
E, prestes a chegar ao fim do ano, é tempo de balanço , esse exercício contabilístico que nos prende à realidade dos factos, essa obrigação de a cada ano que passa dar conta do tempo que gastámos nisto e naquilo, sendo que isto e aquilo é, para mim, o ler, o escrever e o andar. E é assinalável que dos 16 livros lidos, metade tenha sido em língua inglesa, muito acima das minhas espetativas, o que contriubuiu para o apuramento do meu inglês. Esforço a continuar em 2020.
Outra nota, consiste no fato de a primeira e a última leitura consistirem numa arte de. Nada que tivesse planeado mas que fazem todo o sentido.
Por último, apete-ce-me dizer, deixemo-nos de tretas, vamos aos factos. A minha leitura do ano é Fact Fullness de Hans Rosling
Obrigado a todos os autores, meus mestres, que me abriram novos horizontes, com quem foi um prazer viajar.
1- A Arte de Caminhar, um passo de cada vez - Kagge, Erling
2- Homo Creator - Wilson, Edward O.
3- Science And Islam - Masood Ehsan
4- Hard Times - Dickens, Charles
5- O Homem Mais Rico Do Mundo - Conlin, Jonathan
6- The Invention of Solitude - Auster, Paul
7- The Humans - Haig, Matt
8- Fact Fulness - Rosling, Hans
9- How democracy Die - Levitsky, Steven e Ziblatt, Daniel
10- A Mais Breve História da Alemanha - Hawks, James
11- Tríptico da Salvação - Cláudio, Mário
12- 12 Rules for Life, an Antidote to Chaos - Peterson, Jordan B.
13- Camilo Broca - Cláudio, Mário
14 - Viagens - Tokarkzuc, Olga
15- 1908-1910 “Frades Jesuítas “ Correm Portugal pela muita tinta dos Jornais
16-- A arte de não acreditar em nada. Livro dos três impostores. Organização e prefácio de Raoul Vaneigem
«Merda: palavra-chave do inspector Otero, de significado amplo e muito pessoal. ‘Merda até ao traço do lábio’: locução que utiliza frequentemente para designar um sentimento ou uma situação de impotência absoluta»
In, Balada da Praia dos Cães - José Cardoso Pires, Colecção Mil Folhas, pgs 32/33
Também se pode ter uma conversa de merda de uma forma elevada, tudo depende do tipo de parlatório: tribuna, púlpito ou do alto da burra, mas sempre de um local elevado.
Tudo é merda, ou porque daí veio ou porque para lá caminha. E a humanidade, em geral, e cada um de nós em particular, deve-lhe mais do que está disposto a conceder. Se os primeiros filósofos andaram em busca da arquê enquanto princípio de que todas as coisas são feitas para explicação do mundo material (o fogo, a terra, o ar, a água em separado ou todos no seu conjunto), se tivéssemos de procurar o princípio da humanidade bem poderíamos dizer que esse princípio é a merda. Biblicamente poderíamos substituir a volatilidade do pó pela maior consistência da merda: «Memine, homine, quia pulvis es et in pulvis reverteris». Igualmente, quando no Evangelho se diz «Pelos frutos os conhecereis» se poderia substituir frutos por merda, porque ela é um sinal da doença e da saúde, ela traça a identidade de cada um - não há duas merdas iguais.
Num materialismo grosseiro, apesar do qual, ou através do qual se tornou famoso, Proudon afirmava que o homem é aquilo que come. Num materialismo igualmente grosseiro mas mais mal cheiroso poderíamos afirmar que o homem é aquilo que caga. Um homem é medroso no caso de se cagar de medo; é um valentão se mete um cagaço a alguém. Como se vê pelo cagar se mede a personalidade de cada qual. Se se diz de alguém que é um cagão, está tudo dito. Cagões é o mais que por aí abunda e Portugal é cada vez mais um país de cagões.
Também há quem não dê peido que bem cheire. Há pessoas tão forretas, tão avaras que nem peidos dão e que de tanto se encolherem trocam sonantes peidos com que gostosamente se aliviariam por bufos malcheirosos que torna suspeitos todos os circunstantes. Era assim que um professor meu de sociologia nos explicava a razão de serem necessários 3 indivíduos para constituir um grupo: Ao contrário de dois, se forem três indivíduos e um deles se bufar, torna-se impossível saber quem foi. E sem suspeição não há grupo, concluía ele.
Está por estudar, creio eu, e porque há gente para tudo e até para estudar a merda, o seu contributo na disseminação das espécies botânicas.
Há um ror de gente desejoso que o próximo faça merda, sobretudo entre companheiros de profissão.
Dizia uma quadra do tempo da merda da Ditadura:
Se o isqueiro paga imposto
E o fósforo imposto paga
Daqui a pouco paga imposto
A merda que a gente paga
Nunca na merda da ditadura se pagou tanto imposto como na merda da democracia, aliada da civilização, que em vez de merda lhe chama “detritos sólidos”dos quais envia ao prezado leitor deste texto de merda uma fatura mensal. Porque mudaram as moscas mas a merda é a mesma, prova-se que tudo o que é essencial é universal. E quando ainda não havia facebook, a veia poética dos cagões, deixa gravado a navalha, nas portas das retretes, nessa privacidade universal, a inspiração expirada:
Neste local solitário
Onde a vaidade se apaga
Todo o fraco faz força
Todo o valente se caga
Merda é das palavras mais generalistas e tal como a palavra coisa dá para suprir toda a deficiência designativa das realidades, razão porque há tanta gente com elas na ponta da língua.
Apesar dos inúmeros sinónimos (excrementos, fezes, dejectos, porcaria, caca…) nenhum deles a traduz de forma perfeita.
E se o leitor já está farto destas merdices, vou contar-lhe uma história de merda.
Num daqueles anoiteceres frios de primaveras tardias, um passarinho meio implume que mal ensaiava o voo e se extraviara da mãe e dos irmãos sentiu-se enregelado. Quis o destino que uma vaca lhe colocasse uma farta bosta em cima o que lhe proporcionou uma noite aconchegada. Quis o destino que um gato madrugador, à procura do pequeno-almoço, firmado nas patas, surpreendido, tenha visto uma cabecita a espreitar daquela bola a fumegar e Zás! Uma sacudidela e era uma vez um passarinho.
Então, toma atenção porque:
Nem todo o que te mete na merda te quer mal
Nem todo o que te tira da merda te quer bem
Quando te meteres na merda, enterra-te bem nela
Tenho a ventura de viver um tempo de gente fantástica - Filósofos, cientistas, artistas - e de poder fruir das suas criações.
https://music.youtube.com/watch?v=_6CZwlbmMIY&list=RDAMVM_6CZwlbmMIY
Con el alma en una nube
y el cuepo como un lamento
viene el problema del pueblo
viene el maestro
el cura cree que es ateo
y el alcalde comunista
y el cabo jefe de puesto
piensa que es un anarquista
le deben 36 meses
del cacareado (mento)
y el piensa que no es tan malo
enseñar (toreando )un sueldo
en el casino del pueblo
nunca le dieron asiento
por no andar politiqueando
ni ser portavoz del cuento
las buenas gente del pueblo
han escrito al menisterio
y dicen que no esta claro
como piensa este maestro
dicen que lee con los niños
lo que escribio un tal Machado
que anduvo por estos vagos
antes de ser exilado
les habla de lo inombrable
y de otras cosa peores
les lee libros de versos
y no les pone orejones
al explicar cualquier guerra
siempre se muestra remiso
por explicar claramente
quien vencio y fue vencido
nunca fue amigo de fiestas
ni asiste a las reuniones
de las damas postulantes esposas de los patrones
por estas y otras razones
al fin triunfo el buen criterio
y al terminar el invierno
le relevaron del puesto
y ahora las buenas gentes
tienen tranquilo el sueño
porque han librado a sus hijos
del peligro de un maestro
con el alma en una nube
y el cuerpo como un lamento
se marcha,se marcha el padre del pueblo
se marcha el maestro.

