Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2012

Agradecimento 2012

Neste final de ano 2012
Cresci tanto dentro de mim
Que me derramo em graça
E das muitas graças que recebi
Me apraz assim agradecer

À família, de quem recebo mais do que dou
Nos cuidados do corpo e no alento da alma
Aos autores dos livros que li e me ensinaram
Das músicas que ouvi e me deleitaram
Dos filmes que vi e me apaixonaram
E aos amigos em geral
E aos começados por A, em particular
Que seria de mim sem vós?
Vos estis salis terrae
Também aos amigos do facebook tão generosos em conselhos
Aos amigos reformados que semanalmente comigo se sentam à mesa
À Lurdes Tonta que me ajuda a ver a tontice do mundo
Ao Manuel de Oliveira que me lembra que é possível trabalhar aos 104 anos
Aos meus médicos que me concertam as maleitas
Ao Zé que me deu oportunidade de aprender um pouco sobre morrer
À empregada do super, atenciosa e gracejante
Ao desconhecido que em Sens me orienta em terras gaulesas
Aos companheiros de caminhadas pedestres
Aos vizinhos atentos aos meus pequenos descuidos
Ao meu cão que todas as manhãs espera não sei se a mim se ao pão
Aos cientistas da NASA que colocaram o Curiosity em Marte
Ao Adelino Cunha pela motivação para a excelência
A todos os que fizeram a I Feira de Talentos
A todos que em gesto e olhar aprovaram insignificâncias
Aos homens que me abraçaram e apertaram a mão
Às mulheres que me beijaram
Às cozinheiras que me prepararam comida,
aos empregados que ma serviram
Aos que tiveram paciência para me ouvir
Aos que me quiseram ler e comentar
Aos que com mansidão me corrigiram.
Aos que me disseram não, contestaram, discordaram
A todos os que me tornaram feliz
A todos a quem acrescentei valor

Que todos de graça tenham cobertura
Para todos coragem e sabedoria na realização dos seus sonhos
Para todos paz, saúde, alegria, amor.
publicado por julmar às 17:40
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Domingo, 30 de Dezembro de 2012

Os Professores

Jornal de Letras, 19 Set 2012

"Os professores
Achei por muito tempo que ia ser professor. Tinha pensado em livros a vida inteira, era-me imperiosa a dedicação a aprender e não guardava dúvidas acerca da importância de ensinar. Lembrava-me de alguns professores como se fossem família ou amores proibidos. Tive uma professora tão bonita e simpática que me serviu de padrão de felicidade absoluta ao menos entre os meus treze e os quinze anos de idade. A escola, como mundo completo, podia ser esse lugar perfeito... Ver mais de liberdade intelectual, de liberdade superior, onde cada indivíduo se volta a encontrar o seu mais genuíno, honesto, caminho. Os professores são quem ainda pode, por delicado e precioso ofício, tornar-se o caminho das pedras na porcaria de mundo em que o mundo se tem vindo a tornar. Nunca tive exatamente de ensinar ninguém. Orientei uns cursos breves, a muito custo, e tento explicar umas clarividências ao cão que tenho há umas semanas. Sinto-me sempre mais afetivo do que efetivo na passagem do testemunho. Quero muito que o Freud, o meu cão, entenda que estabeleço regras para que tenhamos uma vida melhor, mas não suporto a tristeza dele quando lhe ralho ou o fecho meia hora na marquise. Sei perfeitamente que não tenho pedagogia, não estudei didática, não sou senão um tipo intuitivo e atabalhoado. Mas sei, e disso não tenho dúvida, que há quem saiba transmitir conhecimentos e que transmitir conhecimentos é como criar de novo aquele que os recebe. Os alunos nascem diante dos professores, uma e outra vez. Surgem de dentro de si mesmos a partir do entusiasmo e das palavras dos professores que os transformam em melhores versões. Quantas vezes me senti outro depois de uma aula brilhante. Punha-me a caminho de casa como se tivesse crescido um palmo inteiro durante cinquenta minutos. Como se fosse muito mais gente. Cheio de um orgulho comovido por haver tantos assuntos incríveis para se discutir e por merecer que alguém os discutisse comigo. Houve um dia, numa aula de história do sétimo ano, em que falámos das estátuas da Roma antiga. Respondi à professora, uma gorduchinha toda contente e que me deixava contente também, que eram os olhos que induziam a sensação de vida às figuras de pedra. A senhora regozijou. Disse que eu estava muito certo. Iluminei-me todo, não por ter sido o mais rápido a descortinar aquela solução, mas porque tínhamos visto imagens das estátuas mais deslumbrantes do mundo e eu estava esmagado de beleza. Quando me elogiou a resposta, a minha professora contente apenas me premiou a maravilha que era, na verdade, a capacidade de induzir maravilha que ela própria tinha. Estávamos, naquela sala de aula, ao menos nós os dois, felizes. Profundamente felizes. Talvez estas coisas só tenham uma importância nostálgica do tempo da meninice, mas é verdade que quando estive em Florença me doíam os olhos diante das estátuas que vira em reproduções no sétimo ano da escola. E o meu coração galopava como se estivesse a cumprir uma sedução antiga, um amor que começara
muito antigamente, se não inteiramente criado por uma professora, sem dúvida que potenciado e acarinhado por uma professora. Todo o amor que nos oferecem ou potenciam é a mais preciosa dádiva possível. Dá -me isto agora porque me ando a convencer de que temos um governo que odeia o seu próprio povo. E porque me parece que perseguir e tomar os professores como má gente é destruir a nossa própria casa. Os professores são extensões óbvias dos pais, dos encarregados pela educação de algum miúdo, e massacrá-los é como pedir que não sejam capazes de cuidar da maravilha que é a meninice dos nossos miúdos. É como pedir que abdiquem de melhorar os nossos miúdos, que é pior do que nos arrancarem telhas da casa, é pior do que perder a casa, é pior do que comer apenas sopa todos os dias. Estragar os nossos miúdos é o fim do mundo. Estragar os professores, e as escolas, que são fundamentais para melhorarem os nossos miúdos, é o fim do mundo. Nas escolas reside a esperança toda de que, um dia, o mundo seja um condomínio de gente bem formada, apaziguada com a sua condição mortal mas esforçada para se transcender no alcance da felicidade. E a felicidade, disso já sabemos todos, não é individual. É obrigatoriamente uma conquista para um coletivo. Porque sozinhos por natureza andam os destituídos de afeto. As escolas não podem ser transformadas em lugares de guerra. Os professores não podem ser reduzidos a burocratas e não são elásticos. Não é indiferente ensinar vinte ou trinta pessoas ao mesmo tempo. Os alunos não podem abdicar da maravilha nem do entusiasmo do conhecimento. E um país que forma os seus cidadãos e depois os exporta sem piedade e por qualquer preço é um país que enlouqueceu. Um país que não se ocupa com a delicada tarefa de educar, não serve para nada. Está a suicidar-se. Odeia e odeia-se."

