Terça-feira, 11 de Setembro de 2018

Gelado de filosofia

Domingo, ao pagar um gelado à minha neta, peguei numa nota de dez euros que dei ao vendedor. Puxou do smartphone, abriu a calculadora e não sei que leu em mim para me dizer:

- Eu já não tenho a certeza de nada!

Respondi-lhe

- Olhe que é tão perigoso como ter a certeza de tudo

publicado por julmar às 15:13
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Quarta-feira, 29 de Agosto de 2018

POEMA EM LINHA RETA, Álvaro de Campos

 


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos, 

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo? 

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? 

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
publicado por julmar às 06:12
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Quarta-feira, 8 de Agosto de 2018

Os incêndios e os cidadãos demissionários

Os políticos deviam ouvir mais pessoas como o meu amigo Abílio com quem nos meus passeios matinais vou dando ouvidos à voz do povo que trabalha e tem um conhecimento de experiência feito, de quem já combateu, no passado, e apagou muitos fogos ao apelo feito pelo toque do sino a rebate da aldeia dele.

- A mim não me tiravam eles de casa, afiança-me.

Agora é tudo entregue a especialistas cuja eficiência está à vista. Em vez de prepararem as pessoas para se defenderem e para defender o que é seu, tratam-nas como crianças; em vez de as ensinarem a lutar, ensinam-as a fugir; em vez de as incentivar a resistir convidam-nas a desistir; em vez de, em cada povoado, ajudar as comunidades a organizarem-se na defesa das calamidades, dão- lhes números de contato telefónico. E Conselhos: Não faça nada, se vir deflagrar um incêndio; não faça nada se vir alguém a ser assaltado ou agredido; e, se for você, não ofereça resistência. Contate apenas, porque o Estado tem especialistas para tudo.

E tudo a que somos obrigados é a ser cidadãos demissionários, solidários na cobardia e no medo.
publicado por julmar às 21:28
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Quinta-feira, 2 de Agosto de 2018

Jalan, jalan ou a razão encontrada de andar, passo a passo

“Viajar é uma forma de loucura, é sair do seu lugar, prescindir do conforto e entregar-se ao desconhecido. Se por vezes ofazemos por compulsão ou por interesse ( motivações tão importantes ou válidas quanto quaisquer outras, o passeio é nesse sentido, um ato artístico, que encontra novas paisagens paisagens, novas formas de vida, sem deliberadamente procurar nada. É, como qualquer viagem, um ato que abdicar da segurança do lugar comum, mas que encontra prazer no próprio ato de caminhar. O caminhante perde a história, ansiedade. É o epicurismo a andar pelos campos. Cada passo que é uma renúncia e uma forma de desapego. Jalan, jalan é andar melhor. Por um motivo simples: não é utilitário, não tem um percurso definido, há uma liberdade intrínseca. Assemelha-se à arte. É uma atividade que prescinde de técnica. Ninguém tem de ter um modo eficiente de andar para poder passear. Não há tempo envolvido. Não há limitações, não há pressa. Nem sequer vagar. A noção do tempo perde-se na contemplação da paisagem. Um passo reencarna outro passo e também a mesma essência o hedonismo do gesto. Passear é o que fazemos para não chegar a um destino, não se mede pela distância nem pela técnica de colocar um pé à frente do outro, mas sim pelo modo como a paisagem nos comoveu ou como o voo de um pássaro nos tocou. É um pouco como a arte, tem valor imenso de tudo aquilo que não tem valor nenhum. Pode não ter razão, destino, objetivo, utilidade, e é exatamente aí que ri reside a riqueza do passeio.”
In, Jalan, jalan - uma leitura do mundo, de Afonso Cruz

publicado por julmar às 16:36
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Terça-feira, 31 de Julho de 2018

Muito perto de Tabriz, passo a passo

andar 18.jpg

Sempre a subir

andar 182.jpg

Um mês de Julho muito bom, com o tempo fresco a ajudar

 

publicado por julmar às 21:59
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Segunda-feira, 30 de Julho de 2018

Passo a passo

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Os livros que tenho pediram-me licença para entrar em minha casa, após breve inspeção: um olhar da capa, uma leitura do título, um (des)conhecimento do autor, o peso, o papel, o tamanho, a cor, o preço; mais uma olhadela pela introdução (prelúdio, intróito, prefácio, preâmbulo), pela disposição gráfica, pelo índice. E tenho o hábito de ver a última frase. E a última frase do livro é a seguinte:

«Os peregrinos usam a palavra 'ultreia', mais um passo, um passo além. Debaixo dos pés, quando transpomos a fronteira do que julgávamos ser o limiar possível, descobrimos uma ponte que se constrói passo a passo.»

