Sábado, 27 de Abril de 2013

Leituras de Abril - O Massacre dos Judeus

 Esta é das partes da História de Portugal que não se aprendia na escolas.

 

A descrição de Damião de Góis

«No mosteiro de São Domingos existe uma capela, chamada de Jesus, e nela há um Crucifixo, em que foi então visto um sinal, a que deram foros de milagre, embora os que se encontravam na igreja julgassem o contrário. Destes, um Cristão-novo (julgou ver, somente), uma candeia acesa ao lado da imagem de Jesus. Ouvindo isto, alguns homens de baixa condição arrastaram-no pelos cabelos, para fora da igreja, e mataram-no e queimaram logo o corpo no Rossio.

Ao alvoroço acudiu muito povo a quem um frade dirigiu uma pregação incitando contra os Cristãos-novos, após o que saíram dois frades do mosteiro com um crucifixo nas mãos e gritando: “Heresia! Heresia!” Isto impressionou grande multidão de gente estrangeira, marinheiros de naus vindos da Holanda, Zelândia, Alemanha e outras paragens. Juntos mais de quinhentos, começaram a matar os Cristãos-novos que encontravam pelas ruas, e os corpos, mortos ou meio-vivos, queimavam-nos em fogueiras que acendiam na ribeira (do Tejo) e no Rossio. Na tarefa ajudavam-nos escravos e moços portugueses que, com grande diligência, acarretavam lenha e outros materiais para acender o fogo. E, nesse Domingo de Pascoela, mataram mais de quinhentas pessoas.

A esta turba de maus homens e de frades que, sem temor de Deus, andavam pelas ruas concitando o povo a tamanha crueldade, juntaram-se mais de mil homens (de Lisboa) da qualidade (social)dos (marinheiros estrangeiros), os quais, na Segunda-feira, continuaram esta maldade com maior crueza. E, por já nas ruas não acharem Cristãos-novos, foram assaltar as casas onde viviam e arrastavam-nos para as ruas, com os filhos, mulheres e filhas, e lançavam-nos de mistura, vivos e mortos, nas fogueiras, sem piedade. E era tamanha a crueldade que até executavam os meninos e (as próprias) crianças de berço, fendendo-os em pedaços ou esborrachando-os de arremesso contra as paredes. E não esqueciam de lhes saquear as casas e de roubar todo o ouro, prata e enxovais que achavam. E chegou-se a tal dissolução que (até) das (próprias) igrejas arrancavam homens, mulheres, moços e moças inocentes, despegando-os dos Sacrários, e das imagens de Nosso Senhor, de Nossa Senhora e de outros santos, a que o medo da morte os havia abraçado, e dali os arrancavam, matando-os e queimando-os fanaticamente sem temor de Deus.

Nesta (Segunda-feira), pereceram mais de mil almas, sem que, na cidade, alguém ousasse resistir, pois havia nela pouca gente visto que por causa da peste, estavam fora os mais honrados. E se os alcaides e outras justiças queriam acudir a tamanho mal, achavam tanta resistência que eram forçados a recolher-se para lhes não acontecer o mesmo que aos Cristãos-novos.

Havia, entre os portugueses encarniçados neste tão feio e inumano negócio, alguns que, pelo ódio e malquerença a Cristãos, para se vingarem deles, davam a entender aos estrangeiros que eram Cristãos-novos, e nas ruas ou em suas (próprias) casas os iam assaltar e os maltratavam, sem que se pudesse pôr cobro a semelhante desventura.

Na Terça-feira, estes danados homens prosseguiram em sua maldade, mas não tanto como nos dias anteriores; já não achavam quem matar, pois todos os Cristãos-novos, escapados desta fúria, foram postos a salvo por pessoas honradas e piedosas, (contudo) sem poderem evitar que perecessem mais de mil e novecentas criaturas.

Na tarde daquele dia, acudiram à cidade o Regedor Aires da Silva e o Governador Dom Álvaro de Castro, com a gente que puderam juntar, mas (tudo) já estava quase acabado. Deram a notícia a el-Rei, na vila de Avis, (o qual) logo enviou o Prior do Crato e Dom Diogo Lopo, Barão de Alvito, com poderes especiais para castigarem os culpados. Muitos deles foram presos e enforcados por justiça, principalmente os portugueses, porque os estrangeiros, com os roubos e despojo, acolheram-se às suas naus e seguiram nelas cada qual o seu destino. (Quanto) aos dois frades, que andaram com o Crucifixo pela cidade, tiraram-lhes as ordens e, por sentença, foram queimados.»
Ficheiro:Massacre de lisboa.jpg
publicado por julmar às 22:46
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Quarta-feira, 24 de Abril de 2013

Leituras de Abril

 

Leio pela segunda vez este autor. Numa linguagem simples e fluente leva-nos aos lugares, aos objetos às paisagens como um guia. Não será a última vez que me deixarei levar.