Valter Hugo
publicado por julmar às 13:02
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Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2012

LEITURAS de 2012

«A leitura de todos os bons livros é como uma conversa com os melhores espíritos dos séculos passados, que foram os seus autores, e até uma conversa estudada, em que eles só nos revelam os seus melhores pensamentos».
René Descartes, in 'Discurso do Método'

 

Tudo, quase tudo o que aprendemos, aprendemo-lo com pessoas ou com livros. As pessoas importantes são aquelas que, mesmo que não nos ensinem, nós aprendemos com elas. Tive a felicidade de ao longo da vida ter encontrado pessoas excepcionais com quem aprendi muito. Também no ano que termina houve pessoas e momentos significativos: o orador motivacional Adelino Cunha, o Vitor Furtado com um curso de vendas, um curso de Liderança, um sermão de um padre em dia de festa, uma conversa ocasional com um camionista.

Quanto aos livros, perguntava-me a minha mãe, ao olhar para aquilo que para ela era uma biblioteca: -Tu já leste esses livros todos?

Respondia-lhe, quase sem mentir: - Alguns, mais do que uma vez.

Parafraseando, poderemos afirmar: " Diz-me que livros lês, dir-te-ei quem és"

 A companhia este ano foi predominante em relação a vendas (nunca pensei que pudesse  aprender tanto) e que desembocou na organização e implementação de uma feira de Talentos. Pensamentos que não conduzam a ações são vãos. E outras leituras são procura de  caminhos para a excelência: porquê ser bom se posso ser excelente?

Ao longo do ano li ainda uma pequena biografia de Steve Jobs,e leituras parciais de Heiddegger, Kant, Descartes. De jornais quase só e sempre o Expresso em formato digital, às vezes o Jornal de Notícias impresso. De todas as leituras ficou-me em imagens recorrentes a Visão de Deus de Nicolau de Cusa. A imagem do Ícone.

1 - Como havemos de viver? Peter Singer

2 - Ganhar Dinheiro - como fazer, proteger e multiplicar o seu dinheiro - Mathias Schmelz

3- Manual de Vendas - Hopkins

4- O Livro Secreto de Vendas - Paulo Vilhena

5 - O Rosto e a Personalidade - Morfopsicologia - Julian Garbarre

6 - O empreendedor Minuto - Ken Blanchard

7 - Vendas 101 - Zig Zigler

8-  Abraço - José Luís Peixoto

9 - 4 horas por Semana

10 - Talento não é tudo

11 - A Visão de Deus - Nicolau de Cusa

12- The Science of getting rich

13- Górgias - Platão

14- A Instalação do Medo - Rui Zink

15- O Método - Stutz, Phil e Michels, Barry

16- De Bom a Excelente - Jim Collins

publicado por julmar às 22:24
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Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2012

Leituras - De Bom a Excelente

De Bom a Excelente

Há muitos livros, por vezes grandes sucessos, feitos das ideias de um autor, reportando a sua experiência, as suas leituras, as suas reflexões, raramente, contrariando ou corrigindo as ideias feitas ou preconceitos. O importante deste livro é o facto de se basear nos factos, isto é, no caso, quais os factores que levaram a que empresas passassem de boas a ótimas. 

Por que vale a pena ler este livro? Por que seria uma pena desconhecer um trabalho tão exaustivo e sério sobre um assunto que interessa a quem quer ser não apenas bom mas excelente. 

Uma leitura recomendável para os directores das nossas escolas públicas e privadas.

publicado por julmar às 11:45
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Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2012