Os livros sempre constituíram um perigo e, por isso, eram de acesso reservado. A forma mais eficaz de o conseguir era impedir as pessoas de aprender a ler. Ou, então, escrevê-los numa língua não popular. Com Lutero, o aparecimento do protestantismo (que preonizava a leitura dos livros sagrados na língua materna) e com a descoberta da imprensa, a Igreja Católica estabeleceu , através do Index, o que não se podia ler. Quanto aos livros sagrados - a Bíblia - continuariam em latim até ao Concílio Vaticano II. E recordo o embaraço do velho pároco Inácio Faria que a primeira vez em que celebrava a missa segundo os normativos do referido concílio, calhou de ser uma leitura de S. Paulo aos Gálatas, 4:22 - 31 :
"Diz lá que Abraão teve dois filhos: um da escrava e outro de sua mulher que era livre."
O padre, apanhado de surpresa: - Porra, porra, meu povo! Vamos lá regressar ao antigo. Voltou as costas ao povo e leu em latim.
"Embora interesse a todos os homens conhecer a verdade, são muito poucos os que gozam desse privilégio. Uns são incapazes de a procurar por si próprios, outros não querem fazer esse esforço. Não devemos por isso espantar-nos com o facto de o mundo estar cheio de opiniões vãs é ridículas; nada as faz correr melhor do que a ignorância, aí reside a única fonte de falsas ideias que temos da divindade, da alma, dos espíritos e de quase todos os Outros temas que constituem a religião. O uso prevaleceu, contentamo-nos com os preconceitos que vêm desde o nosso nascimento e entregamos as coisas mais essenciais a pessoas interesseiras que têm como lei sustentar teimosamente as opiniões recebidas e não ousam destruí-las com medo de se destruírem a si próprias"