Depois disto, Afonso Cruz, de quem o meu mestre de pintura me falara elogiosamente, entra na minha casa para reforçar o meu deus das pequenas coisas, o meu sentir de viajante que sabe que o longe é o lugar onde quero chegar, passo a passo.

publicado por julmar às 19:03
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Quarta-feira, 20 de Junho de 2018

Lendo Philip Roth

Wook.pt - A Humilhação

Mais uma leitura de uma assentada. 

publicado por julmar às 12:05
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Chegada a Erévan, passo a passo

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Vindo de Istambul, trilhei a costa marítima do Mar Negro, no Norte da Turquia, até chegar a território da Arménia de que Erévan é a capital, uma rota de 1710 KM. Uma cidade fundada no século VIII a C. e que foi continuamente habitada até aos nossos dias. 

Agora é preciso novas sapatilhas para entrar no Azerbeijão e seguir a rota da seda até Tabriz. Vamos, que se faz tarde!

publicado por julmar às 11:31
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Quinta-feira, 7 de Junho de 2018

A Evolução de Deus

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Um  livro grande (650 páginas) que é um grande livro. E eu gosto de livros grandes, sobretudo quando são trabalhosos. E este obrigou-me a pegar no lápis e a marcar passagens e fazer anotações. Há os ditosos, talvez eleitos, a quem Deus se revela, aqueles que educados na fé de um deus não têm necessidade de se questionar, aqueles que até consideram uma falta de respeito ou mesmo uma ofensa que alguém se questione sobre o que consideram inquestionável. Mas se nada do que acontece é por acaso, também o não é o facto de em vez de Teologia (que seria o meu per-curso natural) ter cursado Filosofia e de a ter praticado de forma radical, no sentido cartesiano. E se Descartes vivesse no século XXI seria, muito provavelmente, ateu ou agnóstico. Mas o que a presente obra trata não é de Filosofia mas das histórias dos deuses, de Deus ou, se quisermos, da evolução da ideia de Deus atendendo aos fatos e a uma interpretação dos mesmos dentro do espírito e do método científico, na mesma linha que Darwin seguiu para a evolução das espécies, até chegar ao monoteímo das religiões abraâmicas: judeísmo, cristianismo e islamismo. 

O autor termina com um título "Regresso ao Passado" onde  se interroga:

"O facto de as ideias religiosas apelarem naturalmente à mente humana não explica por si mesmo, como foi que a religião começou. Se admitirmos que os «memes» religiosos têm uma 'vantagem selectiva' na evolução cultural, como poderia exactamente um dado meme - uma crença religiosa específica - moldar-se e ganhar atração? Nunca o saberemos ao certo, mas a natureza humana torna fácil esboçar um cenário plausível"

Esse cenário traça aquilo que pode ser considerado uma origem natural da religião: "Porque quanto mais sabemos sobre o caráter labiríntico da religião e por vezes irracional da natureza humana mais fácil é explicar a origem da religião sem invocar tal coisa (experiência mística ou revelação). A religião nasceu de uma miscelânea de necanismos mentais geneticamente baseados pela seleção natural para propósitos totalmente mundanos".

Curioso(ou não), o autor, nos agradecimentos, termina com um obrigado a Deus. Ou tão só e apenas, as tra(d)ições da linguagem.

publicado por julmar às 19:05
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Indignação

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Um livro pequeno que é um grande livro, daqueles que se lêm de fio a pavio, de uma assentada. Não há finais felizes. Como coisas pequenas geram coisas enormes, incontroláveis.

publicado por julmar às 18:41
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Sexta-feira, 1 de Junho de 2018

Passo a passo até Erevan

km_edited.jpg

 De Istambul, percorrendo (mais exatamente, perandando) a costa onde a Turquia se banha no Mar Negro, a caminho de Erevan, capital da Arménia. Uma rota de 1710 km que se há-de concluir neste mês de Junho.

publicado por julmar às 12:11
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Segunda-feira, 23 de Abril de 2018