O Desconsolo Filosófico - Parte 1 - Afonso Leonardo

( texto motivado pela indisposição causada pela leitura de CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO FILOSOFIA 10 ANO 2012-2013)
Haverá, certamente, no caminho que conduz um jovem de catorze ou quinze anos à filosofia ( ou ao filosofar) atrativos e dificuldades, riscos a correr, obstáculos a superar. Trata-se, de facto, do início de uma viagem a que todos são convocados devendo valer-se das experiências e conhecimentos adquiridos até então. Essa é a bagagem do viajante. Porque se trata de uma bagagem espiritual - ideias, atitudes, valores, experiências, estratégias, métodos ..., quanto maior, mais ágil torna o seu carregador. Importante é saber que todo o iniciante é capaz de chegar ao fim. Verdade que as paisagens são tão diversificadas que, embora percorrendo o mesmo caminho, no fim a viagem de cada um terá visto coisas diferentes. A preocupação fundamental numa viagem de grupo é que nenhum elemento se perca. Essa é uma responsabilidade de todos e, em particular, do seu guia,o professor. Por isso, às vezes, é preciso diminuir o ritmo da marcha, renunciar a uma colina demasiado abrupta, deixar que uns vão por um lado e outros por outro e fomentar a entreajuda. Em boa verdade, numa viagem assim, vencer sozinho, é uma derrota.
A preparação para a viagem é muito importante e o seu êxito, depende em grande parte de como se faz a iniciação. Neste momento só o guia conhece o percurso, os caminhos, veredas, paisagens, fontes, etc. Se é experiente sabe como se pode usufruir ao máximo da viagem com o mínimo de riscos. Será capaz de motivar, de dar confiança. Contará aos iniciantes os êxitos das excursões passadas. Alertá-los-á para os cuidados a ter na viagem que vão iniciar e dos proveitos a usufruir. Porque viajar não é seguir um caminho feito, mas fazê-lo. Viagem, do latim, via+agere, isto é, fazer via.
E o primeiro risco de quem faz viagem é errar. Mas essa é a condição eminentemente humana, a situação incontornável de toda a aprendizagem, especialmente a filosófica. O que define o homem não é o determinismo da imóvel pedra jacente, da impulsividade animal, mas antes a incerteza dos seus passos de ser bípede comandado por uma mente aprendente. No seu desenvolvimento como espécie, no seu desenvolvimento individual o que melhor define o homem é a de um ser errante, de ser homo viator. Por isso, o guia, não que deva incentivar o erro, mas deve compreendê-lo, tolerá-lo como parte integrante do ensaio filosófico. Seria intolerável que à criança que cai ao tentear os primeiros passos, fosse punida pelos pais. Certamente, a criança pararia os ensaios com consequências desastrosas. Pelo contrário, o que se faz é minimizar o erro e incentivar, incentivar sempre, elogiando cada passo.
O incentivo, a atração, a motivação têm de ser o combustível indispensável na caminhada e o professor terá de os fornecer de modo adequado.
Há, na verdade, alguns guias que olham para esta viagem como uma via sacra que veêm cada aluno como um Cristo que carrega uma cruz até ao Calvário. A única forma de se libertarem da ignorância é pelo sofrimento, pela dor. Pelo trabalho.
Pelo trabalho na acepção bíblica, como castigo, como remissão do pecado: "Ganharás o pão com o suor do teu rosto" .
Por isso, no início da viagem se darão as devidas instruções para que ninguém ouse distrair-se, para que estejam atentos ao pecado capital: a preguiça. E para esse enaltecimento do trabalho regenerador se vão buscar citações que persuadam os neófitos: " o trabalho liberta-nos de três grandes males: a pobreza, o aborrecimento e o vício", esquecendo-se ( não sabendo ou ocultando) que o mesmo Voltaire autor da frase diz: "uma frase inteligente não é a prova de nada" e, ainda, sobre o trabalho, o mesmo Voltaire afirma: "Trabalhemos sem raciocinar: é o único meio de tornar a vida suportável". É que a concepção de trabalho de Voltaire não é a bíblica e nem deveria gostar de se ver citado a corroborar tal conceção.
Por vezes, a exaltação do trabalho é mesmo muito cínica como acontecia com a frase que os nazis tinham à entrada do campo de concentração de Auschwitz: " O trabalho liberta o homem".
Como é ironicamente que Voltaire escreve as frases:
(...) O trabalho liberta-nos de três grandes males: a pobreza, o aborrecimento e o vício
(...) Trabalhemos e deixemo-nos de discursos - disse Martin -; é o único meio de tornar a vida suportável.
Precisamos de saber quando Voltaire fala a sério. A obra de onde são extraídas as citações - Le Cândide - é uma obra em que Voltaire fala a sério, a brincar.
Não é, certamente, com citações ou com sermões sobre o valor do trabalho que se persuadem os alunos tal como não se tornarão filósofos dizendo-lhes que a filosofia é importante. É preciso que cada um o descubra com auxílio de quem oriente o olhar.
Essa é a função do professor. Tudo o resto não vale nada, quase nada.
publicado por julmar às 19:09
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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2012

Leituras - A instalação do medo de Rui Zink

As palavras sobrevivem, também elas, por adaptação, por conquista de novos territórios. Tal é o caso da palavra instalação que conquistou território no domínio da arquitectura, das exposições e, para além de conservar território nos ofícios tradicionais, ganhou terreno no campo das novas tecnologias: instalar a TV cabo, instalar a Internet, etc. Com tanta gente a tocar a campaínha da porta para fazer instalação disto e daquilo, um dia batem-lhe à porta para instalar o medo. E assim começa esta ficção de Rui Zink que tão bem paraboliza o estado do Estado e da sociedade portuguesa.

publicado por julmar às 11:35
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Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2012

Por Montalegre, dois anos antes do nosso século

Corria o mês de Junho de 1998 . Reuniram-se os directores de Centros de Formação de Associação de Escolas, em Montalegre para “Repensar, partilhar, perspectivar o futuro. Comeu-se bem e a parte social conduzida pelo padre Fontes foi óptima. Foi uma boa ocasião para observar comportamentos, de entender o que faz correr os directores. Por que é que os professores se hão-de interessar pela formação? A expressão que me ocorre é que toda esta gente anda a encher pneus.
Bom dia, senhores
Se estiverem de acordo, eu...
Pediria a Valpaços que relatasse a experiência
Sim nós temos cursos e oficinas, de música
Mas não há motivação
E um, e mais outro e todos:
«Não há motivação»
Sim meus amigos quando a alma se perde, ficamos sem música...
Isso eu não deixarei.
publicado por julmar às 17:23
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Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2012

