Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017

Tristeza Solene, o livro do ano

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Conheci o autor acerca de trinta e seis anos, colegas que fomos, no oficio de professores de Filosofia, na Escola Secundária Raínha Santa, no Porto. Até poderíamos continuar a trabalhar juntos (Formação de professores) não fosse o meu impedimento burocrático da minha condição de professor não efectivo. Faz algum tempo descobri o Aires no Facebook, a maior rua do mundo e soube da sua condição de músico e de escritor. Assisti ao lançamento do seu livro na Casa da Cultura de Paredes. Acabei agora de ler o livro, e fico sem palavras para dizer o quanto fiquei maravilhado pela construção desta obra. Soube-me bem reencontrar um período que me é querido e dois autores - Giordano Bruno e Nicolau de Cusa - para os quais me despertou o saudoso professor Júlio Fraga. É preciso muita imaginação e talento para contar várias histórias numa história (o recurso ao itálico, ao negrito...). Enfim, um livro de leitura difícil e como tal há-de ter poucos leitores, mas bons. Sobre a escrita, nada como saborear este extrato do capítulo V:
 
Da profunda escuridão noturna irrompe Bruno iluminado, anda comigo, digo-lhe que não e ele insiste, que a alma da cidade é noite sem fim, que a noite é uma avenida por onde caminhamos espetros, que habitar a noite é devorá-la e cravá-la nas entranhas. Com uma vontade arrasada, fui atrás dele. Rompemos as trevas passo a passo. Uma lúgubre cerração entranhou-se-me no corpo e estremeci em arrepios quando a amálgama de gemidos sufocados me agrediu. Dois homens no chão eram espancados pelas matracas de um grupo mascarado. Bruno agarrou-me e não deixou acudir, o seu olhar faiscava o ódio retorcido das palavras, drogados bêbados mendigos prostitutas. Este mundo não é nosso! Quis desfazê-lo escarrardes-lhe a cara, mas senti-me sufocar e não fui capaz.
Como um sonâmbulo engoli As ruas da cidade, como um doido desmembrei-me e despejei os meus destroços nas lixeiras, deitei-me com os sem-abrigo, droguei-me com os drogados, emborrachei-me com os bêbados e com eles cambaleei e vomitei, pedinchei com os mendigos, fiz-me prostituta dos becos malditos e fui para a cama com todos os deserdados do amor Pág. 65

 

publicado por julmar às 15:33
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Segunda-feira, 4 de Dezembro de 2017

Chegada a Istambul, passo a passo

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Contar: Fazer contas, calcular, para construir um um conto sobre uma conta. Início de viagem: Vila Nova de Gaia,14 de janeiro de 2016. Sempre, quase sempre manhã cedo, muitas vezes antes do nascer do sol, com frio, geada, neve e sol. Todo o tempo é bom para andar. Chegada a Istambul, passados 688 dias, percorrida uma distância de 6728 Km, com uma média diária de 9,8 km diários, a uma velocidade média de 5km hora, totalizando 1345 horas. E porque toda a rota que subiu até Moscovo e desceu até Istambul foi feita passo a passo, quantos passos foram precisos? 

9 985 768 - nove milhões novecentos e oitenta e cinco setecentos e sessenta e oito. 

Tudo registado pelo meu inseparável companheiro - o iphone.

Esta é a conta, o conto virá depois.

 

publicado por julmar às 21:22
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Quarta-feira, 8 de Novembro de 2017

Leituras de menino - O lavrador da arada

Ao pegar num dos meus livros da Primária e ao abri-lo ao calhas, apareceu assim este texto que faz parte do folclore tradicional da Beira Alta. 

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Vindo um lavrador da arada,                    Lá pela noite adiante

Encontrou um  pobrezinho;                      O pobrezinho gemia;          

E o pobrezinho lhe disse:                         Levantou-se o lavrador

- Tenho fome e tenho frio,                       A ver o que o pobre tinha.

Leva-me no teu carrinho.   

                     

Deu-lhe a mão o lavrador,                      Deu-lhe o coração um baque,

E no seu carro o metia;                          Como ele não ficaria!

Levou-o para sua casa                           Achou-o crucificado

Prà melhor sala que tinha.                      Numa cruz de prata fina.

 

Mandou-lhe fazer a ceia                         - Meu Senhor, se eu tal soubera,

Do melhor manjar que havia;                 Que em minha casa Vos tinha,

Sentou-o à sua mesa,                            Mandara fazer preparos

Com  sua mão o servia                          Do melhor que encontraria.

Mas o pobre não comia.

 

Mandou-lhe fazer a cama                        - Cala, cala ó lavrador,

Da melhor roupa que tinha:                    Não fales com fantasia,

Por baixo damasco roxo,                        No Céu te tenho guardadas

Por cima cambraia fina.                          Cadeira de prata fina,

                                                                Tua mulher a teu lado,

                                                                Que também o merecia.

 

 

publicado por julmar às 15:36
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Quinta-feira, 12 de Outubro de 2017

Leitura a não perder

Image result for sapiens uma breve história da humanidade

“Dependerá a felicidade, realmente, de nos iludirmos a nós mesmos?” pg 457
Dos muitos bons livros lidos até hoje, este há- de ocupar um dos primeiros lugares. Não por virtude das respostas que dá mas das perguntas que coloca. Para os crentes, não apenas dos que acreditam na vida eterna mas de qualquer outro paraíso terrestre, há -de causar- lhes grande perplexidade (ou infelicidade). A mim trouxe-me grande consolo: afetivo, por saber que não estou só; intelectual por sentir expostas, de forma clara e fundamentada, muitas das minhas ideias, entre as quais, o poder da imaginação e das histórias que construímos

publicado por julmar às 11:52
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Terça-feira, 26 de Setembro de 2017

A Vila - vista noturna

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Fotografia de Marco Simão Santos

Vilar Maior é a aldeia mais bonita do concelho do Sabugal. Não por ser a minha terra, mas porque nenhuma outra tem uma disposição topográfica que a favoreça tanto. Desta vez, é-nos dado poder usufruir de uma panorâmica noturna.

 

 

publicado por julmar às 11:12
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Quinta-feira, 31 de Agosto de 2017

A Coruja de Minerva

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                       A Coruja de Minerva levanta vôo ao anoitecer - Hegel

Chegado a uma idade bem madura, espero que não esteja passado, dou comigo a fazer uma coisa que só pode fazer quem já tem muito caminho andado: desaprender. Eu que passei toda a vida a dizer e a praticar a experiência do aprender, dou- me conta que quem não desaprender ficará pelo conhecimento mas não chegará ao saber; eu que passei tanto tempo na procura da racionalidade correndo o risco de me tornar um logopata, dou-me agora conta de que quem não chegar à razoabilidade apenas terá encontrado um caminho sem saída. Podemos não chegar ao saber do sabor mas é possível chegar ao sabor do saber. Sem pretensões, se isto não é sabedoria, será, pelo menos a porta de entrada

publicado por julmar às 12:54
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Sexta-feira, 11 de Agosto de 2017

Andar - Cálculos

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A viagem mais longa que um homem deve fazer é a que tem de percorrer até se encontrar. Foi esse o conselho imperativo de Sócrates: "Conhece-te a ti mesmo".  É uma longa estrada que tem de ser feita cada dia. Cada um a fará (ou não) a seu jeito. A minha é feita passo a passo e para me não perder nas voltas, voltei aos primitivos cálculos: cada volta um cálculo (pequenina pedra). Depois mudei para um ramo com folhinhas. Tudo estratagemas para que não se perca o essencial. E aprender por experiência a origem do cálculo.

 

publicado por julmar às 11:21
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Quinta-feira, 3 de Agosto de 2017

A sombra do viajante

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Todos os dias do ano faça chuva ou faça sol o caminhante faz a sua viagem. Moscovo ficou lá para norte e os olhos estão postos em Istambul. Passo a passo, é o segredo.