Afinal é mesmo possível encontrarmo-nos connosco passados dez anos. Estava sentado e sentado ficou como se tudo fosse normal. Que tinha vindo ao Egito, que estava ali em Luxor embasbacado com a grandeza de tal civilização e, que Nilo abaixo ia até à sua foz. E eu lhe disse que, em sentido contrário, ia Nilo acima até onde fosse a sua nascente. E como vais? Vou a pé, passo a passo. És maluco? Tanto comos reis que estão sepultados neste vale, o Vale dos Reis. Quando nos encontraremos? Talvez daqui a dez anos na casa da Vila.

Há 30/40 anos era assim

Este ano é assim, e a mim incomoda-me que assim seja.

Não há ventos que não pretem
Nem marés que não convenham
Nem forças que me molestem
Poderes que me detenham
Há muitos anos, tomei de empréstimo de António Gedeão, meu querido mestre, para meu lema de vida, esta estrofe do seu poema, "Fala do homem nascido". E dou-lhe cumprimento cada dia. Dia 11, como se vê no gráfico, não aconteceu. Afinal, os buracos existem, o não ser espreita-nos permanentemente.

Será possível encontrarmo-nos connosco? Pois é. Passados 10 anos, venho encontrar-me na margem do Nilo com este turista de t-shirt azul, óculos de sol e máquina fotográfica a tiracolo que ficou surpreso por me encontrar, atirou-me que estava mais velho. Perguntou-me para onde ia e eu que ia ao encontro da nascente do Nilo e ele que ia até à foz do Nilo. Em sentido oposto, ele turista de cruzeiro, eu pedantibus.
Pergunta-me quando voltaremos a encontrar-nos. Talvez daqui a 10 anos na nossa casa da vila, respondi-lhe.