O ministério da Educação é um quebra cabeças - Afonso Leonardo

A tarefa da educação não começa nos alunos - é neles que termina. Toda a exigência tem de começar por nós para ter autoridade e merecer respeito. Por isso, exija de si, Sr Ministro, exija dos serviços centrais do ministério, exija dos pais, exija das escolas, exija dos professores para poder exigir dos alunos.
Faz contas e faz muito bem em fazer contas que no bem contar é que vai o ganho. Porém, apenas no bom contar. E aí não basta a máquina de calcular porque entra o conto das vidas. Não tem que ter medo em entrar nesse conto.
Então e a avaliação dos professores, senhor ministro? Inclinou o plano tanto que precipitou a queda da sua antecessora quando era comentador. Agora que é ministro já é somente um plano. Quando cair ( porque não ha repouso eterno nesse assento ministerial onde subiste) dado o ângulo raso do plano, cairá deitado, de borco como um mergulhador principiante. Não cairá de pé. Cairá Sem dignidade e sem honra. E sem destruir o Ministério da Educação ( não era seu propósito implodi-lo?), esse desfigurado mostro.
Dirá que conseguiu pacificar a classe docente. Tê-lo-à feito contrariando-se a si mesmo pelo que disse, em tempos de comentador, numa questão essencial qual seja a de passarmos do reino da mediocracia para o reino da meritocracia. E fê-lo da maneira mais fácil,facilitando: com os sindicatos com quem era fácil acordar(ficando de fora a Fenprof), com um acordo que não avaliaria nada de essencial se alguma vez viesse a ser implementado. Porque a avaliação deveria começar no ano lectivo 2012-2013 mas não o será, porque embora volvidos quinze meses, o ministério não cuidou nem de estabelecer critérios homogéneos, nem instrumentos de registo, nem formação. Isto é o sr. Ministro não trabalhou. E porque não trabalhou, não trabalharam os que de sidependem, estiveram os Centros de Formação de Professores ( com seus diretores, assessores, consultores, administrativos ... ) sem fazer o que lhes compete: formação de professores. Isto é, em cadeia, no Ministério não se trabalhou. Claro que em cadeia, ninguém é avaliado. E o vasto mar da crise financeira centra a atenção de todos distraindo-nos destes rios que o alimentam. Depois queixam- se dos resultados dos alunos. Resultados, senhor ministro! Princípio da razão suficiente: Todo o efeito tem uma causa. Estranho é que os resultados fossem diferentes. O facilismo, a indisciplina, a desorganização, a falta de rigor, a desmotivação , o fazer de conta, os estratagemas, o plágio, o copianço, o incumprimento, a não pontualidade, a lei do menor esforço estão tão naturalmente nos comportamentos dos alunos como o fato de se molhar quem anda à chuva. Porque todo o efeito tem uma causa. De pouco lhe adianta pôr mais exames, pôr exames mais exigentes. Ninguém dá o que não tem. Este é o clima do Ministério que dirige. E como sabe o clima é determinante nos resultados da cultura. Mude o clima.
Comece por se examinar a si, sr ministro! ( O conselho não é meu, é de Sócrates! Não, não é esse! É do grego! Também lhe soa mal...). Examine o caminho que fez desde que se iniciou na atividade ministerial! Depois de avaliar a cabeça do mostro, veja se gosta do corpo que tem. Então? Vai continuar a ser a cabeça do monstro?
Para já, apenas lhe vai fazendo cortes que em nada lhe retiram a sua natureza monstruosa e nalguns casos ( se ainda é possível) o tornam ainda mais monstruoso. A parte mais desprotegida e frágil do monstro é a cabeça. Nuno Crato é já a trigésima cabeça do monstro, a seguir ao 25 de Abril, podendo dizer-se com propriedade que o Ministério da Educação é um quebra cabeças. Apenas Roberto Carneiro, Marçal Grilo e Maria de Lurdes Rodrigues completaram uma legislatura.
publicado por julmar às 21:13
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Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2012

Migalhas filosóficas

"O Supérfluo é uma coisa muito necessária." Voltaire
publicado por julmar às 17:58
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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2012

Memórias de um congresso de CFAE`s

22 e 23 e2 Janeiro de 1998, Estoril

Abertura pela senhora Secretária de Estado, Ana Benavente.
Não admira que a gente de Lisboa pense diferente da gente que de lá não é. Basta que o provinciano venha à capital para agir e pensar de modo diferente do da sua terra.
Começa por se aprender uma linguagem diferente que daqui há-de partir para o resto do país. Aqui se fabricam os novos conceitos e daqui se exportam devidamente empacotados em embalagens diversas mas sempre acompanhados de recomendações de como se devem ou não usar, chamando a atenção para o seu mau uso e para os possíveis efeitos secundários. Em caso de sobredosagem deverá ter o seguinte procedimento: ...
E fazem-se citações, muitas citações dos defuntos e dos que ainda o hão-de ser não se sabe quando.
Depois há os louvaminhas, que praga e os que comedidamente abanam suas cabeças em sincero apoio ou por hábito adquiriram esta bonomia de a tudo dizerem que sim, que sim senhor. Como se de um coro silencioso se tratasse: Tibi laudamus, domine! Tibi laudamus domine!
Conceitos: Territórios, territorialização, territórios educativos e territórios educativos de intervenção prioritária; Cartas, redes, malhas.
Ter , ganhar, dar visibilidade ou não estivéssemos nós num mundo de espectáculo!
Parcerias( e não há parceiros menores), protocolos, contratos.
Depois, um senhor Amável Santos, gestor nacional do Prodep - Um homem cheio de sérias preocupações por causa dos choques ... do petróleo, do desenvolvimento científico, da mundialização, das novas tecnologias. Estamos todos no mesmo barco (esqueceu-se de dizer que neste barco - o planeta terra - tem camarotes de 1ª, de 2ª, de 3ª).
Depois o senhor Jorge Lemos com ar governamental começando com uma grande tolice: Não há muito mais a dizer e repetindo o que já alguem aqui disse e por aí fora vai buscar os lugares comuns, dizendo sabiamente: Os que estavam excluídos da escola, hoje já não estão.
E todos: Eu terminaria por aqui ou serei breve.
E de tarde
A via certa do iluminismo burocrata e tecnocrata... e terminava por aqui.
Dia 23
Eu, Eu, Eu, Eu, ... que seria o mudo sem mim? Tudo funciona bem .. as coisas funcionam de facto... contactámos a câmara ... e as calculadoras gráficas...e as parcerias e os protocolos …

Lógica vertical e lógica horizontal e as medidas de cima para baixo. Viva a horizontalidade.