Porque hoje é o dia mundial do livro

A Evolução de Deus

Cada livro que começamos a ler é como uma nova viagem que decidimos fazer. Esta adivinha-se longa (633 páginas, qualquer coisa como cerca de 20000 linhas, rondando as 200000 palavras). Porém, dada a minha boa preparação de leitor e o conhecimento do assunto (que sabemos nós de Deus?) não será excessivamente demorada. Uma viagem que não nos altera é uma viagem inútil mas para saber a resposta é preciso empreender a viagem. No fim, saberemos. Boa Viagem

publicado por julmar às 15:45
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Sexta-feira, 6 de Abril de 2018

Lugares da minha vida, de regresso

Escritorio1.JPG

escritorio2.JPG

De regresso ao velho escritório e o reencontro com memórias especiais: os livros, sobretudo, os livros. Não seria apenas exagero mas seria erro dizer que neles aprendi tudo o que sei. Não são livros decorativos. Todos, um a um corresponderam a um propósito. Cada um tem uma história. A maior parte deles foram lidos de fio a pavio,linha a linha, página a página que de pequeno aprendi que era assim que o meu pai lavrava a Canjeira, a maior tapada da aldeia. Foi aí que comecei a imagianar que, para além do Deus todo poderoso, havia um deus das pequenas coisas. Alguns lidos apenas uma vez, outros sublinhados, anotados, resumidos. Outros, poucos, lidos e relidos. E o livro que li mais vezes: O Discurso do Método, de Renè Descartes: ali está na edição de Livros de Bolso da Europa América com ar de usado, sempre a desafiar-me a uma nova leitura, pequenino e simples como uma história para crianças que elas querem sempre ouvir uma vez mais. Livros de filosofia, principalmente. Os manuais que fui acumulando ao longo dos anos, ofertas das editoras (caixotes e caixotes) seguirão brevemente para a minha escola do Freixieiro. Nunca gostei de manuais escolares. Além dos livros de filosofia, há a literatura: livros sobre literatura e literatura mesmo: romance e poesia. Os de Saramago, todos. E o romance da minha vida: As memórias de Adriano. Como todos os romances lido apenas uma vez. Talvez com medo que percam o encanto. A poesia a de Pessoa, a de Almada Negreiros, a do Torga, a do Camões e um gosto muito especial pela do António Gedeão. Depois há os livros de Psicolgia e Pedagogia por gosto e por dever do ofício. A sociologia, a antropologia, a economia, a política e a história também têm o seu espaço e o seu peso e a biologia e a astronomia também. Alguns livros mais esquisitos como S. Cipriano. Fazer coisas, como contrabalanço do pensar, levou a aquisição e leitura de outro tipo de livros, sendo o mais estranho(?) Como construir um minhocário. Certo é que o construí há cerca de vinte anos e os efeitos benéficos ainda hoje perduram no jardim: cada sachada, minhoca.

Se os livros  ajudam em todos os setores, por que não haveriam de ser úteis na procura fundamental  que todos os seres humanos emprendem? Falamos da felicidade. Foi, assim, que tardiamente, tive tempo para ler sobre o tema e adquiri uma quantidade de livros e me interessei pela PNL e pelo Coaching. E seminarista que fui também há lugar para os livros de religião, de religiões, sobre Deus e o Diabo, sobre os deuses, sobre a virgem e os santos, sobre o céu e o inferno, catecismos vários e sobre a ausência de Deus e vários livros de receitas culinárias e algumas outras.

 O mais do que isto.

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças.

Nem consta que tivesse biblioteca

F. Pessoa

publicado por julmar às 18:39
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Quarta-feira, 28 de Março de 2018

Uma Breve História do Tempo - Stephen Hawking

Resultado da Imagem para uma breve história do tempo pdf

Uma das coisas ( a par da arte) que mais me fascina na vida é a atitude, o espírito, o conhecimento científico, talvez a maior descoberta feita pelo homem. Sobretudo do conhecimento científico que se inaugura na idade moderna com homens como Galileu e Descartes, cientistas/filósofos a quem devo grande parte da minha formação e  que são autores de uma revolução ao nível do conhecimento pela consciência que tomam de que o conhecimento que a humanidade tem do mundo é falso (todo o aristotelismo), que é possível o homem progredir no conhecimento da natureza recorrendo, não à autoridade de Aristóteles ou da Bíblia, mas à luz natural da razão, à observação e ao cálculo matemática. Li Galileu e Descartes e entendi-os com perfeição, continuo a entendê-los. Comecei a ler a " Breve História do tempo" de Stephen Hawking e nas primeiras 100 páginas reli a física clássica. Depois entro na Relatividade Geral e Restrita de Einstein, no Princípio de Incerteza de Heisemberg, na mecânica ondulatória, na física quântica ... e, ainda que o autor, procure tornar acessível estes conhecimentos ao comum dos mortais devo confessar a minha impreparação para entender com perfeição estas matérias. E tenho pena. Apenas fico deslumbrado.