Nos bancos da escola aprendi que a linha reta é um conjunto infinito de pontos e que um segmento de reta é a mais curta distância entre dois pontos. Aprendi mais tarde que este era um dos postulados da Geometria de Euclides (viveu cerca de 300 anos a. C., em Alexandria), considerado o pai da Geometria que tal como a Física de Aristóteles, é tão bela, tão falsa e tão útil no nosso quotidiano. Haveriam de surgir outras geometrias, no século XIX, - entre elas a geometia hiperbólica (Lobachevsky) e a geometria elíptica (Riemann) - de mais difícil entendimento por se encontrarem ausentes do mundo como naturalmente o vemos.
Ainda que o quisesse, nas minhas caminhadas não poderia caminhar em reta. Quando caminho da cidade do Cairo à cidade de Luxor, o meu calculador de distâncias dá-me sempre dois valores: Distância 504,29 km; Rota - 642,62km. Em rigor, se quisesse caminhar em linha reta de uma cidade à outra, teria de entrar pela terra dentro como uma toupeira, dado que, como hoje sabemos a terra é esférica - que os terraplanistas, cujo número dizem estar a crescer consideravelmente, me perdoem.
Quem na vida anda sempre na mesma direção, deverá aprender menos, viver menos do que aquele que não dá carreira direita, que se engana, que vai por aqui e por ali, que vai para a frente e volta para trás, que se perde. Talvez que a linha que une o nascimento à morte não sela uma reta mas um emaranhado de linhas curvas. Desde a infância em que rodava o arco que prefiro as curvas.
Fotografia de 2009

Fotografia de 2019

Sabendo que ia ter uns dias em que, por força maior, iria estar impedido de andar, passei pela FNAC (tenho muita saudade das velhas livrarias do Porto, mas os tempos são outros) e procurei um livro que, de outra forma, me transportasse para outros lugares. A escolha foi rápida: A imagem da capa, o título - sim, o título -, a autora, prémio nobel a literatura.
Comecei a ler e não é uma leitura fácil. Não são, propriamente contos e também não é um romance. É à medida que vamos lendo que nos deparamos com um puzlle e que nos compete a nós construí-lo. Para isso, temos de encontrar a cola que une as peças que encontramos no título original: BIEGUNI, que a tradutora em nota de rodapé explicita "Designa uma seita de antigos crentes ortododoxos que tratavam o movimento de maneira sagrada. Estar em constante movimento e atravessar fronteiras significava para eles não se apegar a nada e tentar fugir do mal que tenta privar-nos da liberdade".
É também um retrato e uma crítica à nossa sociedade tão veloz e tão estática
"Aquele que parar ficará petrificado; aquele que se detivera por um instante será alfinetado como o inseto, o seu coração será teres passado por uma agulha de madeira, as suas mãos e pés serão furados e pregados as ombreiras das portas.
Foi assim que morreu aquele que usou revoltar-se. Foi capturado e o seu corpo pregado na cruz, imobilizado como o de um inseto, para ser visto por olhos humanos e inumanos, mas principalmente por inumanos - os que mais se de leitam com estas cenas. Por isso, não é de estranhar que a reconstruam todos os anos e a celebrem, rezando a um corpo morto. E é também por isso que os tiranos de todas as espécies são servos infernais que transportam no sangue o ódio de morte aos povos nómadas. Daí as perseguições a judeus e ciganos. Daí que os homens livres sejam forçados a estabelecer-se e, depois marcados com uma morada que para nós é uma sentença. O que eles pretendem é estabelecer uma ordem sólida e tornar a passagem do tempo aparente, de modo a que os dias se tornem repetitivos e não se distingam uns dos outros. Querem construir uma grande máquina, na qual cada criatura terá de ocupar um determinado lugar executar movimentos, também eles aparentes - as instituições e os gabinetes, os carimbos e as circulares, a hierarquia e os cargos, as patentes, os requerimentos e os indiferimentos, os passaportes, os números, os cartões, resultados das eleições, as promoções e acumulação de pontos e a troca de umas coisas por outras.
Alfinetar o mundo com a ajuda de códigos de barras, colar um rótulo em todas as coisas para que se saiba que a mercadoria e é aquela e quanto custa. Que esta estranha língua seja incompreensível para as pessoas, que seja apenas lida por máquinas e autómatos e que estas façam recitais da sua poesia em códigos de barras, pela noites dentro, no interior das grandes lojas subterrâneas.
Põe-te em movimento, anda.! Abençoado seja todo aquele que caminha.