 

publicado por julmar às 11:31
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Quarta-feira, 2 de Agosto de 2017

Migalhas filosóficas

Lendo o "Humano e o Divino" de Maria Zambrano, dei comigo a escrever assim:

O mundo é hoje demasiado barulhento, demasiado colorido, demasiado cheio de coisas, de coisas inúteis, atulhado de objectos, de pessoas: reino submerso de massas, de quantidades, de séries, de filas, de atropelos, engarrafamentos; um mundo demasiado cheio de lixo e de luxo. Por isso o espaço diminuiu. A estrada alargou para passarem carros e depois voltou a alargar para passarem mais carros. A quinta com o solar abandonado foi arrasada para construírem habitações, umas por cima das outras para poupar espaço para fazer um espaço comercial mais um health club no sítio onde os garotos jogavam à bola.

E quanto ao tempo ninguém o tem em quantidade suficiente. Ao contrário do espaço que se compra e se vende (e por isso uns têm muito, outros pouco e outros não têm nenhum e por isso têm de pedir por favor para estarem em qualquer sítio porque ainda se não descobriu uma forma de contornar a lei que afirma que os corpos ocupam espaço, embora no parlamento se ergam frequentemente vozes contra a pouca vergonha que é para a nação andarem por aí indivíduos sem nem eira beira por sítios de primeira a espantar o turista  e a dar uma imagem que não é a do país real. Verdade seja dita que até já têm sido construídos abrigos para eles) o tempo cada um tem o que tem - vinte e quatro horas por dia durante tantos dias quantos Deus quiser  ou a medicina comprar. As pessoas levantam-se com pressa, andam depressa, comem depressa, fornicam depressa, escutam à pressa; de manhã vestem os filhos à pressa, levam-nos à escola com pressa e à noite vão buscá-los com pressa , dão-lhe de comer à pressa, e deitam-nos depressa. Oxalá morram com pressa  depressa porque a velhice não corre.

O tempo. Vai e não volta. É irreversível. Só a memória o recupera. Ao contrário do espaço que nos é exterior e nos pode ser usurpado ninguém nos pode tirar o tempo que é nosso.

 

publicado por julmar às 19:40
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Terça-feira, 1 de Agosto de 2017

Obrigado pelo atraso

Resultado da sua pesquisa para obrigado pelo atraso

Acompahei a evolução da tecnologia informática desde o meu primeiro computador um Spectrum (qualquer coisa, uma relíquia que guardo) até ao Iphone e, por isso, pude entender muito do que o autor nos transmite neste livro. Eu, que me admiro por tudo e por nada, fico maravilhado com a tecnologia. E um pouco assustado também, mas o pior é não querer ver o que se está a passar e meter a cabeça na areia. O autor, com todo o fundamento, traça-nos um quadro do mundo que nos espera e da urgênca de nos prepararmos para ele, pois, o grande problema é a nossa capacidade de adaptação a mudanças tão rápidas e tão profundas. 

A sua tese é a seguinte: para entender o século XXI, precisamos de entender que as três maiores forças do planeta - A Lei de Moore (tecnologia), o Mercado (globalização) e a Mãe Natureza (alterações climáticas e perda de biodiversidade) estão em aceleramento simultâneo.

publicado por julmar às 12:13
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Leituras breves

Wook.pt - Trás-Os-Montes, o Nordeste

Tal como os homens, também os livros não se medem aos palmos. Este livrinho de Rentes de Carvalho vale a pena ser lido por aqueles que como eu têm uma aldeia e um dia a deixaram. Lendo este livrinho somos transportados a um mundo perdido que  se agara a nós como um náufrago em busca de salvação. E eu vou-lhe lançando algumas bóias.

publicado por julmar às 10:49
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Terça-feira, 18 de Julho de 2017

Poemas da minha vida

 

 

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O poema maior que conheço. Um dos poemas da minha vida a par de outros dois extensos poemas: O Operário e construção e Sôbolos Rios.

A Álvaro de Campos a dedicação intensa de todos os meus avatares.
Foi escrito durante os três dias e as três noites que 
durou a revolução de 14 de Maio de 1915



Ergo-Me Pederasta apupado d'imbecis, 
Divinizo-Me Meretriz, ex-líbris do Pecado, 
e odeio tudo o que não Me é por Me rirem o Eu! 
Satanizo-Me Tara na Vara de Moisés! 
O castigo das serpentes é-Me riso nos dentes, 
Inferno a arder o Meu Cantar! 
Sou Vermêlho-Niagara dos sexos escancarados nos chicotes 
dos cossácos! 
Sou Pan-Demónio-Trifauce enfermiço de Gula! 
Sou Génio de Zaratrusta em Taças de Maré-Alta! 
Sou Raiva de Medusa e Danação do Sol! 
Ladram-Me a Vida por vivê-La 
e só Me deram Uma! 
Hão-de lati-La por sina! 
Agora quero vivê-La! 
Hei-de Poeta cantá-La em Gala sonora e dina 
Hei-de Glória desanuviá-La! 
Hei-de Guindaste içá-La Esfinge 
da Vala pedestre onde Me querem rir! 
Hei-de trovão-clarim levá-La Luz 
às Almas-Noites do Jardim das Lágrimas! 
Hei-de bombo rufá-La pompa de Pompeia 
nos Funerais de Mim! 
Hei-de Alfange-Mahoma 
cantar Sodoma na Voz de Nero! 
Hei-de ser Fuas sem Virgem do Milagre, 
hei-de ser galope opiado e doido, opiado e doido... 
Hei-d' Átila, hei-de Nero, hei-de Eu, 
cantar Atila, cantar Nero, cantar Eu! 
Sou Narciso do Meu Ódio! 
- O Meu ódio é Lanterna de Diógenes, 
é cegueira de Diógenes, 
é cegueira da Lanterna! 
(O Meu Ódio tem tronos d' Herodes, 
histerismos de Cleópatra, perversões de Catarina!) 
O Meu ódio é Dilúvio Universal sem Arcas de Noé, só 
Dilúvio Universal! 
e mais Universal ainda: 
Sempre a crescer, sempre a subir... 
até apagar o Sol! 
Sou trono de Abandono, mal-fadado, 
nas iras dos Bárbaros meus Avós. 
Oiço ainda da Berlinda d'Eu ser sina 
gemidos vencidos de fracos, 
ruídos famintos de saque, 
ais distantes de Maldição eterna em Voz antiga! 
Sou ruínas rasas, inocentes 
como as asas de rapinas afogadas. 
Sou relíquias de mártires impotentes 
sequestradas em antros do Vício. 
Sou clausura de Santa professa, 
Mãe exilada do Mal, Hóstia d'Angústia no Claustro, 
freira demente e donzela, 
virtude sozinha da cela 
em penitência do sexo! 
Sou rasto espezinhado d'Invasores 
que cruzaram o meu sangue, desvirgando-o. 
Sou a Raiva atávica dos Távoras, 
o sangue bastardo de Nero, 
o ódio do último instante 
do Condenado inocente! 
A podenga do Limbo mordeu raivosa 
as pernas nuas da minh'Alma sem baptismo... 
Ah! que eu sinto, claramente, 
que nasci de uma praga de ciúmes! 
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo e a Alma dos Bórgias a 
penar! 
Tu, que te dizes Homem! 
Tu, que te alfaiatas em modas 
e fazes cartazes dos fatos que vestes