Para os que quiserem tentar, basta ir ao google e fazer baixar o respetivo download da obra (algo simples mas que só se tornou possível devido a esta ciência nova à qual devemos toda a tecnologia recente de que disfrutamos como o vulgar GPS ao dispor de qualquer analfabeto digital).

publicado por julmar às 11:38
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Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018

Saudade das coisa simples

meruges.jfif

 

Se não conseguir juntar a boa vida a uma vida boa escolho sempre a última (é só uma pitada de filosofia!). A confecção de uma e outra não exige especial sabedoria. Já a combinação das duas tem mais que se lhe diga. No caso,  munido de uma tesoura e de um saco, arranjei uma boa companhia para um passeio pelas bordas do Cesarão até à Casa Branca (um lugar onde Deus podia ter criado Adão e Eva, assim o quisesse) onde desembocam as águas vindas das Canadas e em cujas águas correntes colhi as moruges ou merugens (à moda da vila) que limpas de outras ervas e bem lavada temperei com sal grosso, azeite e vinagre. Pão oferecido por um amigo que o fabrica com lenha da Correia, vinho oferecido por um familiar que o tem de seu trato e cuidado, queijo e enchidos do que se pôde arranjar ... bom se isto não é uma vida boa, o que é?

Por curiosidade, achei interessante ter encontrado em Londres, num supermercado, à venda moruges. Diferentes na quantidade, no preço, na cor ... quanto ao sabor não sei.

publicado por julmar às 18:05
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Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018

O tempo parado

casa do muro1.jpg

Durante anos a fio era o senhor Júlio Palos que dava corda ao relógio. Agora já não há quem dê corda ao tempo. Se ao menos o tempo parasse  e ficássemos todos parados com ele  evitaríamos o trágico e inexorável desenlace da vida! Mas não! Tudo anda, tudo se move, tudo muda, tudo passa, tudo corre. Menos o relógio ... e a ribeira.  

 

publicado por julmar às 11:39
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Oh as casas as casas as casas - poema de Ruy Belo



casa do muro6.jpg

(Primeiro esboço)

Oh as casas as casas as casas

as casas nascem vivem e morrem

Enquanto vivas distinguem-se umas das outras

distinguem-se designadamente pelo cheiro

variam até de sala pra sala

As casas que eu fazia em pequeno

onde estarei eu hoje em pequeno?

Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?

Terei eu casa onde reter tudo isto

ou serei sempre somente esta instabilidade?

As casas essas parecem estáveis

mas são tão frágeis as pobres casas

Oh as casas as casas as casas

mudas testemunhas da vida

elas morrem não só ao ser demolidas

Elas morrem com a morte das pessoas

As casas de fora olham-nos pelas janelas

Não sabem nada de casas os construtores

os senhorios os procuradores

Os ricos vivem nos seus palácios

mas a casa dos pobres é todo o mundo

os pobres sim têm o conhecimento das casas

os pobres esses conhecem tudo

Eu amei as casas os recantos das casas

Visitei casas apalpei casas

Só as casas explicam que exista

uma palavra como intimidade

Sem casas não haveria ruas

as ruas onde passamos pelos outros

mas passamos principalmente por nós

Na casa nasci e hei-de morrer

na casa sofri convivi amei

na casa atravessei as estações

Respirei – ó vida simples problema de respiração

Oh as casas as casas as casas

publicado por julmar às 11:29
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Sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2018

O Cardeal Manuel Clemente virou Diácono dos Remédios

                       Coat of arms of Manuel Clemente.svg

Eu não costumo interessar-me pela vida de eclesiàsticos, a menos que tenham alguma relevância histórica. O que levou uma figura com tão extensa obra escrita, com tanta atribuição de medalhas e insígnias, com prémios vários, entre os quais o Prémio Fernando Pessoa ( que maldades fazem aos mortos!) tão aplaudida (até eu comprei o seu livro Portugal e os Portugueses do qual li duas ou três páginas e pus de lado) com um percurso tão brilhante culminado com o chapéu cardinalício com direito a brasão, o que levou o cardeal a ser exposto ao ridículo? 