A poesia também muda o mundo e O Canto e as Armas, também me mudou a mim. O meu tributo ao poeta e ao homem.
AS MÃOS
Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.
Com mãos se rasga o mar.Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.
E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisastransformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.
Manuel Alegre, O Canto e as Armas,1967

É preciso chegar à África, chegar ao Egito, chegar ao Cairo para saber da grandeza das coisas Co mo foi possível ao homem construir estas pirâmides? Como todas as coisas grandes: pedra a pedra com um rio de suor da multidão imensa de escravos. Aqui pequeno, apenas eu ao constatar assombrado as pirâmides que, criança,via nos livros de História. E até o imenso deserto é feito areia a areia.

Biblioteca de Alexandria
Dia 28 de setembro de 2019, 6 horas. Partida de Alexandria, essa antiquíssima cidade, a cujo porto afluíam negociantes, filósofos, artistas, sacerdotes, matemáticos, conquistadores como se o seu farol - uma das sete maravilhas do mundo - fosse o poderoso íman que a todos atraía. Era, à época, a maior cidade, o maior porto e com a maior biblioteca. Foi esta enorme cidade, fundada pelo maior conquistador da História, Alexandre o Grande que eu na minha pequenez, adorador do deus das pequenas coisas, tomei como ponto de partida para, passo a passo, calcorrear o imenso continente africano. Primeira etapa: Alexandria - Cairo

Junto à água
Os homens temem as longas viagens,
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.
Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às veredas da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.
Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!
E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos
e sem escuridão, sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.
Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia.
Manuel António Pina, In Um sítio para pousar a cabeça