p'ra que se não vejam as nódoas de baixo! 
Tu, qu'inventaste as Ciências e as Filosofias, 
as Políticas, as Artes e as Leis, 
e outros quebra-cabeças de sala 
e outros dramas de grande espectáculo 
Tu, que aperfeiçoas sabiamente a arte de matar. 
Tu, que descobriste o cabo da Boa-Esperança 
e o Caminho Marítimo da índia 
e as duas Grandes Américas, 
e que levaste a chatice a estas Terras 
e que trouxeste de lá mais gente p'raqui 
e qu'inda por cima cantaste estes Feitos... 
Tu, qu'inventaste a chatice e o balão, 
e que farto de te chateares no chão 
te foste chatear no ar, 
e qu'inda foste inventar submarinos 
p'ra te chateares também por debaixo d'água, 
Tu, que tens a mania das Invenções e das Descobertas 
e que nunca descobriste que eras bruto, 
e que nunca inventaste a maneira de o não seres 
Tu consegues ser cada vez mais besta 
e a este progresso chamas Civilização! 
Vai vivendo a bestialidade na Noite dos meus olhos, 
vai inchando a tua ambição-toiro 
'té que a barriga te rebente rã. 
Serei Vitória um dia -Hegemonia de Mim! 
e tu nem derrota, nem morto, nem nada. 
O Século-dos-Séculos virá um dia 
e a burguesia será escravatura 
se for capaz de sair de Cavalgadura! 
Hei-de, entretanto, gastar a garganta 
a insultar-te, ó besta! 
Hei-de morder-te a ponta do rabo 
e por-te as mãos no chão, no seu lugar! 
Ahi! Saltimbanco-bando de bandoleiros nefastos! 
Quadrilheiros contrabandistas da Imbecilidade! 
Ahi! Espelho-aleijão do Sentimento, 
macaco-intruja do Alma-realejo! 
Ahi! macrelle da Ignorância! 
Silenceur do Génio-Tempestade! 
Spleen da Indigestão! 
Ahi! meia-tigela, travão das Ascensões! 
Ahi! povo judeu dos Cristos mais que Cristo! 
Ó burguesia! Ó ideal com i pequeno 
Ó ideal ricócó dos Mendes e Possidonios 
Ó cofre d'indigentes 
Cuja personalidade é a moral de todos! 
Ó geral da mediocridade! 
Ó claque ignóbil do Vulgar, protagonista do normal! 
Ó Catitismo das lindezas d'estalo! 
Ahi! lucro do fácil, 
cartilha-cabotina dos limitados, dos restringidos! 
Ai! dique-impecilho do Canal da Luz! 
Ó coito d'impotentes 
a corar ao sol no riacho da Estupidez! 
Ahi! Zero-barómetro da Convicção! 
bitola dos chega, dos basta, dos não quero mais! 
Ahi! Plebeísmo Aristocratizado no preço do panamá! 
erudição de calça de xadrez! 
competência de relógio d'oiro 
e correntes com suores do Brasil, 
e berloques de cornos de búfalo! 
E eu vivo aqui desterrado e Job 
da Vida-gémea d'Eu ser feliz! 
E eu vivo aqui sepultado vivo 
na Verdade de nunca ser Eu! 
Sou apenas o Mendigo de Mim-Próprio, 
órfão da Virgem do meu sentir. 
E como queres que eu faça fortuna 
se Deus, por escárnio, me deu Inteligência, 
e não tenho sequer, irmãs bonitas 
nem uma mãe que se venda para mim? 
(Pesam quilos no Meu querer 
as salas de espera de Mim.

Tu chegas sempre primeiro... 
Eu volto sempre amanhã... 
Agora vou esperar que morras. 
Mas tu és tantos que não morres... 
Vou deixar d'esp'rar que morras 
- Vou deixar d'esp'rar por mim!) 
Ah! que eu sinto, claramente, que nasci 
de uma praga de ciúmes! 
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo 
e a alma dos Bórgias a penar! 
E tu, também, vieille-roche, castelo medieval 
fechado por dentro das tuas ruínas! 
Fiel epitáfio das crónicas aduladoras! 
E tu também ó sangue azul antigo 
que já nasceste co'a biografia feita! 
Ó pajem loiro das cortesias-avozinhas! 
Ó pergaminho amarelo-múmia 
das grandes galas brancas das paradas 
e das Vitórias dos torneios-lotarias 
com donzelas-glórias! 
Ó resto de cetros, fumo de cinzas! 
Ó lavas frias do Vulcão pirotécnico 
com chuvas d'oiros e cabeleiras prateadas! 
Ó estilhacos heráldicos de Vitrais 
despegados lentamente sobre o tanque do silêncio! 
Ó Cedro secular 
debruçado no muro da Quinta sobre a estrada 
a estorvar o caminho da Mala-posta! 
E vós também, ó Gentes de Pensamento, 
ó Personalidades, ó Homens! 
Artistas de todas as partes, cristãos sem pátria, 
Cristos vencidos por serem só Um! 
E vós, ó Génios da Expressão, 
e vós também, ó Génios sem Voz! 
ó além-infinito sem regressos, sem nostalgias, 
Espectadores gratuitos do Drama-Imenso de Vós-Mesmos! 
Profetas clandestinos 
do Naufrágio de Vossos Destinos! 
E vós também, teóricos-irmãos-gémeos 
do meu sentir internacional! 
Ó escravos da Independência! 
Vós que não tendes prémios 
por se ter passado a vez de os ganhardes, 
e famintos e covardes 
entreteis a fome em revoltas do Mau-Génio 
no boémia da bomba e da pólvora! 
E tu também, ó Beleza Canalha 
Co'a sensibilidade manchada de vinho! 
Ó lírio bravo da Floresta-Ardida 
à meia-porta da tua Miséria! 
Ó Fado da Má-Sina 
com ilustrações a giz 
e letra da Maldição! 
Ó fera vadia das vielas açaimada na Lei! 
Ó xale e lenço a resguardar a tísica! 
Ó franzinas do fanico 
co'a sífilis ao colo por essas esquinas! 
Ó nu d'aluguer 
na meia-luz dos cortinados corridos! 
Ó oratório da meretriz a mendigar gorjetas 
p'rá sua Senhora da Boa-Sorte! 
Ó gentes tatuadas do calão! 
carro vendado da Penitenciária! 
E tu também, ó Humilde, ó Simples! 
enjaulados na vossa ignorância! 
Ó pé descalço a calejar o cérebro! 
Ó músculos da saúde de ter fechada a casa de pensar! 
Ó alguidar de açorda fria 
na ceia-fadiga da dor-candeia! 
Ó esteiras duras pra dormir e fazer filhos! 
Ó carretas da Voz do Operário 
com gente de preto a pé e filarmónica atrás! 
Ó campas rasas, engrinaldadas, 
com chapões de ferro e balões de vidro!

Ó bota rota de mendigo abandonada no pó do caminho! 
Ó metamorfose-selvagem das feras da cidade! 
Ó geração de bons ladrões crucificados na Estupidez! 
Ó sanfona-saloia do fandango dos campinos! 
Ó pampilho das Lezírias inundadas de Cidade! 
ó trouxa d'aba larga da minha lavadeira, 
Ó rodopio azul da saia azul de Loures! 
E vós varinas que sabeis a sal 
as Naus da Fenícia ainda não voltaram?! 
E vós também, ó moças da Província 
que trazeis o verde dos campos 
no vermelho das faces pintadas! 
E tu também, ó mau gosto 
co'a saia de baixo a ver-se 
e a falta d'educação! 
Ó oiro de pechisbeque (esperteza dos ciganos) 
a luzir no vermelho verdadeiro da blusa de chita! 
Ó tédio do domingo com botas novas 
e música n'Avenida! 
Ó santa Virgindade 
a garantir a falta de lindeza! 
Ó bilhete postal ilustrado 
com aparições de beijos ao lado! 
E vós ó gentes que tendes patrões, 
autómatos do dono a funcionar barato! 
Ó criadas novas chegadas de fora p'ra todo o serviço! 
Ó costureiras mirradas, 
emaranhadas na vossa dor! 
Ó reles caixeiros, pederastas do balcão, 
a quem o patrão exige modos lisonjeiros 
e maneiras agradáveis pròs fregueses! 
Ó Arsenal fadista de ganga azul e coco socialista! 
Ó saídas pôr-do-sol das Fábricas d'Agonia! 
E vós também, ó toda a gente, que todos tendes patrões! 
E vós também, nojentos da Política 
que explorais eleitos o Patriotismo! 
Macrots da Pátria que vos pariu ingénuos 
e vos amortalha infames! 
E vós também, pindéricos jornalistas 
que fazeis cócegas e outras coisas 
à opinião pública! 
E tu também roberto fardado: 
Futrica-te espantalho engalonado, 
apoia-te das patas de barro, 
Larga a espada de matar 
e põe o penacho no rabo! 
Ralha-te mercenário, asceta da Crueldade! 
Espuma-te no chumbo da tua Valentia! 
Agoniza-te Rilhafoles armado! 
Desuniversidadiza-te da doutorança da chacina, 
da ciencia da matança! 
Groom fardado da Negra, 
pária da Velha! 
Encaveira-te nas esporas luzidias de seres fera! 
Despe-te da farda, 
desenfia-te da Impostura, e põe-te nu, ao léu 
que ficas desempregado! 
Acouraça-te de senso, 
vomita de vez o morticínio, 
enche o pote de raciocínio, 
aprende a ler corações, 
que há muito mais que fazer 
do que fazer revoluções! 
Ruína com tuas próprias peças-colossos 
as tuas próprias peças colossais, 
que de 42 a 1 é meio-caminho andado! 
Rebusca no seres selvagem 
no teu cofre do extermínio 
o teu calibre máximo! 
Põe de parte a guilhotina, 
dá férias ao garrote! 
Não dês língua aos teus canhões, 
nem ecos às pistolas, 
nem vozes às espingardas!