Finalmente uma lufada de ar fresco e foi preciso um alentejano bom contador de histórias: O que aprendi de Einstein é que tudo é relativo. E disse muito claramente uma coisa simples que não é tão óbvia assim: O objectivo da formação de professores é melhorar a qualidade das aprendizagens nas escolas. Formar para quê? Para Quem? Como? O destino e as rotas. Valeu a pena este Zé de Évora.
Por último um arquétipo do pedantismo: como dizer o óbvio, apenas o óbvio e não mais que o óbvio!
publicado por julmar às 19:08
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Considerações sobre formação de professores e aprendizagem

Texto dos primeiros anos deste século quando da Europa chegava dinheiro a rodos. O importante era gastar dinheiro, era chamada execução física.
"... mas é que ninguém pode conhecer tão bem uma coisa e fazê-la
sua quando a aprende de um outro como quando a inventa ele
próprio. Nesta matéria, é isto tão verdadeiro que, apesar de muitas
vezes eu ter explicado algumas das minhas opiniões a pessoas de
muito bom engenho e de parecerem, enquanto eu lhes falava,
entendê-las muito distintamente, todavia, repetindo-as, notei que as
mudaram quase sempre de tal sorte que já não podia reconhecê-las
como minhas"
Descartes, Discurso do Método