P. Começando pelo início, pode dar-nos uma pequena introdução sobre o Júlio e o seu blog (há quanto tempo o criou e com que objectivo, etc)?
R. Nasci a 1 de janeiro de 1951, em Vilar Maior, uma aldeia cheia de História e de histórias, que continua, para mim, a ser o centro do mundo. Foi lá que aprendi a ser gente. Saí de lá porque a minha mãe achava que eu havia de ter uma vida que me subtraísse à literalidade da maldição bíblica: ganharás o pão com o suor do teu rosto. Por isso, rumei ao Alentejo, primeiro em Beja, depois em Évora e a seguir em Coimbra, num caminho que me deveria ter conduzido ao serviço de Deus e dos homens. Porém, fazia muitas perguntas, perguntas a mais num caminho seguro, certo, único que não suportava dúvidas nem hesitações. Foi, assim, que passei do caminho da fé ao caminho da razão, no exercício da Filosofia, primeiro como estudante e, depois, como professor. Reformado de professor, continuo filósofo livre, sem obediência que não seja a da obrigação honesta da procura do saber e com o ócio que permite ocupar-nos das coisas consideradas inúteis: a arte e a filosofia.
E levei suficientemente a sério o verso de Alberto Caeiro,
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...,
para escrever um livro sobre esse pedaço de terra onde a maldição bíblica se cumpria escrupulosamente: Memórias de Vilar Maior, minha terra minha gente.
Em 2006, iniciei um blog sobre Vilar Maior que completou 13 anos no passado dia 6 de agosto e que constitui ,hoje, um valioso património para os vilarmaiorenses https://vilarmaior1.blogs.sapo.pt/
P - O Júlio foi publicando no seu blog alguns posts onde registava uma caminhada de Portugal à Índia. Para quem não acompanhou, em que consiste essa caminhada?
R. As pessoas que, como eu, nasceram a seguir à Segunda Guerra Mundial viveram uma época extraordinária que, entre outras realizações , desembocou nas novas tecnologias da informação e da comunicação. Nunca, em tão pouco tempo, a Humanidade mudou tanto. Ferramentas poderosas foram colocadas à nossa disposição, nomeadamente, no ensino e educação - o meu campo profissional. Como diretor de um centro de formação de professores, pude testemunhar a resistência de muitos professores na aprendizagem e uso das novas tecnologias. E foi, na minha atividade de professor, que criei o meu primeiro blog - O (En) canto da Filosofia, que era complementado com um lugar físico - um canto onde se expunham livros e trabalhos. A par desse blog, criei um outro - O Pitagórico - onde postava sobre ciência, filosofia, educação, literatura, política, etc. A seguir, surge o Badameco https://badameco.blogs.sapo.pt/ (nome um pouco depreciativo), inspirado nos Ensaios de M. Montaigne que utilizava um vade mecum (vai comigo), um caderno de apontamentos para registo de ideias e observações. Montaigne havia de gostar de ter um iPhone como o meu e um blog onde postar os seus pensamentos.
Dentro dos objetos da minha vida, o IPhone foi o que teve (e continua a ter) uma importância maior, uma oferta de aniversário que me chegou à mão no dia 15 de Janeiro de 2016. No dia seguinte, fez-me o registo dos kms ( aplicação saúde) da minha caminhada e de todas as caminhadas até ao dia 27 de setembro de 2019 que, de Vila Nova de Gaia me levaram até Katmandu, no Nepal, no sopé dos Himalaias.
P. Pode dizer-se que esta ideia forneceu-lhe a motivação que procurava para caminhar mais? Ou o impulso foi outro?
A ideia de transpor os kms feitos nas minhas caminhadas para um mapa surgiu-me, já com kms andados que davam para ir além Pirinéus. Então, tracei como objetivo chegar a Paris. A seguir, pensei em Napoleão e como ele e as suas tropas chegaram a Moscovo. Aí chegado, não me quis aventurar pela interminável Sibéria, nem sei como encontraria rotas. E decidi que haveria de chegar a Istambul, cidade incrível, onde, efetivamente, já havia estado e que me daria efetivo acesso pedestre ao continente asiático. Foi, então, que coloquei como objetivo atravessar a Índia e chegar a Katmandu, no sopé dos Himalaias, o que aconteceu no dia 27 de setembro de 2019. Não iria tão longe sem o meu iPhone que regista os meus passos; sem o meu Badameco onde anoto os sítios por onde passo e assumo compromissos comigo mesmo e onde dou conta de uma outra viagem dentro de mim, uma viagem mais longa que qualquer outra.
Andar, ler, escrever. Quando acentuamos uma dimensão na nossa vida, as outras começam a ordenar-se, coordenar-se, a subordinar-se a ela constituindo uma rede ou campo semântico. O andar é o que mais mexe connosco: nele se encontra materializado o espaço, o tempo, a aceleração - a física, a matemática, a história, a geografia , enfim, todas as ciências num corpo andante que, bípede , libertou as mãos para fazer, a cabeça para pensar e com os olhos poder contemplar o firmamento.
Precisamos de dar sentido ao que fazemos, porque em si o que fazemos pode não ter sentido nenhum. Levantar-se cedo, quase sempre antes do nascer sol, andar cerca de duas horas, não é para qualquer um. A questão é o que fazemos quando andamos. Andar, ler e escrever são três verbos que faço e que me fazem. São três atividades diacrónicas que nos ensinam que as coisas grandes se fazem de coisas pequenas - uma viagem é feita passo a passo, um texto feito palavra a palavra. Isso ensina-nos a ser humildes, persistentes e corajosos. Sem isso, não chegaria a Katmandu. Da próxima, irei mesmo de verdade, mas não será a mesma coisa.
P. Porquê a Índia? E já foi realmente à Índia?
Todos temos um imaginário da Índia desde que na escola primária ouvimos falar do Infante D. Henrique, das caravelas, de Vasco da Gama, do caminho marítimo para a Índia ( o terrestre já era conhecido) e temos um fascínio pelo Oriente. Porém, o lugar que quis como termo da viagem foi Katmandu. Talvez pela leitura que fiz do livro A Mais Alta Solidão, de João Garcia, onde nos conta a épica subida ao Monte Evereste. Muito do que sou devo-o aos livros e sei que esta minha maneira de andar também tem a ver com outras leituras das quais, de imediato, me surge Auto Retrato de um Escritor Enquanto Corredor de Fundo, de Haruki Murakami
P. Por fim, o que se segue? Até "onde" pretende caminhar a seguir.
R. A próxima está em curso. Sei que é em África, sei que a partida foi de Alexandria (Egipto), sei que a chegada será na Cidade do Cabo (África do Sul). O itinerário será traçado. Distância a percorrer cerca de doze mil quilómetros. Quanto tempo? Não sei.