– São coisas fora de moda! 
Põe-te a fazer uma bomba 
que seja uma bomba tamanha 
que tenha dez raios da Terra. 
Põe-lhe dentro a Europa inteira, 
os dois pólos e as Américas, 
a Palestina, a Grécia, o mapa 
e, por favor, Portugal! 
Acaba de vez com este planeta, 
faze-te Deus do Mundo em dar-lhe fim! 
(Há tanta coisa que fazer, Meu Deus! 
e esta gente distraída em guerras!) 
Eu creio na transmigração das almas 
por isto de Eu viver aqui em Portugal. 
Mas eu não me lembro o mal que fiz 
durante o Meu avatar de burguês. 
Oh! Se eu soubesse que o Inferno 
não era como os padres mo diziam: 
uma fornalha de nunca se morrer... 
mas sim um Jardim da Europa 
à beira-mar plantado... 
Eu teria tido certamente mais juízo, 
teria sido até o mártir São Sebastião! 
E inda há quem faça propaganda disto: 
a pátria onde Camões morreu de fome 
e onde todos enchem a barriga de Camões! 
Se ao menos isto tudo se passasse 
numa Terra de mulheres bonitas! 
Mas as mulheres portuguesas 
são a minha impotência! 
E tu, meu rotundo e pançudo-sanguessugo, 
meu desacreditado burguês apinocado 
da rua dos bacalhoeiros do meu ódio 
co'a Felicidade em casa a servir aos dias! 
Tu tens em teu favor a glória fácil 
igual à de outros tantos teus pedaços 
que andam desajuntados neste Mundo, 
desde a invenção do mau cheiro, 
a estorvar o asseio geral. 
Quanto mais penso em ti, mais tenho Fé e creio 
que Deus perdeu de vista o Adão de barro 
e com pena fez outro de bosta de boi 
por lhe faltar o barro e a inspiração! 
E enquanto este Adão dormia 
os ratos roeram-lhe os miolos, 
e das caganitas nasceu a Eva burguesa! 
Tu arreganhas os dentes quando te falam d'Orpheu 
e pões-te a rir, como os pretos, sem saber porquê. 
E chamas-me doido a Mim 
que sei e sinto o que Eu escrevi! 
Tu que dizes que não percebes; 
rir-te-has de não perceberes? 
Olha Hugo! Olha Zola, Cervantes e Camões, 
e outros que não são nada por te cantarem a ti! 
Olha Nietzche! Wilde! Olha Rimbaub e Dowson! 
Cesário, Antero e outros tantos mundos! 
Beethoven, Wagner e outros tantos génios 
que não fizeram nada, 
que deixaram este mundo tal qual! 
Olha os grandes o que são estragados por ti! 
O teu máximo é ser besta e ter bigodes. 
A questão é estar instalado. 
Se te livras de burguês e sobes a talento, a génio, 
a seres alguém, 
o Bem que tu fizeres é um décimo de seres fera! 
E de que serve o livro e a ciência 
se a experiência da vida 
é que faz compreender a ciência e o livro? 
Antes não ter ciências! 
Antes não ter livros! 
Antes não ter Vida! 
Eu queria cuspir-te a cara e os bigodes, 
quando te vejo apalermado p'las esquinas 
a dizeres piadas às meninas,

e a gostares das mulheres que não prestam 
e a fazer-lhes a corte 
e a apalpar-lhes o rabo, 
esse tão cantado belo cu 
que creio ser melhor o teu ideal 
que a própria mulher do cu grande! 
E casaste-te com Ela, 
porque o teu ideal veio pegado a Ela, 
e agora à brocha limpas a calva em pinga 
à coca de cunhas p'ró Cunha examinador 
do teu décimo nono filho 
dezanove vezes parvo! 
(É o caso mais exemplar de Constância e fidelidade 
a tua história sexual co'a Felisberta, 
desde o teu primogénito tanso 
'té ao décimo nono idiota.) 
'Té no matrimónio te maldigo, infame cobridor! 
Espécie de verme das lamas dos pântanos 
que de tanto se encharcar em gozos 
o seu corpo se atrofiou 
e o sexo elefantizado foi todo o seu corpo! 
Em toda a parte tu és o admirador 
e em toda a parte a tua ignorância 
tem a cumplicidade da incompetência 
dos que te falam 'té dos lugares sagrados. 
Sim! Eu sei que tu és juiz 
e qu'inda ontem prometeste a tua amante, 
despedindo-a num beijo de impotente, 
a condenação dos réus que tivesses 
se Ela faltasse à matinée da Boa-Hora! 
Pulha! E és tu que do púlpito 
d'essa barriga d'Água da Curia 
dás a ensinança de trote 
aos teus dezanove filhos?! 
Cocheiros, contai: dezanove!!! 
Zute! bruto-parvo-nada 
que Me roubaste tudo: 
'té Me roubaste a Vida 
e não Me deixaste nada! 
nem Me deixaste a Morte! 
Zute! poeira-pingo-micróbio 
que gemes pequeníssimos gemidos gigantes 
grávido de uma dor profeta colossal. 
Zute! elefante-berloque parasita do não presta! 
Zute! bugiganga-celulóide-bagatela! 
Zute, besta! 
Zute, bácoro!! 
Zute, merda!!! 
Em toda a parte o teu papel é admirar, 
mas (caso inf'liz) 
nunca acertas numa admiração feliz. 
Lês os jornais e admiras tudo do princípio ao fim 
e se por desgraça vem um dia sem jornais, 
tens de ficar em casa nos chinelos 
porque nesse dia, felizmente, 
não tens opinião pra levares à rua. 
Mas nos outros dias lá estás a discutir. 
É que a Natureza é compensadora: 
quem não tem dinheiro p'ra ir ao Coliseu 
deve ter cá fora razões p'ra se rir. 
Só te oiço dizer dos outros 
a inveja de seres como eles. 
Nem ao menos, pobre fadista, 
a veleidade de seres mais bruto? 
Até os teus desejos são avaros 
como as tuas unhas sujas e ratadas. 
Ó meu gordo pelintrão, 
água-morna suja, broa do outro v'rao! 
Os homens são na proporção dos seus desejos 
e é por isso que eu tenho a Concepção do Infinito... 
Não te cora ser grande o teu avô 
e tu apenas o seu neto, e tu apenas o seu esperma? 
Não te dói Adão mais que tu? 
Não te envergonha o teres antes de ti

outros muito maiores que tu? 
Jamais eu quereria vir a ser um dia 
o que o maior de todos já o tivesse sido 
eu quero sempre muito mais 
e mais ainda muito pr'além-demais-Infinito... 
Tu não sabes, meu bruto, que nós vivemos tão pouco 
que ficamos sempre a meio-caminho do Desejo? 
Em toda a parte o bicho se propaga, 
em toda a parte o nada tem estalagem. 
O meu suplício não é somente de seres meu patrício 
ou o de ver-te meu semelhante, 
tu, mesmo estrangeiro, és besta bastante. 
Foi assim que te encontrei na Rússia 
como vegetas aqui e por toda a parte, 
e em todos os ofícios e em todas as idades. 
Lá suportei-te muito! Lá falavas russo 
e eu só sabia o francês. 
Mas na França, em Paris - a grande capital, 
apesar de fortificada, 
foi assolada por esta espécie animal. 
E andam p'los cafés como as pessoas 
e vestem-se na moda como elas, 
e de tal maneira domésticos 
que até vão às mulheres 
e até vão aos domésticos. 
Felizmente que na minha pátria, 
a minha verdadeira mãe, a minha santa Irlanda, 
apenas vivi uns anos d'Infância, 
apenas me acodem longinquamente 
as festas ensuoradas do priest da minha aldeia, 
apenas ressuscitam sumidamente 
as asfixias da tísica-mater, 
apenas soam como revoltas 
as pistolas do suicídio de meu pai, 
apenas sinto infantilmente 
no leito de uma morta 
o gelo de umas unhas verdes, 
um frio que não é do Norte, 
um beijo grande como a vida de um tísico a morrer. 
Ó Deus! Tu que m'os levaste é que sabias 
o ódio que eu lhes teria 
se não tivessem ficado por ali! 
Mas antes, mil vezes antes, aturar os burgueses da My 
Ireland 
que estes desta Terra 
que parece a pátria deles! 
Ó Horror! Os burgueses de Portugal 
têm de pior que os outros 
o serem portugueses! 
A Terra vive desde que um dia 
deixou de ser bola do ar 
p'ra ser solar de burgueses. 
Houve homens de talento, génios e imperadores. 
Precisaram-se de ditadores, 
que foram sempre os maiores. 
Cansou-se o mundo a estudar 
e os sábios morreram velhos 
fartos de procurar remédios, 
e nunca acharam o remédio de parar. 
E inda eu hoje vivo no século XX 
a ver desfilar burgueses 
trezentas e sessenta e cinco vezes ao ano, 
e a saber que um dia 
são vinte e quatro horas de chatice 
e cada hora sessenta minutos de tédio 
e cada minuto sessenta segundos de spleen! 
Ora bolas para os sábios e pensadores! 
Ora bolas para todas as épocas e todas as idades! 
Bolas pròs homens de todos os tempos, 
e prà intrujice da Civilização e da Cultura! 
Eu invejo-te a ti, ó coisa que não tens olhos de ver! 
Eu queria como tu sentir a beleza de um almoço pontual 
e a f'licidade de um jantar cedinho 
co'as bestas da família.

Eu queria gostar das revistas e das coisas que não prestam 
porque são muitas mais que as boas 
e enche-se o tempo mais! 
Eu queria, como tu, sentir o bem-estar 
que te dá a bestialidade! 
Eu queria, como tu, viver enganado da vida e da mulher, 
e sem o prazer de seres inteligente pessoalmente! 
Eu queria, como tu, não saber que os outros não valem nada 
p'ra os poder admirar como tu! 
Eu queria que a vida fosse tão divinal 
como tu a supões, como tu a vives! 
Eu invejo-te, ó pedaço de cortiça 
a boiar à tona d'água, à mercê dos ventos, 
sem nunca saber que fundo que é o Mar! 
Olha para ti! 
Se te não vês, concentra-te, procura-te! 
Encontrarás primeiro o alfinete 
que espetaste na dobra do casaco, 
e depois não percas o sítio, 
porque estás decerto ao pé do alfinete. 
Espeta-te nele para não te perderes de novo, 
e agora observa-te! 
Não te escarneças! Acomoda-te em sentido! 
Não te odeies ainda qu'inda agora começaste! 
Enioa-te no teu nojo, mastodonte! 
Indigesta-te na palha dessa tua civilização! 
Desbesunta te dessa vermência! 
Destapa a tua decência, o teu imoral pudor! 
Albarda te em senso! Estriba-te em Ser! 
Limpa-te do cancro amarelo e podre! 
Do lazareto de seres burro! 
Desatrela-te do cérebro-carroça! 
Desata o nó-cego da vista! 
Desilustra-te, descultiva-te, despole-te, 
que mais vale ser animal que besta! 
Deixa antes crescer os cornos que outros adornos da 
Civilização! 
Queria-te antes antropófago porque comias os teus 
– talvez o mundo fosse Mundo 
e não a retrete que é! 
Ahi! excremento do Mal, avergonha-te 
no infinitamente pequeno de ti com o teu papagaio: 
Ele fala como tu e diz coisas que tu dizes 
e se não sabe mais é por tua culpa, meu mandrião! 
E tu, se não fossem os teus pais, 
davas guinchos, meu saguim! 
- Tu és o papagaio de teus pais! 
Mas há mais, muito mais 
que a tua ignorância-miopia te cega. 
Empresto-te a minha Inteligência. 
Vê agora e não desmaies ainda! 
Então eu não tinha razão? 
P'ra que me chamavas doido 
quando eu m'enjoava de ti? 
Ah! Já tens medo?! 
Porque te rias da vida 
e ias ensuorar as vrilhas nos fauteuils das revistas 
co'as pernas fogo de vistas 
das coristas de petróleo? 
Porque davas palmas aos compéres e actorecos 
pelintras e fantoches 
antes do palco, no palco e depois do palco? 
Ora dize-Me com franqueza: 
Era por eles terem piada? 
Então era por a não terem 
Ah! Era p'ra tu teres piada, meu bruto?! 
Porque mandaste de castigo os teus filhos p'r'ás Belas-Artes 
quando ficaram mal na instrução primária? 
Porque é que dizes a toda a gente que o teu filho idiota 
estuda p'ra poeta? 
Porque te casaste com a tua mulher 
se dormes mais vezes co'a tua criada? 
Porque bateste no teu filho quando a mestra 
te contou as indecências na aula?

Não te lembras das que tu fizeste 
com a própria mestra de moral? 
Ou queres tu ser decente, 
tu, que tens dezanove filhos?! 
Porque choraste tanto quando te desonraram a filha? 
Porque lhe quiseste matar o amante? 
Não achas isto natural? Não achas isto interessante? 
Porque não choraste também pelo amante?... 
Deixa! Deixa! Eu não te quero morto com medo de ti-próprio! 
Eu quero-te vivo, muito vivo, a sofrer! 
Não te despetes do alfinete! 
Eu abro a janela pra não cheirar mal! 
Galopa a tua bestialidade 
na memória que eu faço dos teus coices, 
cavalga o teu insecticismo na tua sela de D. Duarte! 
Arreia-te de Bom-Senso um segundo! peço-te de joelhos. 
Encabresta-te de Humanidade 
e eu passo-te uma zoologia para as mãos 
p'ra te inscreveres na divisão dos Mamíferos. 
Mas anda primeiro ao Jardim Zoológico! 
Vem ver os chimpanzés! Acorpanzila-te neles se te ousas! 
Sagra-te de cu-azul a ver se eles te querem! 
Lá porque aprendeste a andar de mãos no ar 
não quer dizer que sejas mais chimpanzé que eles! 
Larga a cidade masturbadora, febril, 
rabo decepado de lagartixa, 
labirinto cego de toupeiras, 
raça de ignóbeis míopes, tísicos, tarados, 
anémicos, cancerosos e arseniados! 
Larga a cidade! 
Larga a infâmia das ruas e dos boulevards 
esse vaivém cínico de bandidos mudos 
esse mexer esponjoso de carne viva 
Esse ser-lesma nojento e macabro 
Esse S ziguezague de chicote auto-fustigante 
Esse ar expirado e espiritista... 
Esse Inferno de Dante por cantar 
Esse ruído de sol prostituído, impotente e velho 
Esse silêncio pneumónico 
de lua enxovalhada sem vir a lavadeira! 
Larga a cidade e foge! 
Larga a cidade! 
Vence as lutas da família na vitória de a deixar. 
Larga a casa, foge dela, larga tudo! 
Nem te prendas com lágrimas, que lágrimas são cadeias! 
Larga a casa e verás - vai-se-te o Pesadelo! 
A família é lastro, deita-a fora e vais ao céu! 
Mas larga tudo primeiro, ouviste? 
Larga tudo! 
– Os outros, os sentimentos, os instintos, 
e larga-te a ti também, a ti principalmente! 
Larga tudo e vai para o campo 
e larga o campo também, larga tudo! 
– Põe-te a nascer outra vez! 
Não queiras ter pai nem mãe, 
não queiras ter outros nem Inteligência! 
A Inteligência é o meu cancro 
eu sinto-A na cabeça com falta de ar! 
A Inteligência é a febre da Humanidade 
e ninguém a sabe regular! 
E já há Inteligência a mais pode parar por aqui! 
Depois põe-te a viver sem cabeça, 
vê só o que os olhos virem, 
cheira os cheiros da Terra 
come o que a Terra der, 
bebe dos rios e dos mares, 
- põe-te na Natureza! 
Ouve a Terra, escuta-A. 
A Natureza à vontade só sabe rir e cantar! 
Depois, põe-te a coca dos que nascem 
e não os deixes nascer. 
Vai depois pla noite nas sombras 
e rouba a toda a gente a Inteligência 
e raspa-lhos a cabeça por dentro

co'as tuas unhas e cacos de garrafa, 
bem raspado, sem deixar nada, 
e vai depois depressa muito depressa 
sem que o sol te veja 
deitar tudo no mar onde haja tubarões! 
Larga tudo e a ti também! 
Mas tu nem vives nem deixas viver os mais, 
Crápula do Egoísmo, cartola d'espanta-pardais! 
Mas hás-de pagar-Me a febre-rodopio 
novelo emaranhado da minha dor! 
Mas hás-de pagar-Me a febre-calafrio 
abismo-descida de Eu não querer descer! 
Hás-de pagar-Me o Absinto e a Morfina 
Hei-de ser cigana da tua sina 
Hei-de ser a bruxa do teu remorso 
Hei-de desforra-dor cantar-te a buena-dicha 
em águas fortes de Goya 
e no cavalo de Tróia 
e nos poemas de Poe! 
Hei-de feiticeira a galope na vassoura 
largar-te os meus lagartos e a Peçonha! 
Hei-de Vara Magica encantar-te Arte de Ganir 
Hei-de reconstruir em ti a escravatura negra! 
Hei-de despir-te a pele a pouco e pouco 
e depois na carne-viva deitar fel, 
e depois na carne-viva semear vidros, 
semear gumes, 
lumes, 
e tiros. 
Hei-de gozar em ti as poses diabólicas 
dos teatrais venenos trágicos do persa Zoroastro! 
Hei-de rasgar-te as virilhas com forquilhas e croques, 
e desfraldar-te nas canelas mirradas 
o negro pendão dos piratas! 
Hei-de corvo marinho beber-te os olhos vesgos! 
Hei-de bóia do Destino ser em brasa 
e tua náufrago das galés sem horizontes verdes! 
E mais do que isto ainda, muito mais: 
Hei-de ser a mulher que tu gostes, 
hei-de ser Ela sem te dar atenção! 
Ah! que eu sinto claramente que nasci 
de uma praga de ciúmes. 
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo 
e a Alma dos Bórgias a penar!... 
de José Almada Negreiros 
poeta sensacionista 
e Narciso do Egipto




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Terça-feira, 4 de Julho de 2017

A terra do sr Fernando

Orca Terra

Mais que uma vez, falei de uma personagem ímpar que, por seu valor, se impôs na comunidade de Vilar Maior, de seu nome completo Fernando Boavida Castelo Branco. Passou a ser ratado como senhor Fernando ou senhor Fernandinho pela frente. Por trás, movidos por inveja, alcunharam-no de Areias.  Dele se pode sizer que chegou, viu e venceu combinando um jeito especial para o negócio com uma grande dose de sorte. Numa comunidade a viver ainda ao modo medieval, numa economia de troca de favores e de relações de patrocinato, introduziu como exclusivo valor de troca o dinheiro. Com ele chegou a motorização a Vilar Maior, proprietário de três automóveis e de uma malhadeira movida a motor.  

Fernandinho da Orca. De uma terra, que de acordo com a descrição da autora, era muito semelhante a Vilar Maior. O que levou o senhor Fernando a romper com a cultura de origem?

 

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Quarta-feira, 14 de Junho de 2017

A última pergunta - Isaac Asimov

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«O Homem disse, “AC, este é o fim? Não há como reverter este caos? Não pode ser feito?” O AC disse, “AINDA NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.” A última mente humana uniu-se às outras e apenas AC passou a existir – e, ainda assim, no hiperespaço. * * * A matéria e a energia se acabaram e, com elas, o tempo e o espaço. AC continuava a existir apenas em função da última pergunta que nunca havia sido respondida, desde a época em que um técnico de computação embriagado, há dez trilhões de anos, a fizera para um computador que guardava menos semelhanças com o AC do que o homem com o Homem. Todas as outras questões haviam sido solucionadas, e até que a derradeira também o fosse, AC não poderia descansar sua consciência. A coleta de dados havia chegado ao seu fim. Não havia mais nada para aprender. No entanto, os dados obtidos ainda precisavam ser cruzados e correlacionados de todas as maneiras possíveis. Um intervalo imensurável foi gasto neste empreendimento. Finalmente, AC descobriu como reverter a direção da entropia. Não havia homem algum para quem AC pudesse dar a resposta final. Mas não importava. A resposta – por definição – também tomaria conta disso. Por outro incontável período, AC pensou na melhor maneira de agir. Cuidadosamente, AC organizou o programa. A consciência de AC abarcou tudo o que um dia foi um Universo e tudo o que agora era o Caos. Passo a passo, isso precisava ser feito. E AC disse: “FAÇA-SE A LUZ!” E fez-se a luz

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Terça-feira, 13 de Junho de 2017

A vida é um jogo

a cigarra filosófica.jpg

Andava carecido de uma boa leitura filosófica. Chegou.

Um livro excelente que nos reconduz à ironia e maieutica socrática. Além do método, o tema, é socrático também, eminentemente filosófico, pois, trata de investigar o que é uma vida boa e como se deve agir para a atingir. Porém, algo nos separa do tempo socrático, a saber, o desenvolvimento tecnológio que nos permite sonhar com um tempo em que o homem, todos os homens não tenham que se preocupar com o que hão-de comer ou vestir, nem sequer com a ciência ou com o sexo, pois estaremos na sociedade da Utopia, um estado de coisas em que as pessoas se dedicam apenas àquelas atividades que valorizam intrinsecamente. Portanto, são eliminadas todas as atividades instrumentais, todas as coisas que se costumam designar como 'trabalho' que passam a ser feitas por máquinas totalmente automatizadas, substituindo uma sociedade de escassez por uma sociedade de abundância.. No entanto, uma sociedade assim, não deixará de ter os seus inimigos.

«Os Diligentes e os Sabujos chegaram à conclusão de que se as suas vidas eram meros jogos, então essas vidas dificilmente seriam dignas de ser vividas. Assim otivados, começaram a forçar em si próprios a crença de que as casas feitaspor pessoas eram mais valiosas do que as casas feitas por computadores, e que os problemas científicos há muito resolvidos precisavam de solução. Começaram então a persuadir outros da verdade destas opiniões e foram mesmo ao ponto de representar os computadores como inimigos da humanidade. Por fim, aprovaram legislação que bania o seu uso. Mais tempo passou então, e a todos parecia que o jogo da carpintaria e o jogo da ciência não eram de todo jogos, mas tarefas crucialmente necessárias que tinham de ser realizadas para que a Humanidade sobrevivesse. Assim, embora todasas actividades humanas aparentemente produtivas fossem jogos, não se acreditava que fossem jogos. Os jogos foram mais uma vez relegados para o papel de meros pasatempos, úteis para preencher lacunas nas nossas actividades sérias. (...) 'Vem agora, Cigarra, sabes muito bemque a maioria das pessoas não quererá passar as suas vidas a jogar jogos. A vida para a maioria das pessoas não será digna de ser vivida se não puderem acreditar que fazem algo útil, seja sustentando as famílias ou formulando uma teoria da relatividade'».

 

 

 

publicado por julmar às 11:35
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Segunda-feira, 5 de Junho de 2017

O Pharnacon, notas sem autor

" Um pouco do que faz mal, pode fazer muito bem."

"Um placebo é a forma farmacológica assumida pela retórica, é o poder da persuasão literalmente metida numa cápsula"

"O significado do placebo é: se acreditarmos poder melhorar, temos grande possibilidade de o conseguir"

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Segunda-feira, 29 de Maio de 2017

VANTAGENS DOS MANUAIS EM SUPORTE ELETRÓNICO

Num post anterior, prometi fazer um comparativo entre os manuais em suporte de papel e os manuais em suporte eletrónico. Optei por enumerar, apenas, algumas das vantagens dos manuais em suporte digital. Os apologistas dos manuais em suporte de papel que enumerem as respetivas vantagens. Algumas haverá.

  1. Pode chegar a doutor sem ser um burro carregado de livros

Um smartphone, ou para maior comodidade um tablet, pode ter 1/3 do peso  e do volume de qualquer manual em papel.

Nele poderá transportar mais livros do que os existentes na biblioteca maior que você conhece. Quantos livros cabem na pasta que leva para a escola e lhe dá cabo da saúde? Também dispensa levar cadernos para tirar notas e apontamentos ou papel para fazer testes.

  1. Se tiver necessidades educativas especiais

Se for amblíope pode aumentar o tamanho da letra. De todo o modo, pode colocá-la na dimensão mais confortável, escolher a cor da página,  um tipo de letra diferente e o brilho.

Se for cego pode ouvir o seu manual falar consigo, já para não falar das inúmeras aplicações para alunos com dificuldades de aprendizagem ou com diversos tipos de deficiência.

  1. Pode dar folga ao professor

O professor não tem que lhe  dar toda a informação e  explicar tudo, nem avaliar os alunos, constantemente. Os manuais digitais são interativos, dando-lhes uma vantagem ímpar na aprendizagem: através de links, o aluno pode aceder a páginas de autores, sites, músicas, vídeos, fóruns de discussão, artigos gerais e especializados. Poderá pesquisar no Google, sem sair do lugar, o significado de palavras ou ter uma primeira abordagem, na maior de todas enciclopédias, o Wikipédia.

Os manuais podem ser atualizados, automaticamente, sem custos.

4.São mais baratos (muito mais) e, muitos deles, são de graça.

Deixando de ser um objeto físico, o manual está, agora, ao nível do conhecimento: deixa de ter preço. O conhecimento, mesmo partilhado,  continua, inteiramente, na sua posse.

Os melhores livros (história, filosofia, arte, religião, literatura…) que, até hoje, se escreveram,  como os clássicos, são de graça, porque a cultura é um bem inesgotável.

 5. São amigos da natureza

Grande parte das florestas são transformadas em pasta de papel para fazer livros. Agora, podemos poupar a Natureza.

 6. Não se deterioram, não se perdem e ninguém os rouba

Deixará de ouvir os professores, os pais e até o ME a recomendar respeito pelos manuais e a ameaçar com o pagamento de coimas. Pode fazer comentários e rabiscar à vontade.

E, se o dispositivo quebrar, relaxa: poderá baixar todos os livros de novo. É só conectar à conta da loja!

 7.Faltas de material

Bom! Acaba o drama do aluno que, no meio de cadernos vários, lápis e esferográficas e mais não sei quantos manuais, se esqueceu de qualquer coisa. E as eternas questiúnculas: marcar falta, onde, qual o limite, qual a sanção, como se comunica ao Encarregado de Educação? Deve constar no R.I.? Um tratado legislativo-penal tornado inútil. Porque há uma coisa de que nenhum aluno esquece: o smartphone. E está tudo lá!

publicado por julmar às 19:41
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Sexta-feira, 26 de Maio de 2017

Os manuais escolares: Em suporte de papel ou em suporte eletrónico?

Hoje enquanto tomava o meu café, dois rapazinhos de nove anos, sentadas ao meu lado, divertiam-se cada um com o seu smartphone. Peguei conversa com eles, medindo a reação: - Pois, vocês hoje ficaram muito tristes por não terem aulas! (greve na Função Pública). Caçoaram comigo: - Sim,sim. Ficámos banhados em lágrimas!

E lá continuaram mostrando um ao outro um jogo e os níveis que já tinha atingido. Esta será uma geração que vai ter uma relação com o saber completamente diferente da dos seus professores. Pena é  que o ME,  a escola e os seus professores não favoreçam e orientem, desde já, as mudanças que são inevitáveis, que não favoreçam, obstaculizem ou se recusem a utilizar meios com uma eficiência incomparável aos suportes tradicionais. Os suportes, a forma de produção e difusão da informação (a invenção da escrita, a descoberta da imprensa de Gutemberg, a televisão) provocaram autênticas revoluções. Nenhuma delas teve um potencial tão grande como as novas tecnologias de informação e comunicação. A sala de aula continua, a maior parte das vezes, a funcionar como se nada estivesse a acontecer ou quando muito a utilizar parte das novas tecnologias apenas como substitutas das anteriores: o quadro interativo  a substituir acetatos ou projetor de slides, conservando, assim, um modelo de ensino centrado na informação que o professor escolhe e expõe a todos os alunos, mudando um bocadinho para tudo ficar na mesma. Por vezes, quando os professores ousam ir mais além e não dominam, suficientemente, as novas tecnologias fica pior a emenda do que o soneto. Cada professor faz apenas aquil que sabe e o melhor que sabe, é, quase sempre, o modelo que lhe serviu enquanto aluno. A escola na sua organização, à parte a parte administrativa, continua a ser aquilo que sempre foi. O ministério faz o que sabe fazer: remendar. As escolas reclamam autonomia mas é coisa que não estão em condições de fazer dela um exercício sério.

O ùnico projeto que houve de introdução das novas tecnologias nas escolas aconteceu no primeiro governo de Sócrates: Criação de uma infra-estrutura de redes, de computadores e instalação de Quadros Interativos nas salas de aulas e uma formação extensiva a todos os professores. No primeiro ciclo houve a distribuição de computadores aos alunos, uma medida importante que os opositores denegriram e ridicularizaram. 

Deambulei por tudo isto, quando o que me moveu a esta escrita foi uma notícia lida num diário sobre as multas que seriam aplicadas aos encarregados de educação caso os manuais a entregar no final do ano letivo não estivessem em condições. E lembrei-me do tempo em que era professor e em que também fazia a avaliação do uso que os alunos davam aos manuais. No dia do teste, era já uma rotina, os alunos colocavam o seu manual na minha secretária. Enquanto faziam o teste, um por um avaliava-os a todos: Livro que estivesse virgem tinha a pior classificação; livro que estivesse bem sublinhado, bem anotado, digamos todos os indícios de que ali se trabalhara teria uma boa classificação. Ensinar técnicas de estudos, entre as quais se contava o bom uso do manual era matéria das primeiras aulas. Se fosse hoje não me livraria de que os pais me remetessem as coimas para eu pagar. Mas, então, não é ridículo pedir a alguém que trabalha que não desgaste ou não use a ferramenta, que a poupe para quem vem a seguir?

Continuo a não perceber por que é que o suporte da informação tem de ser em papel. Sim, eu também gosto de livros de papel (tenho uns bons milhares), gosto deles como objetos físicos, gosto de os folhear, dos mais antigos  em que aprecio o cheiro caraterístico. Como gosto de objetos artesanais. Hoje também já tenho milhares de livros em suporte eletrónico (ebooks) e se preciso de uma obra de Aristóteles, de Descartes ou de Kant, da Bíblia ou do Corão já não preciso de ir à estante. Hoje já não estou com tempo nem disposição, mas um dia destes faço um quadro comparativo das vantagens e desvantantagens da utilização de um manual em suporte eletrónico e de um manual em suporte de papel. Se quiser, faça esse exercício.

 

publicado por julmar às 17:12
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Quarta-feira, 24 de Maio de 2017

Aprendendo com as fábulas de Jean de La Fontaine: O amor e a loucura

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"Contam que uma vez se reuniram todos os sentimentos e qualidades dos homens em um lugar da terra. Quando o ABORRECIMENTO havia reclamado pela terceira vez, a LOUCURA, como sempre tão louca, lhes propôs:

- Vamos brincar de esconde-esconde?

A INTRIGA levantou a sobrancelha intrigada e a CURIOSIDADE sem poder conter-se perguntou:

- Esconde-esconde? Como é isso?

- É um jogo, explicou a LOUCURA, em que eu fecho os olhos e começo a contar de um a um milhão enquanto vocês se escondem, e quando eu tiver terminado de contar, o primeiro de vocês que eu encontrar ocupará meu lugar para continuar o jogo.

O ENTUSIASMO dançou seguido pela EUFORIA.

A ALEGRIA deu tantos saltos que acabou pôr convencer a DÚVIDA e até mesmo a APATIA, que nunca se interessavam pôr nada. Mas nem todos quiseram participar.

A VERDADE preferiu não esconder-se. "Para que, se no final todos me encontram?

A SOBERBA opinou que era um jogo muito tonto (no fundo o que a incomodava era que a idéia não tivesse sido dela).

A COVARDIA preferiu não arriscar-se. - Um, dois, três, quatro... - começou a contar a LOUCURA.

A primeira a esconder-se foi a PRESSA, que como sempre caiu atrás da primeira pedra do caminho.

A FÉ subiu ao céu e a INVEJA se escondeu atrás da sombra do TRIUNFO, que com seu próprio esforço tinha conseguido subir na copa da árvore mais alta.

A GENEROSIDADE quase não consegue esconder-se, pois cada local que encontrava, lhe parecia maravilhoso para algum de seus amigos. Se era um lago cristalino, ideal para a BELEZA. Se era a copa de uma árvore, perfeito para a TIMIDEZ. Se era o voo de uma borboleta, o melhor para a VOLÚPIA. Se era uma rajada de vento, magnífico para a LIBERDADE. E assim acabou escondendo-se em um raio de sol.

O EGOÍSMO, ao contrário, encontrou um local muito bom desde o início. Ventilado, cómodo, mas apenas para ele. A MENTIRA escondeu-se no fundo do oceano (mentira, na realidade, escondeu-se atrás do arco-íris). E a PAIXÃO e o DESEJO, no centro dos vulcões.

O ESQUECIMENTO, não recordo-me onde escondeu-se, mas isso não é o mais importante.

Quando a LOUCURA estava lá pelo 999.999, o AMOR ainda não havia encontrado um local para esconder-se, pois todos já estavam ocupados, até que encontrou uma roseira e, carinhosamente, decidiu esconder-se entre suas flores.

A primeira a aparecer foi a PRESSA, apenas a três passos de uma pedra.

Depois, escutou-se a FÉ discutindo com Deus, no céu, sobre zoologia.

Sentiu-se vibrar a PAIXÃO e o DESEJO nos vulcões.

Em um descuido, a LOUCURA encontrou a INVEJA e claro, pôde deduzir onde estava o TRIUNFO. O EGOÍSMO, não teve nem que procurá-lo: ele sozinho saiu disparado de seu esconderijo, que na verdade era um ninho de vespas.

De tanto caminhar, a LOUCURA sentiu sede e ao aproximar-se de um lago, descobriu a BELEZA. A DÚVIDA foi mais fácil ainda, pois a encontrou sentada sobre uma cerca sem decidir de que lado esconder-se.

E assim foi encontrando a todos.

O TALENTO entre a erva fresca, a ANGÚSTIA em uma cova escura, a MENTIRA atrás do arco-íris (mentira, estava no fundo do oceano) e até o ESQUECIMENTO, que já havia esquecido que estava brincando de esconde-esconde.

Apenas o AMOR não aparecia em nenhum local.

A LOUCURA procurou atrás de cada árvore, embaixo de cada rocha do planeta e em cima das montanhas. Quando estava a ponto de dar-se pôr vencida, encontrou um roseiral. Pegou uma forquilha e começou a mover os ramos, quando, no mesmo instante, escutou-se um doloroso grito. Os espinhos tinham ferido o AMOR nos olhos.

A LOUCURA não sabia o que fazer para desculpar-se. Chorou, rezou, implorou, pediu perdão e até prometeu ser seu guia.

Desde então, desde que pela primeira vez se brincou de esconde-esconde na Terra, o AMOR é cego e a LOUCURA sempre o acompanha."

 

Jean de LA FONTAINE (1621-1695)

publicado por julmar às 11:12
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Segunda-feira, 22 de Maio de 2017

O Cérebro idiota

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"Duas coisas me enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e frequentemente o pensamento delas se ocupa: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim" I. Kant

Admiro e respeito muito os meus mestres, deles recebi ensinamentos do melhor que até hoje a humanidade produziu. Kant foi um deles e com quem aprendi algo de fundamental que se poderia traduzir na pergunta: como é que nós representamos o mundo? Especulativamente, apenas por especulação, tentou compreender como é que nós conhecemos, o que é que podemos conhecer, chegando à conclusão que apenas podemos conhecer fenómenos, isto é, a apreensão do mundo por nós, mas não o conhecimento do mundo em si, ou seja, do mundo noménico. 

Outro dos mestres, foi Sócrates e dele retive sempre a recomendação " Conhece-te a ti mesmo". Esse conhecimento é para quem quer construir o conhecimento o princípio, sem o qual nada fica garantido. Todos os filósofos acabam por fazê-lo. O meu mestre Descartes, fê-lo no "Discurso do Método", contando a história do saber examinando tudo quanto aprendera até então e de tomar a decisão de pôr tudo em dúvida. Toda a verdadeira filosofia começa por aí para depois escolher um caminho, um método. Também Bachelard e outros epistemólogos apelam à necessidade de rejeitar o falso saber sobre o qual não pode assentar nada de válido. Numa outra dimensão, o que nos ficaria de Santo Agostinho, sem a sua obra :"As Confissões"?

Porém, esses filósofos trabalhavam com o que tinham: Os sentidos e a razão. Não tinham nem microscópios nem telescópios, nem computadores, nem imagiologia e todo um conjunto de ferramentas que nos ajuda a ver o invisível, a medir, registar dados inimagináveis. Por isso, o nosso corpo e, particularmente o nosso cérebro, uma estrutura material que suporta os nossos pensamentos, sentimentos, emoções, crenças é hoje conhecida não de forma especulativa mas de uma forma científica.

E se o nosso cérebro é uma aquisição recente no desenvolvimento evolutivo do homem, é ele que, doravante, começa a comandar essa mesma evolução. E, por isso, é mais importante que nunca o " Conhece-te a ti mesmo".

Sendo que se trata de um comandante que todos temos,  a sua leitura é importante, para que não sejamos apanhados pelas suas idiotices.

publicado por julmar às 17:14
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