Num tempo em que tudo corre desenfreadamente à compra, a preços vários, de "acções" de formação, se vai a seminários, jornadas, palestras, workshops para coleccionar papel certificando presença ou participação, se trabalha para o currículo, seria oportuno lembrar que o crescimento rápido e a engorda acelerada, tal como acontece no reino zoológico dos galináceos e de outros espécimes comestíveis, produzem uma qualidade de nível inferior com problemas para a própria saúde. É, penso, um dos definidores da aprendizagem a de que a mesma consiste numa aquisição ou mudança de comportamento ou de atitude, de uma forma duradoura. Ora, tal mudança estabilizada há-de, por força, levar tempo e no tempo que vivemos, solicitados por tanta diversão, torna-se difícil aceder da fluência da informação factual à formação reflectida. Num tempo, em que o tempo válido é o que é convertível em dinheiro e tudo por ele é mensurável; em que se privilegiam as culturas de crescimento rápido, seria ardentemente desejável que no concernente aos jovens e seus educadores, a lógica fosse bem outra. Dê-se tempo a todos, pois como reza o provérbio: "O tempo é que amadura a fruta". Aquilo que se aprende muito depressa ou não tem interesse ou se aprendeu mal. Por isso, as acções de formação intensivas deveriam ser desaconselhadas, pois, constituem um paradoxo. Nenhuma outra classe profissional sabe tanto de formação, de aprendizagem como os professores. Não sabem apenas Geometria, História, Desenho mas sabem como levar os outros a esse saber.
Assim, a formaçaõ só faz sentido como auto-formação. Parece certo que quanto mais elevada é a formação de um indivíduo maior é a sua capacidade de auto-formação. Ora, sendo os professores indivíduos de alta formação é também alta a sua capacidade de se organizarem com vista à formação. Nisso há-de consistir o papel dos CFAEs como geradores e gestores de recursos, aglutinadores de interesses e objectivos, incentivando os professores à organizarem-se em grupos, por áreas de formação e de acordo com as suas necessidades. È necessário que cada escola debata as suas principais dificuldades e de que modo a formação pode ajudar a resolvê-las. Sò assim se evitará que os Centros apresentem um menu de acções que mais dão créditos do que crédito, que mais se movem por razões administrativas do que por razões pedagógicas.
Quem se der ao trabalho de consultar os mapas de acções de Formação para professores, por esse país fora, facilmente constata que a grande maioria (quase a totalidade) se processa na modalidade de Curso de Formação em detrimento de outras modalidades (Seminários, Circulos de Estudo, Oficinas, Projectos, Estágios) o que traduz uma filosofia que transporta para a formação o modelo da relação na sala de aula professor - aluno. É a forma mais fácil de organizar a formação e a mais ineficaz em termos de resultados. A formação na modalidade de Curso ( até pela quantidade de formandos que exige quando comparada com as outras modalidades), pese embora toda a boa vontade e esforço dos formadores, conduz a que o professor-formando encarne o papel de aluno e se comporte como tal. Inevitavelmente se coloca a tónica no domínio cognitivo quando, de facto, o domínio das atitudes, dos valores e da reflexão, a partilha de experiências e problemas é que deveriam constituir o núcleo da formação. A Formação na modalidade de curso beneficia da inércia da forma organizacional das escolas, e é muito mais consonante com a passividade e com o domínio massivo e quantitativo em que vivemos. Quando se aprende isto ou aquilo, aprende-se sempre alguma coisa além disso e que acaba por ser aquilo que é mais essencial. Tal como lemos no belo poema de Vinicius de Morais " O Operário em Construção": " Pois, para além do que sabia,/ Exercer a profissão/ O operário adquiriu uma nova dimensão/ A dimensão da poesia". Quem adquire o domínio de uma técnica, adquire um domínio mais importante que é o domínio sobre si mesmo e acede, assim às formas superiores de aprendizagem ou seja aprender a aprender que o mesmo é dizer aprende a ser humano, humano errante. É essa a grande descoberta há muito feita por povos orientais. É essa a mensagem de Sócrates, de Platão, de Kant, de Nietzsche e a que a nossa própria reflexão nos conduz. É deste tipo a aprendizagem autêntica, uma aprendizagem de nível superior - como diria Platão - a suprema das aprendizagens.
É necessário não perder de vista o essencial da educação, como nos lembra Delfim Santos :"O problema da educação, no seu aspecto, ideal, interessado e sério, pretende (...): que o homem seja o que pode ser.
A técnica de que usa deve apenas servir esta finalidade: auxiliar a descobrir o homem e os seus valores ao próprio homem"
Na verdade, as coisas verdadeiramente importantes da vida têm que ser aprendidas embora não possam ser ensinadas. Podemos ensinar alguém a ler. Mas como ensinar-lhe o gostar de um texto, a tomar-lhe o sabor? Há a leitura necessária e há a leitura inútil. Um ensino do simplesmente útil apenas produz escravos inúteis.
Ora, a aprendizagem da arte do pensar autónomo, implicam uma experienciação, uma tomada de consciência pessoal mediada pelo confronto com o ponto de vista de outrem. Como poderão os prisioneiros agrilhoados, como os da alegoria da caverna de Platão, libertarem-se? Não será, certamente, treinando as técnicas de observação que só lhes permitiriam conhecer melhor as sombras; talvez, o desvio do olhar suscite a dúvida, conduza à interrogação e promova a procura. Com todos os riscos inerentes ao desvio. Os outros criticarão Fernão Capelo Gaivota, defendendo que o importante é procurar comida e não voar. E tal não se pode ensinar, podendo-se, no entanto aprender. Qual, então, o papel do professor? Ensinar. Ensinar como um mestre. Alguém que ensina o que não está nos livros, que além da especialidade veicula algo mais: a vontade de comunicar, o prazer no que faz, a coragem de pensar, a disponibilidade e abertura ao outro, o fazer diferente em cada ano que passa, o prazer da partilha. Ensina-se sempre mais do que se ensina. Este acréscimo é o que designamos como cultura, " aquilo que ficou quando se esqueceu tudo o resto". A aprendizagem autêntica pressupõe como essencial o esquecer informações, matérias, conteúdos, factos, acontecimentos; o que de importante deve ficar são as regras, os princípios, as formas; as estratégias de resolução de problemas. Penso que era isso que Montaigne pretendia dizer quando afirmava preferir uma cabeça bem feita a uma cabeça cheia de coisas; será o mesmo que distingue uma cultura enciclopédica de uma cultura crítica ou filosófica: aquela é mais verbal do que escrita, fala mais do que ouve, é precipitada e irreflectida; a genuína cultura é humilde e atenta porque é caminho que se faz sujeito ao desvio (sair da via), ao errare.
O fim último do ensino é esta aprendizagem: o aprender outra coisa além do que se aprende e esta outra coisa é o aprender a ser, o aprender do poder, isto é, da competência. Entre outras coisa foi isto que a linguística nos ensinou.
No sentido linguístico, competência é poder a partir de um número reduzido de regras, formar e compreender um número indefinido de novas frases de um modo correcto. Como diz Chomsky " o locutor sabe muitas coisas que nunca aprendeu"; na gíria, dir-se-á que “sabe mais do que eu lhe ensinei”. É por isso que não se pode ensinar tudo, mas pode-se aprender indefinidamente. O fim do ensino é a competência, embora paradoxalmente ela não possa ser ensinada.
Quando, mais acima, falava sobre a importância das atitudes e dos valores ocorria-me a importância que é grande e tenderá a ser maior. Com efeito, os problemas mais importantes com que a humanidade se defronta não demandam de uma resposta científica ou técnica mas sim filosófica. Coménio, no alvorecer da ciência e da técnica modernas, quando nasciam as sementes do iluminismo e a fé desmedida no poder da ciência, alertava-nos ( nessa excelente obra, Didáctica Magna, em que pensa, dentro do espírito cartesiano, ser possível um método universal de ensinar tudo a todos, mesmo às mulheres!):"Quem progride na ciência e regride na moral anda mais para trás do que para a frente" e "A instrução infundida num homem sem virtude é um colar de oiro colocado no focinho de um porco"; O decurso dos tempos deu-lhe inteira razão. De igual modo, nos alertara Montaigne para o facto de que "A Ciência sem consciência é a ruína da alma".
Numa época diferente em que o problema do homem é saber o que fazer com o saber, Léon Le Carré, em A Casa da Rússia, traduz assim este problema:
"- Mas você também é um perito, não é Goethe?
-Por isso mesmo sei o que digo! Os peritos não passam de uns viciados. Não resolvem nada! São os lacaios de qualquer sistema que os contrate. Perpetuam esse sistema. Quando somos torturados, são peritos que nos torturam. Quando o mundo for destruído, não serão loucos a destruí-lo, mas sim perfeitos sãos loucos a destruí-lo, mas sim peritos perfeitamente sãos e burocratas perfeitamente ignorantes".
Júlio Marques
In, Boletim Centro de Formação Gaia Nascente
publicado por julmar às 18:58
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Teoria e prática na formação de professores . Formigas, aranhas e abelhas

(artigo publicado no Boletim do CFAE Gaia Nascente)

Os filósofos que se meteram a tratar das ciências dividiram-se em duas classes: os empíricos e os dogmáticos. O empírico semelhante à formiga, contenta-se em juntar e consumir em seguida provisões. O dogmático, tal como a aranha, urde teias cuja matéria é extraída da sua própria substância. A abelha conserva o primeiro termo; extrai a matéria das flores dos campos e dos jardins; depois, por meio de uma arte que lhe é própria, trabalha-a e digere-a. A verdadeira filosofia faz qualquer coisa de semelhante.
Novum Organon – F. Bacon