Há textos, poemas do meu tempo de estudante que não mais esqueci. Basta-me olhar uma cruz, de preferência em espaço aberto, para que ele me ocorra à memória
Amo-te, ó cruz, no vértice, firmada
De esplêndidas igrejas;
Amo-te quando à noite, sobre a campa,
Junto ao cipreste alvejas;
Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos,
As preces te rodeiam;
Amo-te quando em préstito festivo
As multidões te hasteiam;
Amo-te erguida no cruzeiro antigo,
No adro do presbitério,
Ou quando o morto, impressa no ataúde,
Guias ao cemitério;
Amo-te, ó cruz, até, quando no vale
Negrejas triste e só,
Núncia do crime, a que deveu a terra
Do assassinado o pó:
Porém quando mais te amo,
Ó cruz do meu Senhor,
É, se te encontro à tarde,
Antes de o Sol se pôr,
Na clareira da serra,
Que o arvoredo assombra,
Quando à luz que fenece
Se estira a tua sombra,
E o dia últimos raios
Com o luar mistura,
E o seu hino da tarde
O pinheiral murmura

Já havia lido alguns livros de Mário Cláudio, mas nenhum me soube como este.Há seis ou sete anos foi o autor que me aconselhou a sua leitura, num curso seu sobre Escrita Criativa. Agora entendo porquê. Um grande escritor!
«Meu mano não se continha e lançava nisto, 'Não há história que eu saiba que não vá desaguar nessa história, e desta rede é que se tece o génio de quem escreve, tentarei narrar amores e mortes sem medida, convocar a este Mundo um milhão de personagens, ensaiar frases, inventar palavras, e coar outras da nascente onde repousam há milénios, e a história que hei-de escrever será sempre a dos grandes Brocas»

A natureza segue o seu curso natural, indiferente às necessidades, desejos, paixões ou opiniões do homem. As árvores não pedem licença para nascer aqui ou ali, em espaço público ou privado, em espaço sagrado ou profano. Nem se incomodam de tirar a vista, ao castelo, à Igreja ou à cruz. No seu crescer lento e contínuo os olhos das gentes vão-se habituando a que assim seja. Mas que a paisagem está diferente, está.

Curioso da história local, consegui descobrir este livro, recentemente editado, no Intermarché do Sabugal. No Sabugal não há um sítio onde se vendam livros.
Quanto ao volumoso livro de 604 páginas, centra-se nos frades de Aldeia da Ponte( num contexto do fim da monarquia, da proclamação das ideias liberais e da instauração da República) que dão um contributo extraordinário para apropaganda anticlerical na imprensa regional e nacional.
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