarde,
Antes de o Sol se pôr,

Na clareira da serra,
Que o arvoredo assombra,
Quando à luz que fenece
Se estira a tua sombra,

E o dia últimos raios
Com o luar mistura,
E o seu hino da tarde
O pinheiral murmura

publicado por julmar às 18:20
link do post | comentar | favorito

Mário Cláudio

 

camilo broca.jpg

Já havia lido alguns livros de Mário Cláudio, mas nenhum me soube como este.Há seis ou sete anos foi o autor que me aconselhou a sua leitura, num curso seu sobre Escrita Criativa. Agora entendo porquê.  Um grande escritor!

«Meu mano não se continha e lançava nisto, 'Não há história que eu saiba que não vá desaguar nessa história, e desta rede é que se tece o génio de quem escreve, tentarei narrar amores e mortes sem medida, convocar a este Mundo um milhão de personagens, ensaiar frases, inventar palavras, e coar outras da nascente onde repousam há milénios, e a história que hei-de escrever será sempre a dos grandes Brocas» 

publicado por julmar às 11:51
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 14 de Outubro de 2019

Cruz do Arreçaio

Cruz do arreçaio.jpg

A natureza segue o seu curso natural, indiferente às necessidades, desejos, paixões ou opiniões do homem. As árvores não pedem licença para nascer aqui ou ali, em espaço público ou privado, em espaço sagrado ou profano. Nem se incomodam de tirar a vista, ao castelo, à Igreja ou à cruz. No seu crescer lento e contínuo os olhos das gentes vão-se habituando a que assim seja. Mas que a paisagem está diferente, está.

 

publicado por julmar às 12:20
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 10 de Outubro de 2019

O colégio de Aldeia da Ponte

colégio.jpg

Curioso da história local, consegui descobrir este livro, recentemente editado, no Intermarché do Sabugal. No Sabugal não há um sítio onde se vendam livros.

Quanto ao volumoso livro de 604 páginas, centra-se nos frades de Aldeia da Ponte( num contexto do fim da monarquia, da proclamação das ideias liberais e da instauração da República) que dão um contributo extraordinário para apropaganda anticlerical na imprensa regional e nacional.   

publicado por julmar às 10:52
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 8 de Outubro de 2019

Ler Camilo Broca

camilo broca.jpg

Leitura aconselhada há seis anos, chegou a altura de começar.

 

publicado por julmar às 12:03
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 30 de Setembro de 2019

Ler página a página: 12 rules for the life

12 regras para.png

Uma leitura morosa e difícil. Morosa porque o meu inglês ainda troeça em muitos termos que me obrigam a recorrer ao 'Tradutor'; difícil porque ao contrário do que o título possa sugerir não se trata de um receituário em que o autor nos dê uma cartilha de como fazer para ter uma vida feliz. Tratando-se de um psicanalista vai convocar os seus três grandes fundadores, Freud, Jung e Adler para a anális das situações problemáticas com que o homem se confronta. Convoca alguns filósofos, sobressaindo F. Nietszche; e também os marxistas e neomarxistas de quem discorda radicalmente, aliás, como do descontrucionista Derrida. À literatura vai buscar, sobretudo dois nomes: Dostoyevski ( Os Irmãos Karamazov) e Alexandre Solzhenitsyn (O Arquipélago do Gulag). Na religião convoca 'O Genesis' com a expulsão do paraíso, o asssinio de Abel às mãos de seu irmão Caim e várias passagens do evangelho de S. Mateus. Todos estes recursos para a construção de uma fenomenologia da condição humana sentida, sofrida na pele das pessoas de corpo e alma que passam pela sua vida, profissional e não só. Mesmo da experiência dolorosa da sua filha. Daí resulta um ponto, algo comum na vida daqueles que à procura da verdade, do sentido da vida, atrvés do exercício da razão que nos ilumina, esbarra na sua própria limitação. Foi assim, com Sócrates, com Pascal, com Kant ... e com o autor como afirma na págia 347:

"Thought, after all, is the highest of human achievement, is it not?

Perhaps not.

Something supersedes thinking, despite is truly awesome power. When existence reveals itself as existentially intolerable, thinking colapses in on itself. In such situations - in the depths - it's noticing, not thinking, that does the trick. Perhaps you might start by noting this: when you love someone, it´s not despite their limitations. It's because of their limitations.