«Um turista de passagem pela pacata aldeia de Tel Ilan verá casas rústicas centenárias, altos ciprestes, colinas verdes e pomares. Uma Toscana no coração dos montes de Manassés. Mas sob a superfície pululam os segredos e os enigmas: escavam à noite nas fundações da casa de Pessach Kedem. Há um mistério escondido no quarto de dormir da família Levin. E porque ficou o agente imobiliário trancado na cave do falecido escritor? Todas as histórias deste livro, à exceção da última, têm lugar numa aldeia imaginária. Um lugar que vai sendo construído de conto para conto como uma Macondo israelita – uma superpersonagem concreta, vibrante e poderosa.»

publicado por julmar às 11:21
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Terça-feira, 23 de Abril de 2013

Dia mundial do livro

LER

Lembro-me muito vagamente de aprender a ler, talvez porque quase aprendi sem dar conta. Lembro-me sobretudo de ouvir ler, à noite, depois da ceia, que na aldeia jantava-se ao meio dia. À luz mortiça da candeia, fabricada pela avó Isabel, um dos irmãos pegava no livro " As Minas de Salomão" e lia em voz alta para todos. O pai racionava a leitura para que o suspense continuasse e porque, terminado o livro, não estava logo ali outro. Depois que aprendi a ler, encarapitava-me numa cadeira para vasculhar os poucos livros existentes na Copeira - prateleira em pedra, esculpida numa grossa parede e que em vez de copos tinha, livros, cartas, contratos - que era uma espécie de Tora laica. Por não haver escolha, lembro-me de ler O Vermelho e o Negro de Stendhal, pouco entendendo do que lia, e, menos ainda quando me lancei no grosso volume de "A Filosofia do Concreto" de Leite Raínho. Nunca mais parei de ler.

publicado por julmar às 11:34
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Segunda-feira, 22 de Abril de 2013

Gostos não se discutem?

A propósito das obras do Castelo de Vilar Maior, dizia um comentador que "gostos não se discutem". Quem o assim disse, disse-o, como eu o digo tantas vezes, impensadamente ou porque não estando com pachorra para o tratar de outra maneira o despacha com uma frase feita. Ou ainda porque o lugar não dá para mais do que conversa banal. De certa forma o Facebook, lugar onde a coisa foi dita, veio substituir a rua, a taberna ou café onde as discussões, por serem à distância, por mais acaloradas, insidiosas ou insultuosas resguardam os interlocutores do afrontamento físico de lambadas, socos, pontapés, facadas e tiros. E o que pode despoletar uma valente discussão pode ser, quase sempre o é, uma insignificância ou como o povo diz, "por dá cá aquela palha". Porque a importância que as coisas têm depende da importância que se lhe dá. Podemos achar completamente ridículo que estudantes e ilustres doutores da Igreja, nas Universidades medievais, discutissem o sexo dos anjos ou ainda sobre a quantidade de anjos que caberiam na cabeça de um alfinete. O facto é que provocava discussões tão apaixonadas que mandava a experiência que, debaixo das capas levassem escondido um báculo (ou vulgar cacete), para o caso de fracassarem os argumentos da razão, puxar do argumento baculino que com a evolução tecnológica viria a ser substituído por armas de maior eficácia mas com a mesma finalidade.
Os gregos inventaram a filosofia e a democracia que, genuinamente, uma não vive sem a outra , ainda que saibamos dos desencontros entre elas ao longo da história. Porque há sempre os apressados, os que lidam mal com a dialéctica, os que acham que tem de haver uma verdade definitiva, uma solução final. E há também os preguiçosos, os que acham tudo tão difícil e tão complicado que na sua descrença em poder chegar a algum lado, ficam onde estão, reduzindo tudo apenas ao que as suas mãos tocam e ao que os seus olhos vêem. O equilíbrio e a tensão são tão insuportáveis aos relativistas quanto aos dogmáticos.
Haverá alguma coisa mais discutível do que os gostos?
publicado por julmar às 19:03
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A conversão da Rússia

 Curioso livro de cariz anti-comunista e católico, impresso a vermelho e azul alternadamente. Edição numerada e assinada pelo autor.

A Igreja e o Estado Novo uniam esforços no combate ao comunismo e, diariamente, em todas as paróquias se rezava pela conversão da Rússia.