As reflexões que se seguem são-me suscitadas pelas críticas mais frequentes que os formandos fazem em relação ás acções de formação. E todas as críticas representam o ponto de vista do sujeito que as enuncia. A mais comum de todas, referida de formas diversas, é a que refere o carácter excessivamente teórico e pouco prático das mesmas. Sendo razoáveis tais críticas nem sempre são racionais e não se entende muito bem como se deixam conduzir por caminhos que não querem.
É velho, muito velho o conflito entre os teóricos e os práticos e há muito se sabe da sua indissolúvel relação dialéctica. A prática sem a teoria é cega e a teoria sem a prática é inútil. A relação entre o pensamento e a acção constitui um tema essencial do campo educativo.
O que os práticos reclamam é um estatuto de operários executores de receitas que outros lhe forneçam; eles não têm que entender a realidade, outros que a entendam, que a simplifiquem de modo a que eles não tenham que perder tempo a pensar. No campo educativo onde se colocam tantas questões, muitas delas de carácter ético, não se lhe coloca problema nenhum. A eles não lhes interessa fazer perguntas; eles não entendem que a realidade é complexa, o que querem é executar; eles não entendem que possa haver muitos caminhos; eles não sabem que há muitas direcções e é preciso escolher uma; o que querem é andar não interessa para onde.
Em relação à formação a sua palavra de ordem é : Deixem-se de teorias! O que é preciso é resolver os problemas da vida real; Há muitos anos que trabalho nisto, ninguém me venha dizer como é que se faz!
De uma forma simples, onde há pensamento há teoria e as mais simples acções humanas são presididas por teorias. Imaginemos um acto simples(?) de um professor que colocou um aluno fora da sala de aula ( ou que o põe na rua – diferença de linguagem ou ponto de vista?) e pergunte-se-lhe sobre a razão do acto e ver-se-á como de facto ele usou uma teoria; pergunte-se ao mesmo professor por que razão marca TPC e ver-se-á que tem uma teoria; pergunte-se ao mesmo professor por que está a frequentar uma acção de formação e ver-se-á que ele continua a ter uma teoria; o que de facto ele faz é usar modelos (ou teorias) que aprendeu de uma maneira empírica e sobre os quais nunca reflectiu. Usa teorias espontâneas ou implícitas que por serem tão comuns lhe parecem ter um carácter natural de valor inquestionável `a semelhança da física aristotélica que embora falsa é bela e muito nos convém no dia a dia( pois, não é verdade que os corpos caem tanto mais depressa quanto mais pesados são!?; e o sistema geocêntrico não nos continuam a ser muito mais cómodos do que qualquer outro!? )
O trabalho do professor exige-lhe que continuamente tome decisões e só as pode tomar baseado em teorias pois, para citar, quiçá, o maior teórico do nosso tempo, Einstein – É a teoria que decide o que observar.
Kant, no século XVIII, censurou a pior das teorias – a de que a teoria não serve para nada:
« Ninguém, portanto, pode passar por versado na prática de uma ciência e, no entanto, desprezar a teoria sem mostrar que é ignorante no seu ramo: pois crê poder avançar mais do que lhe permite a teoria, mediante tacteios em tentativas e experiências , sem reunir certos princípios ( que constituem propriamente o que se chama teoria) e sem formar para si, a propósito da sua ocupação, uma totalidade.
No entanto, há que tolerar ainda mais que um ignorante apresente na sua pretensa prática a teoria como inútil e supérflua do que ver um espertalhão admitir que ela é valiosa para a escola ( afim de certamente exercitar a sua cabeça), mas afirmar ao mesmo tempo que na prática o não é; que ao sair da escola para o mundo se apercebe de ter andado atrás de ideias vazias e de sonhos filosóficos; numa palavra, que o que é plausível na teoria não tem valor nenhum na prática. »
In, A Paz Perpétua e outros Opúsculos
A formação não pode consistir em meros exercícios de aprendizagens de teorias suportadas em compêndios, fotocópias, acetatos que dizem como se deve ensinar ou como se deve aprender. A formação partindo da experiência ( e dos problemas se os houver) deve reflectir sobre ela e assim promover a substituição de teorias implícitas por teorias explícitas. Isto conduzirá ao confronto entre as teorias e práticas educativas. Para isso o professor terá de ter vagar e disposição. As grandes teorias - e as nossas pequenas teorias - parecem ser filhas da ociosidade : Tales olhando , distraído, para o céu cai num poço; diz-se que a ideia da gravidade terá surgido a Newton quando descansava debaixo de uma macieira e lhe caiu uma maçã em cima ; Descartes conta-nos que o seu projecto de uma ciência universal lhe surgiu quando liberto de cuidados ou paixões passava o dia inteiro fechado no quarto diante de um fogão, livremente dado a seus pensamentos; parece, ainda que foi a olhar para o céu que o homem descobriu a terra; finalmente, tendemos a esquecer que as coisas mais importantes da vida as aprendemos a brincar. Ora, a formação terá de constituir um espaço e um tempo que distanciado do espaço e tempo escola permita sem a urgência da necessidade prática um olhar distante condição de descentração, de reflexão, de conhecimento, de teoria . A identidade profissional, a valorização do professor passa pela sua razão de ser, de saber e de fazer. A sua autonomia funda-se em saber o que faz e porque o faz .
Esse tempo e espaço onde decorre a formação deve ser um lugar de encontro. Encontro de profissionais que pertencentes a níveis diferentes de ensino, com diferentes formações académicas, provenientes de diferentes escolas têm diferentes experiências e diferentes pontos de vista (diferentes teorias) têm aqui a oportunidade de partilharem tudo isso. E todos sabemos como é solitário o trabalho dos professores independentemente da sua escola ter muitos ou poucos professores. E todos sabemos como se pode estar e fazer reuniões de grupo de conselho de turma e outras sem que cada um saia da sua solidão, sem que haja partilha.
Toda a formação só faz sentido como autoformação, atendendo a que se trata de pessoas adultas com elevado nível cultural, com experiência profissional e com continuado desejo de aprender. E tal como não se pode obrigar os alunos a aprender (ainda que estejam na escolaridade obrigatória) o mesmo é verdade na formação de professores (ainda que a formação seja obrigatória). Mas neste domínio como noutros quem mais tem mais necessidade sente: Os alunos que menos precisam de estudar são, quase sempre, os que mais estudam e os encarregados que menos precisam de vir à escola são os que mais aparecem. Alguém disse que a formação começou por ser reivindicada como um direito, se transformou num dever e é suportada como um castigo. Como é difícil passar do reino da necessidade para o reino da liberdade!
As escolas são locais de trabalho e de um trabalho de características especiais. Trabalho de alunos e professores e que como todo o trabalho tem de resultar em produto. E esse produto tem de resultar numa cultura científica que nos leva a uma compreensão dos fenómenos que ultrapasse o mero senso comum. Tal exige dos professores uma atitude científica, uma atitude filosófica, uma atitude artística, se entendermos que é nesta tríade que o homem se realiza
Só faz sentido para o professor a rejeição do estatuto de (mero) funcionário se se assumir não apenas como um executor mas como um planificador, que traça objectivos e escolhe os meios mais eficazes de os atingir e que para o conseguir precisa de uma sólida formação de base bem como uma actualização contínua dadas as mudanças dos públicos que serve e dos conhecimentos que transmite.
Se em nenhum campo é produtiva a separação teoria - prática, no campo da formação/educação tal separação é uma monstruosidade. Cada professor tem descobrir a sua própria luz. Pequena que seja a luz que durante o dia não se vê dá-nos muito jeito durante a noite e a noite às vezes é muito longa. Então, venham os grandes iluminados, os grandes reformadores, os que nos dizem que tudo está a mudar e que precisamos de dar cambalhotas para acompanhar a mudança. Quando a luz deles passar a nossa continuará a iluminar e saberemos que caminho seguir. Mas então não peçamos receitas. Aprendamos artisticamente a encontrar os sabores dos saberes e os saberes dos sabores. Nem formigas, nem aranhas: sejamos abelhas. E entendamos a mensagem de Almada Negreiros:
«E de que serve o livro e a ciência, se a experiência da vida é que faz compreender o livro e a ciência?»