Então, os seus admiradores, aqueles que foram validando o seu percurso não acorrem em defesa do cardeal? Será que até o Espírito Santo lhe faltou com a luz?

O sexo tira muita gente da razão e estraga a vida a muita gente, sobretudo àqueles que dele não fazem uso e o querem recusar aos outros ou pretendem regulamentar o seu uso.

Não havia necessidade.

publicado por julmar às 17:05
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Quinta-feira, 1 de Fevereiro de 2018

A Inutilidade do Viajar

Resultado da sua pesquisa para séneca

Que utilidade pode ter, para quem quer que seja, o simples facto de viajar? Não é isso que modera os prazeres, que refreia os desejos, que reprime a ira, que quebra os excessos das paixões eróticas, que, em suma, arranca os males que povoam a alma. Não faculta o discernimento nem dissipa o erro, apenas detém a atenção momentaneamente pelo atractivo da novidade, como a uma criança que pasma perante algo que nunca viu! Além disso, o contínuo movimento de um lado para o outro acentua a instabilidade (já de si considerável!) do espírito, tornando-o ainda mais inconstante e incapaz de se fixar. Os viajantes abandonam ainda com mais vontade os lugares que tanto desejavam visitar; atravessam-nos voando como aves, vão-se ainda mais depressa do que vieram. Viajar dá-nos a conhecer novas gentes, mostra-nos formações montanhosas desconhecidas, planícies habitualmente não visitadas, ou vales irrigados por nascentes inesgotáveis; proporciona-nos a observação de algum rio de características invulgares, como o Nilo extravasando com as cheias de Verão, o Tigre, que desaparece à nossa vista e faz debaixo de terra parte do seu curso, retomando mais longe o seu abundante caudal, ou ainda o Meandro, tema favorito das lucubrações dos poetas, contorcendo-se em incontáveis sinuosidades, fazendo incessantemente ainda mais um circuito antes de enfim descansar no leito de que se aproxima. Mas viajar não torna ninguém melhor de carácter nem mais são de espírito. Teremos de nos aplicar ao estudo, de frequentar os mestres da filosofia, a fim de assimilarmos os princípios já estabelecidos e investigar o que ainda está por descobrir. Só assim a alma se pode arrancar à mais dura servidão e alcançar a verdadeira liberdade. Enquanto ignorares a distinção entre o evitável e o desejável, o necessário e o supérfluo, o justo e o injusto, o moral e o imoral — nunca serás um viajante, mas apenas um ser à deriva.As tuas deambulações não te trarão qualquer proveito, já que viajas na companhia das tuas paixões, seguido sempre pelos males que te dominam. E bom era que estes males apenas te seguissem! Bom era que eles estivessem longe de ti! O que se passa, porém, é que os levas em cima, e não atrás de ti. Deste modo, onde quer que estejas, eles oprimem-te, destroem-te com a mesma virulência. Um doente precisa que se lhe indique um remédio, não um panorama. Se um homem parte uma perna ou faz uma entorse não vai pôr-se a passear de carro ou de barco: manda, sim, é chamar um médico que lhe ligue o membro partido ou ponha no seu lugar o osso deslocado. Ora bem: acaso pensas tu que uma alma quebrada ou torcida em tantos lugares pode tratar-se com uma simples mudança de ambiente? Não, esta doença é demasiado grave para curar-se com um passeio! A formação de um médico ou de um orador não se faz em viagem; a aprendizagem de qualquer arte não depende da geografia. Como pensar que a sabedoria, a mais importante das artes, se pode adquirir saltando daqui para acolá?! Podes crer que nenhuma viagem te põe ao abrigo do desejo, da ira, do medo; se tal fosse o caso, todo o género humano começaria em massa a viajar. Estes males não cessarão de atormentar-te, de desgastar-te ao longo das tuas viagens, terrestres ou marítimas, enquanto tiveres em ti as suas causas. Admiras-te que de nada valha fugir quando tens dentro de ti aquilo de que foges? 

Séneca, in 'Cartas a Lucílio' 
publicado por julmar às 19:01
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Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2018

Viajar

 

Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.

Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.

“Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo”. Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género das minhas sensações?

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.

Fernando Pessoa
publicado por julmar às 11:21
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