O livro supra foi largamente publicitado na altura e mereceu todos os cuidados na distribuição por todas as freguesias através dos Presidentes da Junta. O pedido de controle também chegou a Vilar Maior.



publicado por julmar às 16:00
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Quarta-feira, 17 de Abril de 2013

Quando (des)maio chegar

Maio é o mês das rosas. Para os crentes é o mês do rosário. Na minha aldeia, nos anos sessenta, era o mês da maia amarela, era o tempo em que a natureza se enchia de frutos verdes e tulhas, arcas e tonéis se esvaziavam. E faltando o pão era a fome. O chefe de família olhava para a cevada, mais temporã que o centeio, na esperança de produzir um pão ruim, mas pão que mata a fome. Ou, então, de gastar o que tem guardado para a sementeira. Ou de pedir uns alqueires, por empréstimo, ao lavrador rico.

 Um amigo meu que excessivo na faculdade de imaginar, passa o tempo a fazer conjeturas sobre o que foi e o que será, explica,  baseado nos efeitos que a fome e a fraqueza provocam nos seres humanos, desde perda de sentidos, desmaios, descoroçoamento, desânimo, apsiquia, lipotimia, delírio, e ele sublinha delírio, conjetura o meu amigo que foi a fraqueza e a fome que levou os três pastorinhos a ver a imagem de nossa Senhora pousar sobre a azinheira.

Diz o meu amigo que quando Maio se for, quando desmaiar, neste ano de 2013, Portugal precisará de um milagre maior. E diz convicto: aguardemos!

publicado por julmar às 12:22
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Sábado, 13 de Abril de 2013

Livros, árvores e filhos

Diz a sabedoria popular que um homem sófica realizado depois de escrever um livro, fazer um filho e plantar uma árvore. Tem que se lhe diga e quando se lhe toma o gosto ...

Estive uns dias fora e quando regressei a última árvore que plantei, brindou-me com estes belos frutos - pingo-de-mel.

publicado por julmar às 22:35
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Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

A loucura na escrita de M.Gonçalves Tavares

Aceitar ler Gonçalo M. Tavares é aceitar jogar um jogo permanentemente inventado num campo inseguro, cheio de buracos, sobressaltos, surpresas onde a loucura não espreita o caminhante mas é ela mesma caminho e caminhante. Ficção, loucura... mas a vida não é isso mesmo?

É o que nos mostram estas «Canções Mexicanas» uma espécie de LP de trinta e três rotações.

«Um jogo em que um conta uma história e o outro só dispara em direcção a quem não conta histórias»

São histórias na Praça Zócalo, onde se respecha mucho el mezcal, onde perder-se é fácil e perigoso, onde loucos, muitos, se misturam com anões,  muitos também.

«Parecem histórias de anjos, histórias para crianças. Aqui uma vez um padre pegou numa navalha e cortou o próprio pescoço no meio da praça central, ante de gritar Te amo, Cristo».

Histórias, apenas histórias

publicado por julmar às 11:14
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Segunda-feira, 8 de Abril de 2013

Tesouros escondidos

Não devemos esquecer as lições da vida: o sublime às vezes veste roupas grosseiras

 

http://www.youtube.com/watch?v=RxPZh4AnWyk

publicado por julmar às 20:23
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Quarta-feira, 3 de Abril de 2013

Tempo de Filosofia

 

Melhor que ser professor de filosofia, é ser filósofo. Agora sou apenas filósofo ou talvez mestre de mim mesmo que talvez não haja outra forma de o ser porque só aí em liberdade respiro. E com o avançar da vida maior é a necessidade de filosofar, tal como muitos que no dealbar da vida procuram refúgio na religião que Hegel considerava "a filosofia dos ignorantes". Todo o homem precisa de consolo o que inspirou a obra de Alain Botton 'O Consolo da Filosofia'; Na mesma linha Lou Marinoff, na obra 'Mais Platão, menos Prozac', quis apresentar a filosofia como um substituto de drogas químicas como remédio para o sem sentido da vida. 

«Não são as coisas que perturbam os homens, mas a sua opinião sobre elas», dizia o filósofo grego Epicteto, frase que inspirou Albert Ellis na construção da Terapia Comportamental e Cognitiva. O autor que encontrou a cura na filosofia vai buscar as correntes filosófias greco-romanas procurando em cada uma delas o modo como pode contribuir para a cura da alma, para sustentar uma vida feliz.

Foi-me grata a leitura de um autor com que me identifico até pela coincidência das obras que ele leu e que eu li, entre elas:

Depak Chopra, R. Daukins, Nassim Nicholas Taleb (O Cisne Negro), Dale Carnegie, L.Ron Hubbard, Wallace D. Wattles (The Science of Getting Rich), Rhonda Byrne (O Segredo), Carl Sagan (Cosmos), Tim Ferris (4 Hours Work WeeK), Stephen R. Covey (Os Sete Hábitos das Pessoas Altamente Eficientes), para além as obras de filósofos.

publicado por julmar às 18:15
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