Segunda-feira, 19 de Setembro de 2016

Andar por andar

ténis

 Em tempos, fiz uma pequena investigação e publiquei um opúsculo sobre as múltiplas expressões em torno da palavra andar, procurando aí alguma identidade do modo de ser português. Consulte um bom dicionário e ficará pasmado, no caso de ser dado a pasmos, com a quantidade de expressões, tendo, porém, a certeza de que lhe escaparão sempre algumas. Desde andar com o cu às fugas ao andar com o credo na boca com que poderíamos iniciar um discurso para falar do tenebroso tempo da Inquisição. 

A medicina clássica parece ter, recentemente, descoberto as vantagens de andar. A minha médica, excelente profissional,  em tempos que eu levava uma vida sentada, surpreendeu-me, terminando a consulta a receitar-me um par de sapatilhas e um conselho: Ponha-se a andar. Levei a sério a receita e o conselho e não parei de lhe dar cumprimento e estou mesmo em crer que não seria como sou se não me tornasse militantemente andante. Essa é também a experiência que nos conta o escritor japonês Haruki Murakami no seu livro Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo onde ele reflete sobre o que significa correr e como esse fato se refletiu na sua forma de escrever. É no ato de andar que a nossa alma, tantas vezes divorciada do corpo,  se encontra com ele e descobre as suas raízes biológicas e com isso entramos em comunhão com a natureza que nos gerou.   

Por isso, senão pode correr, ande; senão pode andar depressa, ande devagar. Mas ande. O nosso corpo foi feito para andar. A pior descoberta que o homem fez foi a de que se podia sentar e começou a usar o cu para aquilo que não foi feito, para estar sentado, que se podia fixar num sítio, que se podia sedentarizar. E descobriu a agricultura e com ela surge a acumulação a desigual distribuição de recursos, enfim, a dialética do senhor e do escravo. Os homens sedentários precisam de deuses ou, pelo menos de outros deuses.

A essência do homem é ser viajante (via+agere), fazer caminho. A vida é uma viagem. Viver a vida como deve ser é viajar. Por isso, não deve andar para chegar ali ou além, porque ali ou além não estará ninguém à sua espera. Estará você, os companheiros de viagem e as recordações da viagem. Subirá ao mais alto monte e verá, lentamente, o sol desaparecer no horizonte, pela última vez. Nesse momento final, tudo o que conta é a aceitação feliz de a viagem ter chegado ao fim. Pôs-se o sol, a escuridão desceu sobre a terra e não haverá amanhã.

É triste? Não. Triste é ontem não ter andado.

 

publicado por julmar às 16:01
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