Segunda-feira, 19 de Setembro de 2016

Andar por andar

ténis

 Em tempos, fiz uma pequena investigação e publiquei um opúsculo sobre as múltiplas expressões em torno da palavra andar, procurando aí alguma identidade do modo de ser português. Consulte um bom dicionário e ficará pasmado, no caso de ser dado a pasmos, com a quantidade de expressões, tendo, porém, a certeza de que lhe escaparão sempre algumas. Desde andar com o cu às fugas ao andar com o credo na boca com que poderíamos iniciar um discurso para falar do tenebroso tempo da Inquisição. 

A medicina clássica parece ter, recentemente, descoberto as vantagens de andar. A minha médica, excelente profissional,  em tempos que eu levava uma vida sentada, surpreendeu-me, terminando a consulta a receitar-me um par de sapatilhas e um conselho: Ponha-se a andar. Levei a sério a receita e o conselho e não parei de lhe dar cumprimento e estou mesmo em crer que não seria como sou se não me tornasse militantemente andante. Essa é também a experiência que nos conta o escritor japonês Haruki Murakami no seu livro Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo onde ele reflete sobre o que significa correr e como esse fato se refletiu na sua forma de escrever. É no ato de andar que a nossa alma, tantas vezes divorciada do corpo,  se encontra com ele e descobre as suas raízes biológicas e com isso entramos em comunhão com a natureza que nos gerou.   

Por isso, senão pode correr, ande; senão pode andar depressa, ande devagar. Mas ande. O nosso corpo foi feito para andar. A pior descoberta que o homem fez foi a de que se podia sentar e começou a usar o cu para aquilo que não foi feito, para estar sentado, que se podia fixar num sítio, que se podia sedentarizar. E descobriu a agricultura e com ela surge a acumulação a desigual distribuição de recursos, enfim, a dialética do senhor e do escravo. Os homens sedentários precisam de deuses ou, pelo menos de outros deuses.

A essência do homem é ser viajante (via+agere), fazer caminho. A vida é uma viagem. Viver a vida como deve ser é viajar. Por isso, não deve andar para chegar ali ou além, porque ali ou além não estará ninguém à sua espera. Estará você, os companheiros de viagem e as recordações da viagem. Subirá ao mais alto monte e verá, lentamente, o sol desaparecer no horizonte, pela última vez. Nesse momento final, tudo o que conta é a aceitação feliz de a viagem ter chegado ao fim. Pôs-se o sol, a escuridão desceu sobre a terra e não haverá amanhã.

É triste? Não. Triste é ontem não ter andado.

 

publicado por julmar às 16:01
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Segunda-feira, 12 de Setembro de 2016

Leituras de Setembro - O Sentido da Vida Humana

Há um conjunto de perguntas que sempre se me colocaram mas, ultimamente mais insistentemente, e de um ponto de vista diferente. E encontro-as logo no início: «Terá a humanidade um lugar especial no Universo? Qual o sentido das nossas vidas pessoais?» Do ponto de vista da religião, nada há a procurar. A resposta está dada. O ponto de vista que interessa, em termos de conhecimento, é, pois, o científico.

É para essa viagem que o autor nos convida mostrando, demonstrando e argumentando que:

«A humanidade se ergeu pelo próprio pé, através de uma série de eventos que ao longo da evolução se foram acumulando. Não estamos predestinados a atingir seja que objetivo for, tão pouco temos de responderr perante outro que não seja o nosso próprio poder. Apenas a sabedoria baseada numa autocomprensão, e não a piedade, nos salvará. Não haverá redenção nen segnda oportunidade que, de cima, nos venha a ser concedida. É só este planeta que temos para habitar e este sentido que temos para desvendar. Para dar este passo na nossa viagem, para entender a condição humana, precisamos de uma definição de história bem mais ampla do que aquela que convencionalmente é usada» .

E recordo Kant e a sua Crítica da Razão Pura na qual conclui pela possibilidade do conhecimento científico e pela impossibilidade da Metafísica como ciência. E o seu estímulo para que a humanidade no seu conjunto e cada indivíduo em particular tenha a coragem de «SAPERE AUDE!»  (Ousa saber!)

publicado por julmar às 16:20
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Festejar, lembrando Agostinho Gomes

quartil.JPG

 

Estou certo que o poeta ia gostar, que o filho ia gostar, de saber que estávamos em sua casa, na sua quinta a apertar os fios com que se tece a amizade. E, talvez, tenha escrito este poema para nós.