 

Outline of the book:

  1. Stand up straight with your shoulders back
  2. Treat yourself like someone you are responsible for helping
  3. Make friends with people who want the best for you
  4. Compare yourself to who you were yesterday, not to who someone else is today
  5. Do not let your children do anything that makes you dislike them
  6. Set your house in perfect order before you criticize the world
  7. Pursue what is meaningful (not what is expedient)
  8. Tell the truth – or, at least, don't lie
  9. Assume that the person you are listening to might know something you don't
  10. Be precise in your speech
  11. Do not bother children when they are skateboarding
  12. Pet a cat when you encounter one on the street

 

publicado por julmar às 19:11
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 27 de Setembro de 2019

Andar, passo a passo: Viagem além da Índia

Kathmandu1.jpg

Chegada a Katmandu

As contas que servem de base aos contos

A viagem começou em 16 de Janeiro  de 2016 e terminou hoje dia 27 de setembro de 2019, perfazendo um total de 1349 dias. Foram percorridos 13621 Km, o equivalente 18813419 passos  (dezoito milhões, oitocentos e treze mil, quatrocentos e dezanove) , num valor aproximado de 2724 horas (aceitando uma velocidade de 5km por hora) a partir de Vila Nova de Gaia. Passei por 16 países: Portugal, Espanha, França, Alemanha, Polónia, Bielorrúsia, Rússia, Ucrânia, Roménia, Bulgária, Turquia, Arménia, Irão, Paquistão, Índia e Nepal. Foram utilizados seis pares de sapatilhas (o último ainda está para andar e durar). As rotas foram calculadas a partir do site: https://pt.distance.to/.

Os registos foram efetuados no iphone, na aplicação 'Saúde',

A média de Kms por dia foi: 2016 - 9km; 2017 - 10,1; 2018 - 10km; 2019 - 11,4 (até hoje)

Número de dias em que não saí para andar: 6, assim distribuídos: 2016 - 2; 2017 - 2; 2018 - 0; 2019 - 2

 

publicado por julmar às 15:59
link do post | comentar | ver comentários (6) | favorito
Quinta-feira, 1 de Agosto de 2019

Andar passo a passo, pela Índia fora

andar julho.jpg

Coragem, persistência, humildade e uma crença firme no deus das pequenas coisas é o caminho que nos conduz onde quisermos. Este é o ensinamento principal do "Andar passo a passo". Saber para onde se vai. Dar o primeiro passo e depois um passo de cada vez, milhares, milhões de vezes. 

publicado por julmar às 12:31
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 29 de Julho de 2019

Camões em Vilar Maior

Consta do rol das coisas improváveis que terá sido em Vilar Maior que Camões se terá inspirado para escrever, talvez o mais belo, seguramente o mais longo dos seus poemas, Sôbolos Rios

(...) Canta o caminhante ledo
No caminho trabalhoso
Por entre o espêsso arvoredo;
E de noite o temeroso
Cantando refreia o medo.
Canta o preso docemente,
Os duros grilhões tocando;
Canta o segador contente;
E o trabalhador, cantando,
O trabalho menos sente.

(...)

publicado por julmar às 15:37
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 1 de Julho de 2019

Andar, passo a passo. Ao encontro de Buda

andar julho.JPG

Chegada à Índia, não numa caravela como Vasco da Gama mas nos meus pés andarilhos. Para trás ficaram, depois de cristão romanos, protestantes e ortodoxos, os adoradores de Alá - Turcos, arménios, iranianos, afegãos, paquistaneses. Agora, passo a passo chegarei ao Nirvana

 

publicado por julmar às 11:57
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 28 de Junho de 2019

Leituras - Tríptico da Salvação

Image result for Tríptico da salvação

Mais uma leitura de um livro de Mário Cláudio a cuja leitura me afeiçoei num desejo crescente de o ler mais. Um livro que se movimenta num dos períodos da história que mais me fascina: o início da Idade Moderna na confluência de um mundo que termina e de um novo que se advinha e de que se lançam as fundações. E um tema bíblico-religioso à volta de uma pintura, essa arte que serve de pretexto a muitos texos do autor.

publicado por julmar às 11:35
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 27 de Junho de 2019