Júlio Silva Marques – Professor de Filosofia
publicado por julmar às 12:14
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Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2012

O Estado a que chegámos

Pensionistas também recebem subsídio de Natal em duodécimos (DE)
O secretário de Estado da Administração Pública, Hélder Rosalino, à saída de uma reunião com os sindicatos da Função Pública, disse que todos os pensionistas, sejam eles da Caixa Geral de Aposentações ou da Segurança Social, recebem em 2013 o subsídio de Natal em duodécimos.
Era suposto estes senhores, pela ideologia que perfilham, quisessem menos Estado e mais autonomia para os cidadãos. Mas não. Dada a infantilidade dos cidadãos em geral e dos pensionistas em particular, consideram que o melhor é serem eles a administrar a bolsa de cada um. Não vão para aí gastá-lo todo de uma só vez.
Que nos retirem dinheiro éstá mal. Que queiram aministrar o pouco que temos, varre de vez a nossa dignidade.
publicado por julmar às 16:00
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A retórica na educação

«A relação Educativa no seio das famílias:Desafios, exigências e armadilhas»
Um belo título de uma conferência a realizar na EB2,3 Soares dos Reis em Vila NOva de Gaia, suponho que por iniciativa da Associação de Pais do agrupamento de escolas. Conferencista, o professor Rui Trindade. Hora de início 9,30.
Eu que me reformei da profissão de professor em Janeiro passado continuo em serviço como cidadão, procurando continuar a aprender as melhores formas de educar. E porque já ouvira o conferencista no passado, tinha quase como garantido que não perderia o meu tempo. É verdade que já da última vez chegara atrasado. Porém, desta vez consegui esperar setenta e cinco minutos, isto é, até às 10.45 minutos. Saí porque ainda não tinha chegado.
Estas são as armadilhas a que nenhuma educação, por mais interessantes conferências e discursos que se façam, que minam a educação, que minam o país.
E fiquei triste.
publicado por julmar às 15:24
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Terça-feira, 4 de Dezembro de 2012

Avaliação dos Professores - Afonso Leonardo

A maior manifestação de um grupo profissional feita em Portugal, foi a dos professores no primeiro governo de José Sócrates, sendo ministra da educação Maria de Lurdes Rodrigues. Ao grande comandante Mário Nogueira, juntou-se na altura o PSD no combate por uma outra avaliação. Qualquer que seja o modelo de avaliação proposto, os sindicatos hão-de querer sempre um outro modelo que, no limite, se reduza a um relatório de autoavaliação. Hão-de faltar sempre condições, instrumentos, formação. E dinheiro também. E continuaremos na mediocracia com um ensino cada vez pior em termos quantitativos e qualitativos. Todo o trabalho que se vinha fazendo na melhoria da qualificação dos portugueses (Novas Oportunidades, Investigação ...) foi destruído em troco de coisa nenhuma.
Iremos continuar sem avaliação durante largos anos. Os custos são incalculáveis. Sem bons professores não há boa educação e ensino. Sem avaliação teremos apenas professores medíocres. Porque não havendo avaliação o que compensa é ser medíocre.
Há mais de um ano que foi assinado um acordo entre o Ministério da Educação e sete sindicatos ( a Fenprof ficou de fora) sobre o modelo de avaliação. Passado um ano e três meses a Direção Geral mandou às escolas uma nota a esclarecer que os professores que precisem de aulas assistidas, para obter a classificação de "excelente" podem pedi-las até ao fim do ano, mas que podem realizá-las só no ano letivo de 2013-2014. O ministério compromete-se ainda a garantir a formação de avaliadores e a definção de critérios homogéneos para a maneira como classificam as aulas a que assistem.
Então, durante este tempo não fizeram o trabalho e vêm agora dizer que o vão fazer? Então, os Centros de Formação de professores servem para quê? E os partidos da oposição, também não fazem o seu trabalho?
Porque as pessoas que trabalham nos serviços do Ministério (que presumo também não são avaliadas)não são exigentes consigo também, por coerência, não são exigentes para com os professores. No fim da cadeia os alunos são avaliados e os resultados são o que se sabe.
publicado por julmar às 11:01
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