Um dia,

A querer espargir

 Mensagem 

Que mora em ti, 

Sê simples 

Simplesmente. Tu. 

 

Como a água de rasteiras fontes...

Não diz de onde vem,

Não diz para onde vai,

 E mata sedes...

 

Como flor dos caminhos...

Anónima de cor e aroma,

É esperança de viandeiros,

Como seara ondulante...

Música alada

E aceno lento

De fome apaziguada  ...

 

 

publicado por julmar às 12:14
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Quarta-feira, 10 de Agosto de 2016

Turismo em Vilar Maior

turismo.jpgOrganizada pelo blog PORTUGALNOTÁVEL de Carlos Castela, tivemos hoje a visita a Vilar Maior de um grupo de pessoas que, sob a orientação da guia Rita Miguel, apreciaram o nosso património com destaque para a Pia Batismal, Igreja de Nossa Senhora do Castelo e o Castelo. Mais gente que aprendeu um pouco de nós e da nossa história. 

O nosso agradecimento ao Carlos Castela pela divulgação que tem feito do nosso património. 

publicado por julmar às 11:38
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Sábado, 6 de Agosto de 2016

Até um tomateiro sabe

tomate.jpg

 

Não se queixe da origem humilde em que nasceu, dos pais que eram pouco instruídos, da dureza da infância, enfim, de que o meio onde nasceu era muito limitador. Haverá sempre uma nesga de terra onde poderá crescer, florir e dar fruto.

publicado por julmar às 11:54
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Quinta-feira, 21 de Julho de 2016

Revisitando Aristóteles

ética.png

 Quanto mais lemos Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.) mais aumenta a nossa admiração pela sua obra. Pela sua extensão e pela sua qualidade. Organizar, compreender e explicar o ser em todas as sua manifestações, com os meios existentes à época é algo de extraordinário: Metafísica, Cosmologia, Física, Biologia, Lógica, Gramática, Retórica, Psicologia, Ética, Política, História dos Animais ... não é para qualquer um. Bem tentam mexer na gramática, dar nomes diferentes às coisas, mas o que prevalece sempre é a gramática fundada por Aristóteles. A Física de Aristóteles nada tem hoje que cientificamente se aproveite. Porém, é de uma beleza ímpar, e, no dia-a-dia, é a que utilizamos. Ainda continuamos a ver o mundo e a vida com os olhos de Aristóteles.

«A julgar pela vida que os homens levam em geral, a maioria deles, e os homens de tipo mais vulgar, parecem (não sem um certo fundamento) identificar o bem ou a felicidade com o prazer, e por isso amam a vida dos gozos. Pode-se dizer, com efeito, que existem três tipos principais de vida: a que acabamos de mencionar, a vida política e a contemplativa. A grande maioria dos homens se mostram em tudo iguais a escravos, preferindo uma vida bestial, mas encontram certa justificação para pensar assim no fato de muitas pessoas altamente colocadas partilharem os gostos de Sardanapalo2

Ora, nós chamamos aquilo que merece ser buscado por si mesmo mais absoluto do que aquilo que merece ser buscado com vistas em outra coisa, e aquilo que nunca é desejável no interesse de outra coisa mais absoluto do que as coisas desejáveis tanto em si mesmas como no interesse de uma terceira; por isso chamamos de absoluto e incondicional aquilo que é sempre desejável em si mesmo e nunca no interesse de outra coisa. 

Ora, esse é o conceito que preeminentemente fazemos da felicidade. É ela procurada sempre por si mesma e nunca com vistas em outra coisa, ao passo que à honra, ao prazer, à razão e a todas as virtudes nós de fato escolhemos por si mesmos (pois, ainda que nada resultasse daí, continuaríamos a escolher cada um deles); mas também os escolhemos no interesse da felicidade, pensando que a posse deles nos tornará felizes. A felicidade, todavia, ninguém a escolhe tendo em vista algum destes, nem, em geral, qualquer coisa que não seja ela própria ; mas fazê-lo à pessoa que convém, na medida, na ocasião, pelo motivo e da maneira que convém, eis o que não é para qualquer um»

publicado por julmar às 17:56
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Quarta-feira, 20 de Julho de 2016

Discurso sobre a servidão voluntária

Boetie.png

 

 Étienne de La Boétie (1530-1563) e Michel de Montaigne (1533-1592) foram dois grandes humanistas do século XVI - um tempo prodigioso que rompe com o passado e lança as bases do ocidente moderno - que mutuamente se admiravam. Era um tempo em que a política era pensada não, ou não apenas, como um jogo de estratégias e táticas mas baseada nas virtudes e, por via disso, no assentamento do bem. 

Mas a natureza da tirania não se coaduna com a virtude e, o tirano só se pode manter, pela prática continuada do mal, organizando uma rede onde envolve toda a sociedade:

  «Sempre foi a uma escassa meia dúzia que o tirano deu ouvidos, foram sempre esses os que lograram aproximar-se dele ou ser por ele convocados, para serem cúmplices das suas crueldades, companheiros dos seus prazeres, alcoviteiros suas lascívias e com ele beneficiários das rapinas. Tal é a influência deles sobre o caudilho que o povo tem de sofrer não só a maldade dele como também a deles. Essa meia dúzia tem ao seu serviço mais seiscentos que procedem com eles como eles procedem com o tirano. Abaixo destes seiscentos há seis mil devidamente ensinados a quem confiam ora o governo das províncias ora a administração do dinheiro, para que eles ocultem as suas avarezas e crueldades, para serem seus executores no momento combinado e praticarem tais malefícios que só à sombra deles podem sobreviver e não cair sob a alçada da lei e da justiça. E abaixo de todos estes vêm outros. 

Quem queira perder tempo a desenredar esta complexa meada descobrirá abaixo dos tais seis mil mais cem mil ou cem milhões agarrados à corda do tirano; tal como em Homero Júpiter se gloria de que, puxando a corda, todos os deuses virão atrás.» 

E termina com um belo texto sobre a amizade

«A verdade é que o tirano nunca é amado nem ama. 

A amizade é uma palavra sagrada, é uma coisa santa e só pode existir entre pessoas de bem, só se mantém quando há estima mútua; conserva-se não tanto pelos benefícios quanto por uma vida de bondade. 

O que dá ao amigo a certeza de contar com o amigo é o conhecimento que tem da sua integridade, a forma como corresponde à sua amizade, o seu bom feitio, a fé e a constância. 

Não cabe amizade onde há crueldade, onde há deslealdade, onde há injustiça. Quando os maus se reúnem, fazem-no para conspirar, não para travarem amizade. Apóiam-se uns aos outros, mas temem-se reciprocamente. Não são amigos, são cúmplices. 

Ainda que assim não fosse, havia de ser sempre difícil achar num tirano um amor firme. É que, estando ele acima de todos e não tendo companheiros, situa-se para lá de todas as raias da amizade, a qual tem seu alvo na equidade, não aceita a superioridade, antes quer que todos sejam iguais. 

Por isso é que entre os ladrões reina a maior confiança, no dividir do que roubaram; todos são pares e companheiros e, se não se amam, temem-se pelo menos uns aos outros e não querem, desunindo-se, tornar-se mais

fracos». 

publicado por julmar às 17:28
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Segunda-feira, 20 de Junho de 2016

Visitando escritos de Agostinho da Silva

Pense por si próprio 

Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não são seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição, venha a pensar o mesmo que eu; mas, nessa altura. já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem.

Agostinho da Silva, in 'Cartas a um Jovem Filósofo

publicado por julmar às 18:24
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Pessoas e lugares da minha vida - A minha manhã submersa 4

Évora 6º ano.jpg

 Ali estás tu metido numa sotaina preta, apertada por uma faixa vermelha a treinar para um ofício que nunca virás a exercer. Lá estão os velhos companheiros que contigo vieram de Beja e os que aqui vieste encontrar em Évora, incluso alguns timorenses. O menino que foras, era agora um adolescente que frequentava aulas de Filosofia lecionadas pelo canónico Júlio Chorão, ficando tu muito longe de perceberes o que era a filosofia; decoraste e nunca mais esqueceste as figuras dos silogismos (BARBARA, CELARENT, DARII, FERIO...) a partir do grosso e pesado Manuale Philosophiae, ad usum seminariorum, de I. Di Napoli. Assim mesmo, filosofia estudada em latim. A ilustração, o espírito crítico, a interrogação havias  de as construir a partir da tua desconfiança e dúvida sobre as irracionalidades em que tropeçavas a todo o momento. Fé, precisas de ter fé. Não rezas porque tens fé, rezas para teres fé: Senhor, aumentai a nossa fé pedias num circulo vicioso que não deu em nada. Queriam que tu fosses transparente mas  tu só podias dizer que sim que acreditavas, que amavas Deus e a Virgem e que seguias todos os preceitos da Igreja católica, apostólica e romana e que querias de todo o coração ser o eleito do Senhor. E tu, sem o saberes seguias o conselho daquele que viria a ser o teu apreciado Espinoza: Obediência na ação, liberdade no pensamento. Talvez por isso, te achassem tão enigmático e obscuro. Como se pode ser transparente num ambiente de pressão, repressão e de violência? Por que lhes darias tu acesso ao teu pensamento, aos teus projetos? Como lhes confessarias esse pecado da desobediência ao pensamento único? E tinhas que suportar a palavra de Deus, escolhida de propósito para com ela te zurzirem, a torto e a direito, de manhã, ao meio dia e à noite, todos os dias: que sois sepulcros caiados, que são muitos os chamados e poucos os escolhidos, que por isto e por aquilo serás um condenado ao inferno, um fariseu, um maldito que no juízo final tomarás a esquerda do Deus todo poderoso. E mostraram-te o Inferno onde as almas dos condenados ardiam em chamas eternas!

Mas o mundo estava a mudar, a Igreja também. Às escondidas, lá ias lendo (não entendendo muito do que lias) sobre as dissidências, os padres operários, a teologia da libertação, os cadernos da GEDOC de Nuno Teotónio Perereira e dos padres Feliciano Alves e Abílo Cardoso que nesse ano de 1969 haviam tido início. Bem que o Madureira (que viria a ser bispo) quis entrar no teu mundo, com perguntas  e mais perguntas ficando a saber o mesmo. Nada.É verdade que te quis pôr fora do seminário. Um tal padre Urbano, de Beja, opôs-se. E tu lá foste para o Seminário Maior de Coimbra depois de teres aprendido as figuras dos silogismos, a iniciação ao grego, a Literatura com o Sebastiaõ, a continuação do latim com o Sardo e o grupo polifónico com o Alegria. Todos padres, cónegos, doutores. 

 

publicado por julmar às 18:20
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Lugares da minha vida

fott.jpg

Por aqui me demorei a dissipar sombras

Dependência do externato Pedro Nunes na Av. da República. Anos 80. Aqui lecionava Filosofia, à noite, a alunos trabalhadores de profissões várias. Guardo memória de um solicitador a quem nunca consegui fazer uma avaliação clara: Uma escrita tão floreada que toda a folha ficava quase sem espaços vazios; na parte oral, debalde o interrogava, porque ocupava toda a conversa, não dando possibilidade de ser questionado. Não era fácil, entre a extensa matéria, fazer-lhes entender a Crítica da Razão Pura de Kant ou a Dialética hegeliana. Hoje, os azulejos cansados desprendem- se da parede e um cadeado na porta impede a entrada de visitas indesejáveis

publicado por julmar às 12:33
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Quarta-feira, 15 de Junho de 2016

Leitura de Junho

Depois da leitura de Mein Kamppf, fui tentar encontrar a resposta  como é que um homem movido pelo ódio, incapaz de estabelecer relacionamentos humanos normais, surdo a argumentos que não fossem os seus, se tornou num líder tão carismático que galvaniza um povo  e o conduz a uma  tão inimaginável situação? Como foi possível Hitler tornar-se uma figura com um poder tão atraente para milhões de pessoas?

Aquilo que aconteceu pode voltar a acontecer. Ou melhor, acontece todos os dias em dimensões diferentes e os ingredientes são sempre os mesmos: Obediência, pensamento único, fanatismo, dogmatismo, fé, fé incondicional e  uma causa que nos transcenda, única e absoluta. Depois é mandar rufar tambores, criar rituais, uniformes e sinais (ou o sinal) agitar bandeiras, cantar o hino e pregar, repetidamente, a causa das causas. Dividir os homens entre bons e maus. Banalizar o mal. O terror e o medo farão o resto. E este é um caminho fácil porque é feito de preguiça racional, de obediência cega, da expressão natural das emoções, do viver por delegação, do dizer sim e, sobretudo, da ausência de coragem. 

Maiis uma vez, para ler este livro não precisa de gastar dinheiro. Faça um download.

publicado por julmar às 11:21
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Quinta-feira, 9 de Junho de 2016

Marcelo Presidente

Não votei em Marcelo. Porém, no tempo que já leva como presidente, está a convencer-me. Ao contrário, de muita gente que nunca sai da sua, que nunca perde a razão, eu gosto de ser persuadido por palavras e convencido por acções. Bem que precisamos de políticos bem dispostos, inteligentes, cultos e cuidadores do bem comum.  

publicado por julmar às 16:59
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Segunda-feira, 6 de Junho de 2016

Leituras longas

Já o disse, noutro sítio, que um bom livro é o que nos faz bem: por ser instrutivo, por nos deleitar, por nos fazer rir ou chorar, por confirmar ou infirmar uma ideia, por nos abrir uma porta ou janela. Isso não tem a ver com o livro ser grande ou pequeno, com ter sessenta ou seiscentas páginas. No presente livro foram 872 páginas para contar a história de trinta e dois reis. Ao ler tanta página veio-me à memória o pedido de desculpa do filósofo francês M. Montaigne (1533-1592) a um seu amigo, por lhe escrever uma carta tão comprida, por não ter tido tempo para lhe escrever uma mais curta.

E um livro, seja de  matemática, física ou literatura, ou nos entusiasma ou não presta.

publicado por julmar às 11:31
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Leitura de Maio

Porque lemos os livros que lemos? Porque vão de encontro aos nossos interesses, às nossas necessidades, porque procuramos respostas a perguntas que nos colocamos. O que leva certas pessoas a mudarem o curso da história dos povos e da humanidade. No caso presente, como foi possível que um rapazito, nascido num recanto da Áustria, filho de uma família humilde, sem o concurso de pessoas influentes, com morte do pai e da mãe, muito antes da idade adulta, se tenha tornado tão poderoso a ponto de ter estado próximo do domínio total da humanidade? O fanatismo é, em todos os tempos, seja religioso ou ideológico, o principal inimigo do homem. Daí a importância de uma educação baseada no espírito crítico, na cultura do espírito científico e na atitude filosófica. E também podemos aprender com Hitler, nomeadamente, na defesa do estudo da História, cujas lições do passado nos devemservir para o presente. 

E já agora, uma sugestão: Não compre o livro. Faça um download no seu computador ou smatphone.

publicado por julmar às 10:58
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Terça-feira, 31 de Maio de 2016

Aprendizes de filosofia

Epílogo

Porque aprendemos que de muitos caminhos singulares se faz um caminho comum,

Porque das múltiplas diferenças se faz a paisagem,

Porque por trás do diferente encontramos ou igual,

Porque aprendemos a filosofar

Sabemos

simplificar o complexo

complexificar o simples

sabemos

que o parente é real

que o real é aparente

sabemos

que o familiar encobre o insólito

que o óbvio é o inexplicável

e, sobretudo, sabermos

Das dúvidas que recaem em nosso saber

Das interrogações, quais linhas do horizonte,

Que desfeita uma, outra se levanta…

até ao fim

publicado por julmar às 16:50
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Segunda-feira, 30 de Maio de 2016

Aprendizes de filosofia

aprendizes capa.jpg

 A arrumar papéis vou encontrando algumas relíquias. Como este livro feito pelos meus alunos. Eu apenas escrevi o prólogo e a introdução a cada temática. Aí reencontrei a minha alma de professor de filosofia.

Prólogo

Hesitámos na escolha do termo prólogo, pois que outros - prefácio, preâmbulo, prelúdio - se apresentavam capazes de cumprir a função. Optámos por este por nele se conter um significado essencial ao filosofar - o logos que nos obriga a encontrar as razões a favor dos discursos que se seguem.

A filosofia depois de Sócrates, na academia de Platão, no liceu de Aristóteles, nas universidades medievais, modernas e contemporâneas tornou-se discurso escrito que, na solidão de quem escreve e de quem lê, permite a reflexão elaborada que ia fluência do falar não consegue. Mais do que na fala é na escrita que experimentamos a dificuldade em nos exprimirmos com rigor e clareza e nos descobrimos no nosso (não) saber. Quem aprende filosofia tem de passar, necessariamente, de uma forma consciente, por essa experiência. Experiência difícil nos tempos que correm pouco propícios à experiência do filosofar, dada a falta de vagar, a procura do espetacular e de distração incessante, da extensão do fast e do pronto a consumir, a todos os momentos da vida, das incontáveis solicitações exteriores, das novidades que, de tantas, já nenhuma nos provoca!. Por outro lado, os vícios adquiridos ao longo dos nove anos de vida escolar criam uma má disposição para a filosofia.

Porém, quando se têm jovens como os que fazem o presente trabalho é possível minimizar e ultrapassar as referidas dificuldades e ensaiar passos na aprendizagem do filosofar. Cada um, de acordo com os seus interesses e capacidades, com diferentes graus de envolvimento e de desempenho, como é natural. A esperança de um professor de filosofia é que todos aprendam a pensar melhor, a pensar diferente, de que encontrem uma estrada, um caminho ou uma simples vereda que os conduza, mais do que  ao conhecimento do mundo e dos outros, à descoberta de si mesmos. Como Platão nos ensinou (e nos continua a ensinar), aos aprendizes não lhe podemos dar os olhos mas podemos orientar-lhes o olhar: para ficarem confundidos, primeiro; para verem claro, depois. Talvez que alguns não cheguem a sair das trevas; talvez que outros, sentindo-se confusos, prefiram retornar à segurança que a ignorância proporciona; seguramente que alguns descobriram a luz, a sua luz.

 Partimos para este trabalho como uma necessidade de materializar na escrita alguns percursos, algumas ideias. Não é por se ter aprendido bem na catequese que se é um bom cristão; também não se é bom filósofo por se terem aprendido todos os conceitos. Por isso, lemos para aprender, escrevemos para aprender, ainda e sempre, na tentativa de nos experienciarmos a filosofar. Cada um saberá em que medida o conseguiu.

E tinha de haver, semprem uma aula Peripatética

aprendizes.jpg

 

 

publicado por julmar às 19:25
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Quarta-feira, 11 de Maio de 2016

Leitura de Maio

Uma questão que atravessa a história da filosofia é uma questão de ordem prática:Como devemos conduzir a nossa vida? Ou dito de outa maneira: Como ter uma vida boa? Ou, ainda, de modo mais comum como alcançar a felicidade?

A Filosofia ocidental, na qual me instruí, de pendor dominantemente racionalista, responde que tal implica uma definição do que é o bem e uma conduta racional para o atingir, quer se trate do "conhece-te a ti mesmo socrático", da ascese platónica ao mundo as Ideias, ou do imperativo categórico kanteano.

Ora, os filósofos chineses ensinam-nos caminhos que não passam por aí.

A ideia de um mundo fragmentado e imperfeito, a importância dos rituais, a importância das pequenas coisas, a cultura como uma construção, a imprevisibilidade são entre outras, ideias que há muito alimento.

E eu fico feliz quando encontro ideias que se opõem às minhas, ou divergem apenas, e, será, certamente, um caminho aberto à leitura dos filósofos apresentados pelo autor. 

Em jeito de conclusão, diz o autor

Neste mundo fraturado e fragmentado, compete-nos a nós criar ordem. Somos nós que construímos o e que lhe damos padrões, não vendo-nos livres das emoções humanas com que é difícil lidar, esta coisa confusa que nós somos, mas começando precisamente aí. E fazemos isto através da autocoltivação diária: esforçando-nos através dos nossos rituais para melhorarmos o modo como nos relacionamos com aqueles que no rodeiam; cultivando energias nos nossos corpos, para podermos viver com mais vitalidade; treinando os nossos corações e mentes para tomarmos decisões diárias de uma maneira poderosamente diferente; e resistindo à nossa tendência para nos esquivarmos à experiência, a fim de estarmos permanentemente recetivos a coisas novas.

 O processo de construir um mundo melhor nunca termina, porque as nossas tentativas de criar relações melhores nunca têm fim. Mas tal como aprendemos a melhorar as nossas relações, aprendemos a alterar situações e, dessa forma, a criar um número infinito de novos mundos. Abrir-nos-emos às possibilidades existentes nas ideias filosóficas, que indicam o caminho para uma vida boa.

Se o mundo está fragmentado, então dá-nos todas as oportunidades de construirmos o mundo de uma maneira nova. A começar pelas mais pequenas coisas da nossa vida diária, em que podemos alterar tudo. Se começarmos por aí, então está tudo na nossa mão.

publicado por julmar às 11:04
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Segunda-feira, 9 de Maio de 2016

A terra do Calhas

Entre as palavras que definem a lusa gente, temos o verbo calhar. Às vezes vem mesmo a calhar por que se ajusta ao que era esperado, porque convém assim, porque encaixa como uma luva, porque chegou no momento próprio. Trata-se do Calhas em maré de sorte. Porque, por natureza, o Calhas umas vezes calha bem, outras vezes calha mal. Quando calha bem, diz-se ‘veio mesmo a calhar’; quando calha mal, é a vida. Mas o Calhas não tem origem, nem história, nem causa. Simplesmente acontece. Ele é um princípio básico do (des) conhecimento. É mesmo o contrário do princípio explicativo da realidade, isto é, do princípio de razão suficiente segundo o qual tudo o que acontece tem uma causa. Por isso, é um bom aliado do espírito preguiçoso que ‘deixa o marfim correr’, parente do ‘fia-te na virgem’. Mas, apara além de ser um princípio de conhecimento e aprendizagem ele é também um princípio de ação segundo o qual não é necessária preparação ou plano para atingir um objetivo, basta fazer ao calhas. Se calhar corre mal e ainda bem que não se investiu muito, senão o prejuízo seria maior. E até calha que às vezes o Calhas tem razão, porque até um relógio parado está certo duas vezes ao dia. E porque o calhas às vezes dá certo, depressa nos dão como incentivo empreendedor o conselho de ‘atirar o barro à parede’   Portugal é a terra do Calhas. Ele está entre nós, ele está dentro de nós. Bem que cada português podia acrescentar Calhas ao seu nome. Do Calhas é que depende tudo: do juiz que nos calha, do examinador que nos calha, do professor que nos calha, do médico que nos calha, do polícia que nos calha, da mulher/homem que nos calha. Até há quem defenda que o achamento do Brasil foi obra do Calhas e que a história de Portugal é quase no seu todo obra dele. A ser assim, deveríamos encontrar forma de o materializar e fazer um monumento em sua honra.

publicado por julmar às 21:18
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Apaixone-se!

Apaixone-se. Apaixone-se por uma balada, por um poema, por uma flor, por um monumento, por uma paisagem, por um bicho, por uma mulher, por um homem. Mas nãose esqueça de pensar e não esqueça que a paixão é o estado em que mais vemos as coisas da maneira como não são.

publicado por julmar às 21:13
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Sexta-feira, 6 de Maio de 2016

Sabia que as ideias mais comuns são ideias falsas?

Pode ser um pouco assustador aceitar a ideia de que as ideias mais comuns são ideias falsas. O que nos permite  afirmar a falsidade dessas ideias é uma forma de conhecimento diferente: o conhecimento científico. Como se trata de um tipo de conhecimento recente na história da humanidade e porque aquelas ideias desempenham um papel fundamental nas crenças e na visão do mundo elas continuam dominantes e a ser transmitidas de geração em geração. Além disso, essas ideias respondem muito eficazmente a questões fundamentais para o homem, nomeadamente as ligadas à religião que, nas palavras de Hegel, «é a filosofia dos ignorantes». Por outro lado, as ideias científicas contradizem, muitas vezes a nossa experiência comum: o que nos é familiar e evidente, por exemplo, a ideia de que o sol gira à volta da terra. Até há pouco tempo a vida dos homens não dependeu do verdade das ideias. Ideias falsas podem até ser extremamente eficazes, como se comprova pela historia. Porém, cada vez mais, a sobrevivência da humanidade estará dependente da verdade do conhecimento científico, sendo já indispensável à sua sobrevivência. Estaremos, por boa ventura, no início de um novo iluminismo.

Até hoje, a religião foi o principal travão ao desenvolvimento da ciência. É inerente ao espírito cienrífico uma atitude de crítica, de dúvida, de tolerância e de humildade que lhe permitirá, num espírito evangélico, fazer bem a quem lhe fez mal.

publicado por julmar às 10:46
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