Entender a Alemanha para entender a Europa

Image result for a mais breve história da alemanha

Muito do que a Europa  e o mundo são, tem a ver com a história da Alemanha que no século XX foi protagonista principal das duas guerras mundiais. Começar a entender a Alemanha muito antes de a Alemanha existir, seguir a geografia (as montanhas e as planícies, o mar e os rios),  as migrações dos povos, as  guerras ... e, sobretudo, a cultura para o entendimento da realidade, tão próxima de nós, da existência das duas Alemanhas. 

publicado por julmar às 10:42
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 21 de Junho de 2019

Vanitas vanitatum

Os intervalos da vida de um professor de filosofia

vanitas vanitatum (3).png

 

 

publicado por julmar às 15:15
link do post | comentar | favorito
Sábado, 8 de Junho de 2019

Ler os melhores

how democracy die.jpgcontracapa how demoracy.jpg

O que nos torna no que somos são as nossas escolhas. Podemos escolher ler ou não o fazer. Mas se escolhemos ler é ainda importante escolher o que lemos. Ler consome tempo, o tempo que quisermos.  Trocamos sempre esse tempo por outras coisas que poderíamos fazer. Mas na leitura conseguimos sempre estar com os melhores de todos os que escreveram e de todos os que escrevem. 

publicado por julmar às 16:00
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 23 de Maio de 2019

Passo a passo até Lahore

Related image

Image result for lahore

12131Km, o equivalente a 18961412 passos, foi a distância que percorri desde Vila Nova de Gaia até ao distrito de Punjab (Paquistão), cuja capital é Lahore onde não sabemos o que mais admirar se os monumentos se a vida agitada e frenética da cidade.

Image result for lahore

publicado por julmar às 12:24
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 21 de Maio de 2019

Luz e sombra

IMG_0143.JPG

Ano de mil novecentos e sessenta e... seis ou sete, num mês de Verão, talvez setembro que era quando o menino da cidade, entre as primas, vinha à vila, por altura da festa do Divino Senhor dos Aflitos. À frente das priminhas mais velhas, as priminhas mais novas, irmãs todas de branco vestidas, todas com a mímica que mantiveram pela vida fora. Um florilégio de brancura, ao cimo da escada granítica do ti João e da ti Graça, em traje festivo.

E poderíamos ficar por aqui mas ficaríamos apenas com metade da história, a metade que o fotógrafo quis retratar. Mas então qual é a outra metade?

 

publicado por julmar às 11:43
link do post | comentar | favorito
Domingo, 5 de Maio de 2019

Mãe

Captura de ecrã 2019-05-5, às 19.26.18.png

Há textos que não esqueço enquanto aluno, há textos que não esqueço enquanto professor. Este só podia ser enquanto professor.
Rosas Vermelhas

Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso eu fiz da rosa a minha flor, um símbolo, uma espécie de bandeira para mim mesmo.

E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.

Nesse tempo o Sol nascia exactamente no meu quarto. Eu abria a janela. Em frente era o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. E respirava o ar de todas as viagens, da minha janela, capital do mundo, debruçado sobre o largo onde começavam todos os caminhos.

E tudo estava certo, nesse tempo, ou, pelo menos, nada tinha o sabor do irremediável. Nem mesmo a morte da minha tia. Por muito tempo ela ficou nos retratos e no jardim, bordando à sombra das magnólias, andando pela casa nos pequenos ruídos do dia-a-dia, até que, pouco a pouco, se foi confundindo com as muitas ausências que vinham sentar-se na cadeira, onde, dantes, minha tia se sentava.

E eu dormia poisado sobre a eternidade, como se tudo estivesse certo para sempre, eu dormia com muitos olhos, muitos gestos vigilantes sobre o meu sono. Por vezes tinha pesadelos, acordava, inquieto, a meio da noite, qualquer coisa parecia querer despedaçar-se e então exclamava:

- Mãe!

E logo essa voz, tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, e era de novo o meu quarto, a doce quentura da minha casa no cimo da ternura.

Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sono, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar:

- Mãe!

E logo uma voz, tão calma, mandava embora os fantasmas. E era a paz, nesse tempo, em que todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, o dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã, a minha mãe abria a porta do meu quarto e colocava, religiosamente, um ramo de rosas vermelhas sobre a minha vida, nesse tempo, em que dormir, acordar, nascer, crescer, viver, morrer, eram um rito no rito das estações.

Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado, dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o sono no seu lugar, repondo a paz dentro de mim? E as manhãs penduradas no mês de Maio, onde acordar era uma festa? Onde ficara a ternura? Onde ficara a minha vida?

Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Dormia – como direi? – acordado sobre cada minuto. Tinha aprendido o irremediável. Alguma coisa, dentro de mim, se despedaçara para sempre (para sempre? Que quer dizer para sempre?). Era inútil chamar. Tinha aprendido, fisicamente, a solidão. Embora na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse, como se fosse a voz longínqua do meu povo:

- Coragem!

Eu estava, pela primeira vez, fisicamente só, dentro do meu sono povoado por esse grito que estalava por vezes as traves da minha cabeça (onde essa voz que mandava embora os fantasmas?).

E era terrível essa manhã sem manhã, essa realidade branca e gelada, toda feita de paredes, grades, perguntas, gritos. Mesmo que na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse:

- Bom dia!

era terrível acordar nessa estreita paisagem com sete passos de comprimento por sete de largura, tão hostil, tão dolorosa como as regiões dos pesadelos. Porque acordar era ter a certeza de que a realidade não desmentiria o pesadelo.

Mesmo que os meus dedos batendo na parede transmitissem notícias dum homem que podia responder:

- Bom dia!

de cabeça erguida era terrível acordar no mês de Maio, com a certeza de que no dia 12 a minha mãe não entraria pelo meu quarto, deixando-me na fronte um beijo, e rosas vermelhas sobre os meus vinte e sete anos.

Talvez seja preciso renunciar à felicidade para conquistar a felicidade. Eu estava na cadeia em Maio de 1963. Tinha aprendido a solidão. Tinha aprendido que se pode gritar com todas as nossas forças quando se acorda a meio da noite com um grito na cabeça e um rato (talvez o medo?), roendo-nos o estômago, que ninguém, ninguém virá repor a paz dentro de nós. E, então, é a altura de saber se as traves mestras dum homem resistirão. Pois só a tua voz, amigo, responderá ao teu apelo torturado na noite. E, nessa hora (a mais solitária das horas), se conseguires cerrar os dentes, dar um murro na parede, acender um cigarro, se conseguires vencer esse encontro com a solidão no mais fundo de ti próprio, com que alegria, com que estranha alegria, na manhã seguinte, tu responderás:

- Bom dia!,

mesmo que seja terrível acordar no mês de Maio, nessa estreita paisagem, gelada e branca, com sete passos de comprimento por sete de largura.

É certo que se podem escolher outros caminhos. Mas poderia eu ter escolhido outro caminho? Acaso poderia dormir descansado, onde quer que estivesse, sabendo que algures, na noite, há homens que batem, há homens que gritam?

Os fantasmas tinham entrado no meu sono, invadiram a minha casa no cimo da ternura; os fantasmas eram donos do País. E se eles viessem de repente, a meio da noite, e eu chamasse:

- Mãe!

A voz (tão calma) de minha mãe já nada poderia contra eles. Era um trabalho para mim, uma tarefa para todos aqueles que não podem suportar a sujeição. Eu nunca pude suportar a sujeição. Acaso poderia ter escolhido outro caminho?

Por isso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto. No dia 12 não acordei com o beijo de minha mãe.

Porém, nessa manhã (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez – quem sabe? -, às dez e um quarto, que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro abriu a porta e entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha, duma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela.

Manuel Alegre (in Praça da Canção)
Voltar
publicado por julmar às 18:15
link do post | comentar | favorito

publicado por julmar às 19:14
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 30 de Abril de 2019

Treinar e aprender

Image result for how democracies die

Treinando o inglês e aprender com os melhores 

publicado por julmar às 12:15
link do post | comentar | favorito

.pesquisar

 

.Outubro 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
11
12

13
15
17
18
19

22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


.posts recentes

. A memória da um poeta da ...

. Andar passo a passo - Ent...

. A CRUZ MUTILADA . Alexand...

. Mário Cláudio

. Cruz do Arreçaio

. O colégio de Aldeia da Po...

. Ler Camilo Broca

. Ler página a página: 12 r...

. Andar, passo a passo: Via...

. Andar passo a passo, pela...

.arquivos

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds