Quinta-feira, 12 de Novembro de 2015

Aos pregadores do bom senso

O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo, pois cada um pensa estar tão bem provido dele, que mesmo aqueles mais difíceis de se satisfazerem com qualquer outra coisa não costumam desejar mais bom senso do que têm. Assim, não é verossímil que todos se enganem; mas, pelo contrário, isso demonstra que o poder de bem julgar e de distinguir o verdadeiro do falso, que é propriamente o que se denomina de bom senso ou razão, é por natureza igual em todos os homens; e, portanto, que a diversidade de nossas opiniões não decorre de uns serem mais razoáveis que os outros, mas somente que conduzimos nossos pensamentos por diversas vias, e não consideramos as mesmas coisas. Pois não basta ter o espírito bom, mas o principal é aplica-lo bem.

(Discurso do Método, R. Descartes)

O texto que acabou de ler é o início de uma pequenina obra, dividida em seis partes e que se destinava a ser o prefácio de uma obra grande, designada O Mundo, e que mandou o bom senso e a prudência que não fosse publicada, pois, estava na memória de todos a condenação de Galileu pela mão sinistra da Inquisição. Descartes amava mais a luz que emana da verdade do que a luz que o projetasse para as bocas do mundo, para a fama. Foi, em parte isso, que o levou ao exílio forçado para a Holanda, onde mais livre e tranquilamente, numa rua de talhantes e  magarefes, poderia levar a cabo o projeto a que decidira dedicar a sua vida. Leu e levou a sério o conselho de Ovídio «Bene vixit, qui bene latuit» , bem viveu, aquele que bem se escondeu. 

Pela enésima vez, folheio este pequenino livro, e, de cada vez, encontro a claridade que falta no caminho da densidade sombria dos tempos que vivemos. A tecnologia permitiu subir a intensidade do som, levar a mensagens a todos os lados, permitiu a todos não só o acesso à informação mas até a sua produção e difusão e fazer de qualquer insignificante fenómeno o centro das atenções. Ser ouvido, ser visto tornou-se o grande desiderato do zé ninguém que nada é, do zé ninguém que pensa ser um super qualquer coisa. Toda a gente sabe, toda a gente quer mostrar que sabe e, mais, que o seu saber, apenas seu, julga dever ser o verdadeiro.saber. 

Então, não seria útil aos comentadores, incluindo aquele que é (foi) o decano dos comentadores da televisão lerem esta meia dúzia de linhas? E se o relessem e sobre ele refletissem, será que continuariam a fazer o que fazem do modo que o fazem? Tanta fanfarronice!  Como é que alguém que afirma que é a sua opinião, afirme simultâneamente que é verdadeira? Então, agora passou a haver opiniões verdadeiras? 

Nada me agita tanto cá por dentro como os apelos ao bom senso. É um dos lugares da preguiça, como o são todos os lugares comuns: Quando se não sabe o que fazer porque não se estudou, não se trabalhou apela-se ao bom senso o que é uma estultícia porquanto como nos diz Descartes ele está lá de forma natural. O que dá trabalho não é ter bom senso mas sim o modo como o aplicamos: «Não basta ter o espírito bom, mas o principal é aplicá-lo bem» Mas claro, isso requer trabalho. E recolhimento para nos encontrarmos connosco na nossa intimidade. Ora, para muitos seria como entrarem numa casa vazia, ou então numa casa muito desarrumada. Por isso, há que viver fora com luzes ofuscantes e sons muito altos. Sou visto, sou ouvido, logo existo.

The show must go on! 

publicado por julmar às 10:11
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